Qual o impacto do El Niño na produtividade agrícola? Veja projeções do BC por cultura

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Com a possibilidade cada vez maior de um El Niño de forte dimensão até o final do segundo trimestre de 2027, o Banco Central incluiu em seu Relatório de Política Monetária divulgada nesta quinta-feira uma projeção sobre a produtividade agrícola de várias das principais culturas brasileiras. A autoridade monetária concluiu que esses efeitos serão heterogêneos entre culturas e regiões.Os produtos analisados foram soja, milho, algodão herbáceo, arroz, cana-de-açúcar e café, que, em conjunto, respondem por aproximadamente 75% do valor da produção agrícola nacional.Leia tambémSuper El Niño: como o fenômeno vai afetar PIB, logística e custo dos alimentosFenômeno de forte intensidade divide o Brasil entre a seca extrema, que trava o escoamento no Norte, e tempestades com tornados no Sul; entidades alertam para gargalos no seguro rural e cobram gestão permanente de riscos No caso do milho, também foi analisada a abertura pela primeira e segunda safras, dado o aumento da importância da segunda safra nas últimas décadas e a possibilidade de respostas distintas às condições climáticas. A amostra principal compreendeu o período de 1990 a 2026, totalizando 37 observações anuais.Segundo o BC, para culturas como milho, algodão e arroz, os episódios de El Niño tendem a estar associados a produtividades abaixo da tendência histórica na maioria dos estados produtores, com magnitudes relevantes em vários casos.No caso da soja, os efeitos mostram-se mais heterogêneos entre regiões e próximos de zero quando colocados em nível nacional, refletindo a compensação entre ganhos observados no Sul do país e perdas em parte do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia)Nas culturas permanentes, os resultados apurados não permitem identificar impactos de El Niño sobre a produtividade da cana-de-açúcar.A explicação é que, no Brasil, o evento El Niño gera alterações na temperatura e no padrão de chuvas de distintas regiões, com possíveis efeitos econômicos relevantes. Tipicamente seus episódios estão associados ao aumento das chuvas na Região Sul, à redução das precipitações em partes das regiões Norte e Nordeste e a temperaturas acima da média em parcela do território nacional.Veja abaixo as projeções por cultura:Soja(Fonte: Relatório de Política Monetária/BC)A soja é o principal produto da agropecuária brasileira. Sua fase reprodutiva, que se estende aproximadamente de 45 a 100 dias após o plantio, é considerada o período de maior sensibilidade às condições climáticas.Para a produção de soja de 2026, tipicamente colhida entre os meses de janeiro e maio, o valor do Relative Oceanic Niño Index (RONI) [que calcula, em médias móveis trimestrais, a anomalia da temperatura da superfície do mar] situou-se, na maior parte das unidade federativas (UFs), entre agosto e dezembro de 2025.Segundo o relatório do BC, no agregado nacional, os efeitos estimados do El Niño sobre a produtividade da soja mostram-se reduzidos, refletindo a compensação entre impactos positivos e negativos observados em diferentes regiões do país.“Enquanto El Niño está associado a ganhos de produtividade no Rio Grande do Sul, em linha com o padrão de aumento das chuvas normalmente observado na Região Sul, o fenômeno apresenta associação negativa com a produtividade em áreas do Matopiba, especialmente no Piauí e no Maranhão”, diz o texto.Especificamente no Piauí, os episódios de El Niño estão associados a quedas expressivas da produtividade, contribuindo para alguns dos principais desvios negativos observados ao longo da amostra.Em contraste, no Rio Grande do Sul, os mesmos eventos contribuem para desvios positivos de magnitude relevante, em linha com o padrão de aumento das precipitações normalmente associado ao fenômeno na Região Sul. Em Mato Grosso há contribuição negativa do El Niño, mas com desvios menores em relação à tendência. Em Goiás sobressaem os efeitos positivos do evento La Niña.Milho(Fonte: Relatório de Política Monetária/BC)O milho, assim como a soja, tem na fase reprodutiva, que se estende aproximadamente entre 55 e 105 dias após o plantio, o período de maior sensibilidade às condições climáticas.Uma característica particular da produção de milho no Brasil, destaca o BC, é a coexistência da primeira e da segunda safras, que apresentam calendários agrícolas distintos. Além disso, a segunda safra (“safrinha”) ganhou importância crescente nas últimas décadas e atualmente responde pela maior parte da produção nacional. Como os eventos El Niño e La Niña podem afetar de forma distinta cada safra, a estimativa dos efeitos sobre a produtividade agregada do milho torna-se mais desafiadora, pondera o BC.Os efeitos do El Niño e da La Niña sobre a produtividade do milho mostram-se mais homogêneos do que os observados para a soja, com predomínio de coeficientes negativos, de magnitude relevante e, em diversos casos, estatisticamente significativos.