Semanas antes do início da guerra com o Irã, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed Al Nahyan, assumiu o comando de um fundo soberano de US$ 300 bilhões. Agora, meses após um conflito que redesenhou o Oriente Médio, a entidade e os executivos que a comandam tornaram-se peças centrais na construção da infraestrutura necessária para reduzir a dependência da região do Estreito de Ormuz, sob forte influência iraniana.Essa estratégia ganhou relevância nas últimas semanas depois que a L’imad Holding anunciou planos para fechar o capital da estratégica Abu Dhabi Ports Co., em uma operação que avalia a companhia em quase US$ 9 bilhões. Pessoas familiarizadas com o assunto afirmam que o fundo deverá investir dezenas de bilhões de dólares adicionais em novos projetos portuários fora da área afetada pelo estreito. A iniciativa transforma a estrutura liderada pelo príncipe herdeiro em uma peça-chave para o desenvolvimento de corredores comerciais estratégicos no Oriente Médio, dentro de uma estratégia batizada pelo emirado de “Ormuz Zero”.O fundo soberano tornou-se um dos principais instrumentos da ofensiva de Abu Dhabi para reduzir sua dependência da hidrovia, que foi bloqueada pelo Irã, segundo pessoas com conhecimento do assunto.Embora o filho do governante de Abu Dhabi e seus principais aliados ainda sejam relativamente pouco conhecidos globalmente, eles agora estão à frente de um dos maiores projetos de infraestrutura do mundo. Isso os torna figuras relevantes para Washington, para os mercados internacionais de commodities e para executivos de Wall Street. Sheikh Khaled, que está na casa dos 40 anos, também continua desempenhando um papel diplomático relevante e recentemente tornou-se uma das autoridades árabes de mais alto escalão a se reunir com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian.Após o início da guerra com o Irã em fevereiro, o príncipe herdeiro, o CEO da L’imad, Jassem Bu Ataba Al Zaabi, e outras autoridades de Abu Dhabi destacaram a necessidade de proteger a infraestrutura nacional em conversas com líderes de Wall Street, incluindo Larry Fink, da BlackRock, segundo fontes. Em maio, o fundo firmou uma parceria com a BlackRock, a Temasek Holdings, de Singapura, e a estatal Abu Dhabi National Oil Co. (Adnoc) para direcionar até US$ 30 bilhões para investimentos em infraestrutura voltada ao transporte de energia, logística e recursos hídricos. Com o tempo, a iniciativa também poderá ajudar o emirado a exportar commodities que vão de petróleo a petroquímicos e alumínio, em meio ao aumento das tensões com o Irã.O acordo é um sinal inicial de como a posição de Sheikh Khaled como herdeiro de um emirado que controla cerca de US$ 2 trilhões em riqueza soberana, somada ao seu novo foco em infraestrutura estratégica ligada a commodities, pode transformá-lo em uma das figuras mais influentes dos negócios e da política do Oriente Médio nos próximos anos.Os movimentos do integrante da família real para reduzir a dependência mundial de Ormuz reforçariam a posição do presidente dos EUA, Donald Trump, diante do Irã e criariam novas oportunidades para gestores internacionais de recursos. Mas, embora garantir a exportação das commodities do emirado tenha implicações para os mercados globais, o projeto envolve riscos significativos. Ameaças militares iranianas à infraestrutura regional continuam sendo uma preocupação e podem comprometer planos bilionários. Além disso, transportar commodities por rotas mais longas traz desafios operacionais e financeiros, e a região portuária que Abu Dhabi pretende expandir já foi alvo de ataques iranianos anteriormente.Eliminar a dependência da principal rota marítima da região é uma tarefa complexa. A experiência da Arábia Saudita ilustra tanto a importância quanto os riscos de buscar alternativas. O príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman tem investido na ampliação de um oleoduto que liga a produção do país a um porto no Mar Vermelho, contornando Ormuz. Ainda assim, o reino precisou interromper temporariamente o uso dessa rota nas últimas semanas após ataques de milícias pró-Irã.