Manifestantes indignados com o despejo de uma mulher de 87 anos acamparam durante a noite na histórica praça Puerta del Sol, em Madri, onde mais pessoas – incluindo várias gerações de uma mesma família – se juntaram a eles no domingo, 27, e nesta segunda-feira, 28, para mais um dia de protestos contra a crise imobiliária na Espanha.Dezenas de milhares de pessoas marcharam por Madri no sábado, 26, para protestar contra o despejo de Maricarmen Abascal de um apartamento no bairro nobre do Retiro, onde ela morava há mais de sete décadas, e alguns prosseguiram em um acampamento no domingo e nesta segunda.Também na segunda, os advogados de Maricarmen informaram que chegaram a um acordo com a empresa dona do apartamento que ela alugava, de forma que ela poderá voltar a viver lá.Leia tambémMediadores tentam costurar acordo EUA-Irã, mas grandes obstáculos persistemAutoridades revelaram que os esforços nos bastidores continuam mesmo depois de o presidente dos EUA ter dito que rejeitou uma proposta iranianaEUA cancelam vistos de autoridades da Bolívia, Colômbia, Equador e PeruEntre os sancionados estão juízes da Suprema Corte, altos funcionários da polícia, promotores e empresáriosOs manifestantes exigem proteções mais fortes aos inquilinos, medidas para combater fraudes e a proibição de despejos quando não houver moradia alternativa disponível. Muitos se recusaram a ir embora após a marcha de sábado e montaram barracas na Puerta del Sol para passar a noite.“A situação habitacional é insustentável”, disse Natalia Navarro, uma atriz de 27 anos que estava entre os que acamparam na praça. “Estamos todos nas ruas porque estamos fartos.”“A onda de indignação e raiva que se desencadeou agora é imparável”, disse Alicia del Río, porta-voz do Sindicato dos Inquilinos de Madri, que liderou os protestos. “Vamos permanecer aqui” até que o governo aprove novas leis, incluindo contratos de aluguel por tempo indeterminado, e ponha fim a despejos como o de Abascal, disse del Río aos jornalistas na praça no domingo.Espera-se que o governo espanhol, liderado pelos socialistas, anuncie novas medidas em sua reunião semanal do gabinete nesta terça-feira, 29.Despejo ‘desencadeou essa agitação social’Em 23 de setembro, Abascal foi retirada de seu apartamento em uma maca e colocada em uma ambulância, enquanto seus apoiadores – que haviam tentado, sem sucesso, impedir o despejo – gritavam seu nome.“Não consegui defender minha casa, mas lutei para que outras pessoas aprendam a lutar pelo que é delas”, disse Abascal em um vídeo gravado de seu leito no hospital após o despejo.Imagens do despejo se espalharam amplamente por toda a Espanha, alimentando a indignação e as críticas às autoridades públicas e às empresas de investimento imobiliário acusadas de forçar os moradores a deixarem suas casas por causa dos altos preços. Os críticos costumam se referir a essas empresas como “fundos abutres”.“Maricarmen foi, de certa forma, a gota d’água que desencadeou essa agitação social”, disse Simón de la Riva, 43 anos, professor que participou dos protestos de sábado.Em discurso durante um comício do Partido Socialista em Madri, o primeiro-ministro Pedro Sánchez dirigiu-se diretamente a Abascal: “Tenho uma mensagem para você, Maricarmen: o governo está trabalhando sem parar para apresentar um Decreto Real sobre habitação na próxima terça-feira. E peço aos grupos parlamentares que façam um último esforço para que ele seja aprovado no Parlamento Nacional por causa da Maricarmen.”Abascal criticou o premiê Pedro Sánchez e o culpou por seu calvário. “Ele não percebe a quantidade de despejos que ocorrem diariamente?”, perguntou ela durante uma entrevista à emissora estatal espanhola RTVE, um dia antes de ser retirada à força de sua casa. “Ele não percebe, ou não quer perceber?”Um lar há sete décadasA mídia espanhola informou que o pai de Abascal alugou o apartamento pela primeira vez em 1956 e que ela permaneceu lá como inquilina, sob o regime de controle de aluguéis, após a morte dos pais.O prédio mudou de proprietário em 2018, e Abascal recebeu a oferta de comprar o apartamento, mas não tinha condições financeiras para isso, segundo o Sindicato dos Inquilinos de Madri.A Urbagestión, um fundo de investimento que posteriormente comprou o imóvel, aumentou o aluguel mensal de 500 euros para 2.650 euros. Posteriormente, reduziu o aluguel para 1.650 euros, valor que Abascal ainda não conseguia arcar com sua aposentadoria, informou o sindicato.Aumento dos custos e crescente escassez de moradiasO aumento dos custos e a escassez de moradias estão excluindo muitos espanhóis do mercado, apesar do forte crescimento econômico da quarta maior economia da Europa. A renda não acompanhou o aumento dos custos de moradia, e analistas afirmam que o turismo e o crescimento populacional impulsionado pela imigração nas cidades exerceram ainda mais pressão sobre a oferta limitada de moradias.O Banco da Espanha estimou que o país tinha uma escassez de cerca de 550 mil moradias no ano passado, sendo que Madri, Barcelona e Valência respondem por uma parcela substancial desse total.As manifestações na emblemática praça de Madri neste fim de semana lembraram a muitos na Espanha as manifestações históricas que tiveram início em 15 de maio de 2011, quando membros do “movimento dos indignados” acamparam por 28 dias seguidos, dando origem a protestos semelhantes em todo o país e no mundo. Esse movimento foi uma reação aos despejos e a outras questões decorrentes de uma crise econômica global, incluindo desemprego, medidas de austeridade e corrupção.A Espanha ocupa uma das últimas posições entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em termos de moradias públicas subsidiadas para aluguel, que representam menos de 2% do parque habitacional do país. A média da União Europeia é de 8%.Novo decretoApós duas noites acampados no centro de Madri, os manifestantes contra a crise imobiliária prometeram nesta segunda-feira “continuar pressionando” o governo de Pedro Sánchez, de quem exigem uma nova lei que proteja as pessoas contra a escalada dos preços. Mas o texto não tem garantias de ser aprovado no Parlamento, onde não conta com maioria.Os protestos seguiram Sánchez até Barcelona, e um grupo de manifestantes bloqueou parte da Avenida Diagonal, onde o chefe do governo espanhol compareceu à cerimônia de entrega de prêmios do jornal La Vanguardia.Com faixas com a mensagem “Decreto Maricarmen já” e slogans como “os investidores são os invasores”, os participantes da marcha relataram as dificuldades para ter acesso à moradia.Em dez anos, o preço médio do metro quadrado no aluguel na Espanha dobrou, chegando a 15,1 euros/m² em agosto, segundo o portal imobiliário Idealista. Na compra, o valor está agora em 2.355 euros, um aumento de mais de 50% no mesmo período, segundo dados oficiais.The post Como o despejo de uma idosa de 87 anos gerou onda de protestos por moradia na Espanha appeared first on InfoMoney.