“Diferentemente da soja, em que efeitos positivos e negativos tendem a se compensar entre regiões, as estimativas para o milho sugerem impactos adversos mais disseminados pelo território nacional. Os coeficientes agregados para o Brasil são negativos e estatisticamente significativos tanto para El Niño quanto para La Niña, indicando que ambos os eventos estão associados a produtividades abaixo da tendência histórica.”A abertura por safras, contudo, revela diferenças importantes. Em geral, os episódios de El Niño estão associados a reduções de produtividade em ambas as safras, mas os efeitos tendem a ser mais intensos na segunda safra.O efeito negativo de La Niña sobre a produtividade do milho agregado, por sua vez, reflete os impactos negativos observados na segunda safra, que se sobrepõem aos efeitos positivos estimados para a primeira safra. Entre os principais estados produtores, destacam-se as respostas negativas de elevada magnitude da segunda safra a ambos os eventos.Algodão(Fonte: Relatório de Política Monetária/BC)No algodão, o El Niño apresenta influência negativa sobre a produtividade, diz o BC. Os coeficientes são negativos e, para a maioria das UFs, de magnitude elevada e estatisticamente significativos.Mato Grosso, o principal produtor, é considerado uma exceção, com o BC dizendo não ser possível identificar efeitos relevantes do fenômeno sobre a produtividade.Já na Bahia, segundo maior produtor, o coeficiente associado a El Niño mostra-se negativo e estatisticamente significativo. Contudo, embora a contribuição do evento para o ciclo da produtividade do estado seja relevante, sua magnitude é substancialmente inferior à dos fatores não captados pelo modelo, especialmente até meados da década de 2000.Os efeitos de La Niña, por sua vez, revelam-se menos sistemáticos e, nos principais estados produtores, geralmente de pequena magnitude, resultando em um efeito próximo de zero para o Brasil.Arroz(Fonte: Relatório de Política Monetária/BC)Os coeficientes associados ao El Niño mostram-se predominantemente negativos para cultura do arroz, frequentemente de magnitude relevante e estatisticamente significativos, inclusive para o agregado nacional.“Em particular no Rio Grande do Sul, que responde por mais da metade da área plantada nacional, o coeficiente associado ao impacto negativo de El Niño é de magnitude relevante e estatisticamente significativo. Os efeitos de La Niña, por sua vez, mostram-se menos homogêneos e, nos principais produtores, geralmente de pequena magnitude, resultando em um coeficiente agregado para o Brasil próximo de zero.”Episódios anteriores do El Niño contribuíram para algumas das principais quedas de produtividade observadas ao longo da amostra usada pelo BC. “As projeções atuais para o RONI são compatíveis com um efeito adverso em 2027 de magnitude semelhante à observada durante os episódios de El Niño de 1998 e 2016.”Cana-de-açúcar(Fonte: Relatório de Política Monetária/BC)Segundo o relatório, as projeções não fornecem evidências de efeitos de magnitude expressiva em eventos de El Niño e La Niña sobre a produtividade da cana-de-açúcar. Os coeficientes agregados para o Brasil são nulos, enquanto as estimativas estaduais revelam magnitudes geralmente reduzidas e pouca significância estatística.“Esse resultado pode refletir características próprias da cultura, como seu ciclo produtivo mais longo, que tende a diluir os efeitos de choques climáticos concentrados em períodos específicos do seu desenvolvimento.”Café(Fonte: Relatório de Política Monetária/BC)Para o café, o relatório diz que a La Niña está associada a desvios positivos da produtividade. Já no caso do El Niño, os coeficientes são predominantemente negativos, mas de pequena magnitude e sem significância estatística para os principais produtores.“Os episódios de La Niña contribuem sistematicamente para aumentos de produtividade, embora sua magnitude seja inferior à dos fatores não captados pelo modelo.”The post Qual o impacto do El Niño na produtividade agrícola? Veja projeções do BC por cultura appeared first on InfoMoney.

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