E se os EUA barrarem exportações de diesel, quais impactos para a Bolsa brasileira?

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Uma possível restrição dos Estados Unidos às exportações de diesel pode criar um novo problema para a economia brasileira: embora seja exportador de petróleo, o Brasil ainda depende do exterior para atender parte relevante de seu consumo de combustíveis refinados. E, após a redução das compras da Rússia, os americanos se tornaram o principal fornecedor de diesel importado pelo país.Os riscos são vários, uma vez que a redução da oferta americana poderia provocar dificuldades de abastecimento, elevar os custos de transporte, pressionar setores como agronegócio, varejo e mineração e, em um cenário mais extremo, obrigar o país a priorizar o diesel disponível para atividades consideradas estratégicas, como o escoamento da safra agrícola.Para as ações brasileiras, porém, os efeitos seriam bastante diferentes. Na avaliação do Bradesco BBI, SLC Agrícola (SLCE3), São Martinho (SMTO3) e Jalles Machado (JALL3) aparecem entre os potenciais prejudicados por diesel mais caro. Na outra ponta estão Petrobras (PETR4), Rumo (RAIL3), distribuidoras de combustíveis e 3tentos (TTEN3), que podem encontrar compensações ou até benefícios no novo cenário.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai e tenta manter os 182 mil com eleições em focoBolsas dos EUA operam estáveis, de olho nas negociações entre EUA e Irã A discussão ganhou força diante da possibilidade de o governo americano restringir temporariamente as exportações de diesel. Segundo informações publicadas pelo Politico e repercutidas pelo InfoMoney, chegou a ser considerado um veto de 90 dias. O Morgan Stanley avalia que uma proibição integral parece improvável, diante dos impactos que produziria nos próprios mercados de combustíveis, mas considera possível algum tipo de restrição parcial ou temporária.Por que o Brasil é vulnerável?O Brasil é exportador líquido da commodity, mas ainda precisa importar derivados para complementar o abastecimento doméstico, sobretudo diesel.Segundo estimativas do JPMorgan, aproximadamente 25% do diesel consumido no Brasil depende atualmente de importações. E os Estados Unidos responderam por mais de 70% das importações brasileiras do combustível em agosto, depois da redução das compras provenientes da Rússia.Olhando para a região, o Bradesco BBI destaca que, na América Latina como um todo, o diesel corresponde a 42% do consumo de petróleo, uma das maiores participações do mundo. Cerca de 40% do combustível utilizado na região é importado, e 60% dessas importações são provenientes dos Estados Unidos.O Brasil acrescenta outro elemento de vulnerabilidade: a forte defasagem entre os preços domésticos e internacionais. O JPMorgan estima que o diesel brasileiro esteja sendo negociado a aproximadamente metade da paridade internacional. Para o BBI, portanto, o principal risco para o país não é apenas de preço, mas de oferta.Isso acontece porque, com o combustível vendido no Brasil muito abaixo da paridade de importação, trazer diesel de outros mercados se torna economicamente menos atraente. Uma restrição do principal fornecedor poderia, nesse contexto, elevar o risco de escassez.O governo, contudo, afirma que o abastecimento está garantido. Para outubro, diante de uma demanda estimada em 3,950 milhões de metros cúbicos, há oferta confirmada de 3,978 milhões de metros cúbicos. O país também conta com estoques de 1,970 milhão de metros cúbicos. Desde março, o Ministério de Minas e Energia coordena uma mesa semanal de acompanhamento dos fluxos de importação e distribuição, com horizonte de dois meses.Diesel mais caro e pressões econômicasSe a restrição americana provocar alta significativa do diesel internacional, o dilema brasileiro aumenta. Uma possibilidade seria deixar parte da elevação chegar aos preços domésticos, ampliando a pressão inflacionária. Outra seria aprofundar mecanismos de subsídio e controle do choque, elevando o custo fiscal.O governo já vem adotando medidas para conter os preços dos combustíveis. Em 28 de setembro, confirmou a manutenção da subvenção de R$ 2,12 por litro de diesel, além de intensificar a fiscalização sobre a cadeia de combustíveis. A administração afirmou que poderá aplicar multas de R$ 20 mil a R$ 500 milhões em situações caracterizadas como prática abusiva.Segundo o JPMorgan, subsídios, reduções de impostos e a política de preços limitaram a alta dos combustíveis no IPCA a 3% em 2026 até o momento analisado. As medidas adotadas em setembro têm custo estimado pelo banco em R$ 7 bilhões por mês, enquanto o pacote implementado desde março poderia alcançar R$ 40 bilhões até o fim de setembro, equivalente a aproximadamente 0,3% do PIB.No caso do diesel, os efeitos econômicos não se restringem à bomba. O combustível é essencial para o transporte rodoviário de carga e para setores como agricultura e mineração, fazendo com que aumentos de custos possam se espalhar pelas cadeias produtivas.Leia tambémItaú BBA aponta ações para ganhar com queda dos juros; veja as favoritasInvestidores ainda aguardam maior visibilidade fiscal antes de elevar de forma mais agressiva a exposição às ações cíclicas domésticasPara o Bradesco BBI, uma eventual escassez poderia levar o Brasil a priorizar o fornecimento de diesel para a logística agrícola e o escoamento das safras, reduzindo a disponibilidade para outras atividades.Esse risco ganha importância em meio à temporada de plantio da soja, justamente um período de demanda relevante pelo combustível.Petrobras entre as beneficiadas?Para o Bradesco BBI, Petrobras (PETR4) está entre as potenciais beneficiárias de preços maiores do diesel e de crack spreads mais