No início dos anos 2000, pouco antes de criar a XP (XPBR31), Guilherme Benchimol foi demitido. Foi essa demissão, inclusive, que o levou a empreender. Agora, décadas depois, já à frente de uma das maiores instituições financeiras da América Latina, ele diz compreender os motivos que levaram ao próprio desligamento e afirma que teria tomado a mesma decisão se estivesse na posição de seu então chefe.“Se eu fosse o dono da empresa na qual eu trabalhava, que tinha aquela cultura, me demitiria, com certeza”, afirma, em conversa com a reportagem do InfoMoney durante a B55 Conference, que reuniu mais de 3 mil empreendedores entre fundadores, CEOs e executivos de empresas brasileiras e estrangeiras em São Paulo, nesta terça-feira (29). O evento é promovido pelo Instituto B55. Criado por Benchimol, David Vélez, fundador e CEO do Nubank (ROXO34) e André Street, fundador da Stone (STOC31) e da Teya ao lado de Cristhiano Faé, o Instituto B55 se apresenta como uma entidade sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de empresários brasileiros.Durante o primeiro painel que participou no evento, Benchimol falou sobre sua experiência ao ser demitido. Em entrevista, afirmou que o problema não era falta de competência, mas uma incompatibilidade entre seu perfil e o ambiente em que atuava, que considerava muito engessado e orientado pelo cumprimento de ordens. O fundador da XP descreveu a si mesmo como uma espécie de “troublemaker” naquela época, por ser excessivamente questionador e pouco aderente à cultura da empresa onde trabalhava.“Digamos que eu criava mais confusão do que trazia solução”, brincou. “A companhia não era minha, então certamente existia uma diferença de cultura. Era uma empresa em que você tinha que cumprir ordens. E não foi assim que eu construí a XP, que, evidentemente, tem sua hierarquia, mas acredita muito no potencial humano de quem está com a gente. Gostamos de gente corajosa, que critica, desafia e pensa fora da caixa”, diz.Leia também: O fundador que cria a empresa também a trava, diz Cristhiano Faé, CEO do B55Meritocracia também para baixoNa avaliação de Benchimol, as empresas precisam estabelecer regras claras sobre desempenho e comportamento e tomar decisões quando há desalinhamento entre o profissional e a cultura organizacional.A experiência ajudou a moldar uma das convicções que hoje defende junto a empreendedores: não existe meritocracia sem a capacidade de desligar pessoas que não se encaixam na organização. “Meritocracia não pode ser só para cima, precisa ser para baixo também.”Para o fundador da XP, o desempenho deve ser avaliado por duas dimensões: resultado e comportamento. “Metade é performance e metade comportamento e cultura. Não basta atingir metas. Você pode ser uma pessoa brilhante, supercompetente, atingir metas impossíveis, mas destruir o time.”Ao mesmo tempo, ressalta que uma demissão não significa necessariamente incompetência. “Não é porque a pessoa não deu certo naquela empresa que ela não é competente. No meu caso, eu não dei certo na corretora onde trabalhava. Fui encontrar ‘meu lugar’ em outro lugar.”Leia também: De PowerPoint a R$ 600 milhões: a trajetória da Skyone sem depender de captaçãoAprender a sair do centroA reflexão sobre a própria demissão levou Benchimol a outro tema recorrente entre os mentorados do Instituto B55: a dificuldade de empreendedores em mudar de função à medida que seus negócios crescem. Segundo ele, muitos fundadores alcançam sucesso porque são excelentes executores, mas encontram dificuldades quando a empresa passa a exigir habilidades de gestão.Na avaliação do empresário, depois de determinado estágio, o crescimento passa a depender menos da capacidade do fundador de executar tarefas e mais de sua habilidade para contratar, desenvolver lideranças e delegar responsabilidades. “Depois que você dá um pouquinho certo, tem que aprender a ser um gestor de pessoas. Deixar de ser um executor e aprender a colocar gente boa na posição certa.”Benchimol também usou a própria trajetória na XP para explicar essa transformação. Após mais de duas décadas como principal executivo da companhia, ele deixou o cargo de CEO em 2022, que passou a ser ocupado por Thiago Maffra. A decisão, afirma, foi consequência de uma percepção que considera fundamental para qualquer fundador.“Você só tem um negócio de verdade quando se torna substituível. Se esse negócio depende só de você, você não tem um negócio. Você tem um ‘superemprego’”, disse.Segundo ele, empresas maduras são aquelas capazes de formar lideranças tão ou mais qualificadas do que seus próprios fundadores. “No estágio atual da XP, com 9 mil funcionários e uma empresa tão complexa, eu não seria mais a pessoa certa. Com certeza, o Thiago conduz a empresa muito melhor do que eu.”Leia também: Águia Branca: de um ônibus comprado por acaso a R$ 23 bi de receitaQuando a cadeira de CEO fica pequenaA mudança de papel começou a fazer sentido para Benchimol após uma conversa com Jorge Paulo Lemann, há cerca de sete anos. Na ocasião, o fundador da XP ouviu um conselho que só compreendeu plenamente algum tempo depois.“Ele falou: ‘Você nunca tem tempo, eu vou conversar com você e você já está correndo’. E disse: ‘Pensa que, quando você é dono, em algum momento a cadeira de CEO fica pequena’. Eu só entendi o significado disso depois”, diz.Segundo Benchimol, o CEO costuma estar absorvido pelas demandas operacionais do dia a dia, enquanto o acionista consegue dedicar mais tempo a temas estratégicos e de longo prazo. O fundador afirma que atualmente consegue dedicar mais atenção ao conselho de administração, ao desenvolvimento de lideranças e a temas como inteligência artificial. “O CEO está no campo de batalha. Mas é só olhando a guerra de cima que se torna possível enxergar com muito mais clareza o que está acontecendo”, avalia.Leia também: Como a Cory Alimentos, da Bala Chita e IceKiss, faliu, teve fábricas lacradas e hoje fatura mais de R$ 300 milhõesA solidão de empreenderAo comentar o trabalho do Instituto B55, Benchimol destacou que muitos empresários enfrentam um problema pouco discutido: a solidão na tomada de decisões. Por isso, explicou, a iniciativa criada por empresários como ele, David Vélez, André Street e Cristhiano Faé busca aproximar fundadores que vivem desafios semelhantes e permitir a troca de experiências práticas.A proposta do instituto, afirma, é criar um ambiente em que empresários possam compartilhar erros, acertos e dilemas de gestão com outros fundadores. Mais do que networking, a ideia é acelerar o aprendizado de quem está tentando transformar uma empresa bem-sucedida em uma organização escalável.Ao comentar os empreendedores mentorados pelo programa, Benchimol disse que muitos já alcançaram resultados relevantes, mas encontram dificuldades para dar o próximo passo, especialmente na transição de executor para gestor. “O empreendedor já teve algum sucesso, mas não consegue mudar a forma. Ele teve sucesso porque era uma pessoa fazedora, mas não está conseguindo se transformar em um gestor de verdade”, afirmou. Para ele, o maior valor do B55 está em encurtar esse caminho, permitindo que empresários aprendam com experiências que os fundadores de grandes companhias levaram décadas para acumular.The post Antes da XP, Benchimol foi demitido — e hoje ele diz que teria tomado a mesma decisão appeared first on InfoMoney.
