Prévia da inflação acelera de forma disseminada e reduz margem para cortes de juros

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A alta de 0,7% na prévia da inflação de setembro, divulgada nesta sexta-feira (25) pelo IBGE, acelerou acima das expectativas, que estavam em torno de 0,53% a 0,55%. O resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) foi puxado pela alta de alimentos e pelos preços de energia após o fim do Bônus de Itaipu, mas a pressão da inflação de serviços e a piora em alguns núcleos pode acender o alerta para o ciclo de calibração de juros do Banco Central. No acumulado de 12 meses, o índice está em 4,47%, quase encostado no teto da meta, de 4,5%.Leia também: Taxas do Tesouro Direto recuam apesar do IPCA-15 acima do esperadoPressão de alta em energia e alimentosO principal motor da aceleração no mês veio do grupo Habitação, que registrou alta de 2,07% e contribuiu com o maior impacto positivo no índice geral. O dado foi puxado pela alta de 7,42% na energia elétrica residencial, uma consequência direta do fim da incorporação do Bônus de Itaipu, que havia garantido descontos no mês anterior. Gabriel Foglieni, gerente de investimentos da Eleva Invest, destaca que este item, sozinho, respondeu por 40% do resultado.Além dos custos com moradia, houve uma forte pressão vinda do retorno da inflação dos alimentos, que interrompeu uma sequência de quedas sazonais que estava aliviando o bolso dos consumidores. O grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,40% em setembro, influenciado pela retomada de alta da alimentação no domicílio, que encareceu 0,38% após recuar 0,97% em agosto.Produtos essenciais na mesa do brasileiro tiveram altas acentuadas, com o tomate subindo 20,76%, seguido pelo arroz, com 2,39%, e as carnes, que avançaram 1,30%.Christian Meduna, economista do banco BV, explica que a saída da deflação do setor alimentar nos produtos in natura tem “correlação com a questão climática”. Na mesma linha, o economista Júlio Barros, do Daycoval, aponta que o resultado positivo encerra o período de sazonalidade benéfica. “Continuamos alertando para a expectativa de aceleração mais intensa dos preços dos alimentos no último trimestre deste ano em função de um clima mais adverso, com a ocorrência do El Niño intenso.”Leia também: Super El Niño: como o fenômeno vai afetar PIB, logística e custo dos alimentosInflação de Serviços não recuaOs serviços também mantiveram a economia superaquecida. O grupo Transportes apresentou variação de 0,60%, influenciado pela disparada de 9,82% nas passagens aéreas, logo após terem recuado 13,30% na leitura de agosto. A economista da XP, Basiliki Litvac, avalia que os serviços seguem mostrando resiliência diante do mercado de trabalho aquecido e devem permanecer como o principal foco de atenção do Banco Central. Ela nota ainda uma surpresa altista por parte da gasolina, que avançou 0,30%, impulsionando desvios das projeções que aguardavam retração. Com o dado, a XP mudou a projeção para o IPCA de setembro, passando de 0,58% para 0,68%.‘Inflação disseminada’O que mais gera apreensão entre os especialistas, contudo, é a piora no aspecto qualitativo da prévia da inflação. A pressão nos preços não se limitou a distorções isoladas, atingindo todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE, e também todas as onze regiões monitoradas.André Matos, CEO da MA7 Capital, destacou que o que surpreendeu no IPCA-15 não foi a direção, mas a intensidade da variação de preços. Para o executivo, “se fosse apenas efeito da conta de luz, você veria energia subindo e o resto parado, e não foi isso”. Para ele, a pressão de preços nos nove grupos pesquisados “não é evento pontual, é inflação disseminada”. Pablo Spyer, conselheiro da Ancord (Associação Nacional das Corretoras de Valores), destaca que a média dos cinco núcleos de inflação que o Banco Central acompanha de perto acelerou de 0,23% para 0,34%, enquanto o índice de difusão saiu de 52% para 53,7%. “O número cheio assusta, mas o que preocupa o Banco Central está por baixo do capô”, avalia.Para Júlio Barros, economista do Banco Daycoval, apesar de o núcleo ter rodado em linha com o previsto, ele se mantém em patamar elevado e desafiador.Desafios para a política monetáriaEste retrato de uma inflação ampla e persistente impõe desafios à política monetária. Na mais recente reunião deste mês, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa Selic a 13,75% e deixou em aberto os próximos passos. Agora, a margem de manobra para continuar a flexibilização nos juros encolheu. Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, afirma que a reaceleração do índice reflete tanto a devolução pontual de itens voláteis e administrados quanto uma dinâmica qualitativa ainda pressionada. “O resultado reforça a cautela necessária em relação à convergência da inflação e valida a postura vigilante da política monetária”, diz.Barros, do Daycoval, projeta uma pausa na calibração dos juros na próxima reunião do Copom, em novembro. Foglieni, da Eleva Invest, diz que a decisão de novembro está “mais disputada”.Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, aponta que o dado do IPCA-15 não interrompe, necessariamente, o ciclo de queda da Selic, mas reduz espaço do Copom para acelerar os cortes.Fábio Muirad, da Wiser Asset, avalia que reduções aceleradas na Selic poderiam comprometer o diferencial de juros, pressionar a taxa de câmbio e gerar repasse inflacionário interno.Analisando o longo prazo, Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, prevê que a manutenção de juros restritivos por mais tempo será o antídoto inevitável para controlar a inflação. “Se reduzir os juros rapidamente e as expectativas continuarem desancoradas, existe o risco de prolongar o próprio processo de desinflação”, afirma. Leonardo Costa, economista do ASA, reconhece a piora marginal, mas acredita que essa leitura não deve alterar a posição do Banco Central (BC), mantendo sua aposta de que haverá mais dois cortes de 25 pontos-base nas próximas reuniões de novembro e dezembro.The post Prévia da inflação acelera de forma disseminada e reduz margem para cortes de juros appeared first on InfoMoney.

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