elevados. Na análise da casa, o diesel representa entre 42% e 50% das vendas das petrolíferas nacionais consideradas no estudo, grupo que também inclui Ecopetrol e YPF.O efeito sobre a Petrobras também tende a ser diferente daquele enfrentado pelas distribuidoras. Em outra análise, o BBI avaliou que uma eventual proibição americana seria provavelmente mais negativa para as distribuidoras do que para a Petrobras em termos de volume, justamente porque uma escassez poderia reduzir a quantidade disponível no mercado. Preços domésticos mais altos, entretanto, poderiam compensar boa parte desse impacto por meio da expansão das margens.Na análise mais recente e abrangente sobre a América Latina, o banco vai além e classifica as distribuidoras como potenciais beneficiárias líquidas, caso o ganho de margem proporcionado por preços mais elevados supere a perda de volumes.Ou seja, o impacto para as distribuidoras dependeria do equilíbrio entre duas forças: menor disponibilidade de combustível, negativa para volumes, e spreads maiores, positivos para margens.Rumo pode ganhar competitividadeJá para os transportes, embora o diesel mais caro eleve os custos do transporte, a Rumo (RAIL3) pode acabar relativamente beneficiada porque o choque atinge de maneira mais intensa o modal rodoviário, seu principal concorrente.Para a Rumo, o impacto direto sobre o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) tende a ser limitado no curto prazo porque grande parte dos contratos já estava fechada até o fim do ano e os custos do diesel são repassados diretamente nesses acordos.Se os preços elevados persistirem, contudo, os fretes rodoviários poderiam aumentar, melhorando a posição competitiva da ferrovia. O Bradesco BBI destaca que o trecho rodoviário representa aproximadamente 50% da rota concorrente Sorriso-Miritituba-Barcarena, ante cerca de 25% na alternativa Sorriso-Rondonópolis-Santos.Para JSL (JSLG3), o BBI considera que a capacidade de renegociar contratos ajuda a proteger as margens, ainda que a volatilidade dos preços do combustível possa pressionar a companhia no curto prazo.Na Vamos (VAMO3), o risco decorrente do diesel está principalmente nos clientes. A alta de aproximadamente 22% do combustível observada em março e abril não provocou aumento das retomadas de veículos. Ainda assim, um ambiente mais adverso poderia elevar as provisões para inadimplência.Em um cenário efetivo de escassez, o BBI vê riscos maiores para locadoras de equipamentos pesados, uma vez que problemas nas operações dos clientes poderiam elevar inadimplência e afetar receitas com seminovos. Para as locadoras de carros, o impacto direto do diesel seria limitado pela pequena participação de veículos leves movidos pelo combustível.Agro está entre os mais expostosJá parte do agronegócio aparece do lado oposto sendo que, na análise do Bradesco BBI, SLC Agrícola (SLCE3), São Martinho (SMTO3) e Jalles Machado (JALL3) estão entre as companhias potencialmente mais afetadas. O custo com diesel equivale a cerca de 4% das vendas das empresas consideradas e se combina a menor poder de repasse e maior exposição aos preços das commodities.O problema é duplo. Além da alta direta do combustível utilizado nas operações agrícolas, um choque do diesel tende a encarecer a logística, relevante para movimentar insumos e transportar a produção.A 3tentos (TTEN3) aparece como exceção dentro do setor, uma vez que o BBI avalia que a companhia poderia se beneficiar de uma implementação acelerada da mistura B16 de biodiesel.Vale e Suzano: impacto direto mais limitadoPara Vale (VALE3) e Suzano (SUZB3), o impacto direto dos preços parece mais administrável.Segundo os cálculos do BBI, uma alta de 10% do diesel representaria impacto inferior a 0,5% sobre o Ebitda projetado para 2027 das duas companhias. Nas mineradoras de cobre analisadas pelo banco na América Latina, o peso seria maior, de 1% a 2% do Ebitda.O risco mais relevante, entretanto, aparece novamente em um eventual cenário de escassez. Além do uso de diesel nas operações, mineração e celulose dependem da logística para escoamento da produção, o que cria exposição adicional por meio de fretes maiores.Varejo: impacto nos fretesNo varejo tradicional, a exposição direta também parece relativamente limitada. Segundo o BBI, as despesas de frete correspondem a aproximadamente 3% da receita líquida das empresas de lojas físicas, o que torna o impacto de um aumento do diesel administrável.O comércio eletrônico é mais vulnerável. Na análise latino-americana do banco, o Mercado Livre aparece como o principal nome exposto porque despesas logísticas correspondem a 22,6% das vendas.Na conta do BBI, uma elevação de 10% nos custos de entrega poderia ser compensada por um aumento de 150 pontos-base na take rate da operação de terceiros, ou 3P.O risco vai além do BrasilUma eventual restrição americana não seria um problema exclusivamente brasileiro. Os Estados Unidos são o maior exportador mundial de diesel e ganharam participação no comércio global após os conflitos reduzirem a disponibilidade de produtos provenientes da Rússia e do Oriente Médio, segundo o BBI.Estados Unidos, Rússia e Oriente Médio, juntos, respondem por quase metade das exportações globais do combustível. Com restrições nos fluxos pelo Estreito de Ormuz e ataques a refinarias russas, a importância dos americanos como fornecedores para América Latina, Europa e Ásia aumentou.Uma restrição americana poderia, portanto, elevar os crack spreads globalmente e, em um cenário mais agudo, provocar destruição de demanda.The post E se os EUA barrarem exportações de diesel, quais impactos para a Bolsa brasileira? appeared first on InfoMoney.

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