“O príncipe herdeiro tem experiência na área de segurança e recebeu mais atribuições diplomáticas nos últimos anos, então a infraestrutura crítica parece uma área natural para que ele assuma a liderança”, afirmou Steffen Hertog, professor da London School of Economics. “O principal desafio, na minha avaliação, é que até mesmo os portos dos Emirados localizados a leste continuam relativamente próximos do Irã e ao alcance de drones e mísseis de curto alcance.”Sheikh Khaled, de perfil discreto e voz calma, é o filho mais velho do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Mohamed bin Zayed. Nomeado príncipe herdeiro em 2023, ele acompanhou Trump durante uma visita de Estado a Abu Dhabi no ano passado e, desde então, vem assumindo um papel cada vez maior nas principais agendas diplomáticas do país.No auge da guerra, o príncipe liderou uma viagem de destaque à China, um dos principais parceiros comerciais do Irã e aliado estratégico dos Emirados. Uma rara reunião pública com o presidente iraniano aconteceu durante a cúpula do Brics, na Índia, em um momento em que Omã buscava aproximar os países do Golfo e a República Islâmica para discutir o futuro da hidrovia.Representantes do governo de Abu Dhabi não responderam aos pedidos de comentário para esta reportagem. A BlackRock também não quis comentar.Mesmo antes de ser nomeado presidente da L’imad, o fundo já havia ganhado notoriedade ao participar da oferta vencedora de US$ 110 bilhões da Paramount Skydance pela Warner Bros. Discovery. Desde que assumiu o comando, Sheikh Khaled reuniu-se com executivos como Jane Fraser, CEO do Citigroup, e Bruce Flatt, da Brookfield. Anteriormente, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 de Abu Dhabi, também foi visto recebendo o bilionário Todd Boehly e Adebayo Ogunlesi, CEO da Global Infrastructure Partners, unidade da BlackRock responsável pela parceria de US$ 30 bilhões.O príncipe ganhou ainda mais destaque neste ano quando o fundo ADQ, então liderado por seu tio Sheikh Tahnoon, foi incorporado à L’imad. Nos meses seguintes, a entidade ampliada promoveu mudanças na equipe executiva e reorganizou parte de seu portfólio para assumir um papel mais central nas ambições de investimento de Abu Dhabi.Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, o príncipe herdeiro e o grupo de autoridades emiradenses mais próximo a ele devem concentrar esforços principalmente na expansão dos portos de Fujairah, cidade localizada fora do Estreito de Ormuz e com acesso direto ao Golfo de Omã.Os esforços da L’imad fazem parte de uma estratégia mais ampla dos Emirados. Outras entidades, como a Adnoc e a operadora portuária DP World, de Dubai, também desenvolvem projetos para reduzir a dependência de Ormuz. O próprio príncipe preside o comitê executivo do conselho da Adnoc, que constrói um segundo oleoduto para dobrar a capacidade de exportação via Fujairah. Em uma reunião realizada em maio, ele determinou que a companhia acelerasse as entregas do projeto.Os países do Golfo, incluindo os Emirados, têm defendido mais diálogo e diplomacia com o Irã. Ainda assim, embarcações comerciais continuam sofrendo ataques de drones e mísseis na região, provocando mortes, feridos e danos significativos. Em junho, o ministro do Comércio Exterior dos Emirados, Thani Al Zeyoudi, afirmou que o país pretende atingir dependência zero de Ormuz, independentemente de a rota permanecer aberta ou não.O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, chegou a prever que, em dois anos, Ormuz será “como um pedaço inútil de água” por causa da expansão de oleodutos alternativos. Mas essa visão está longe de ser consenso. A guerra com o Irã já dura meses e não há perspectiva clara de encerramento. O ministro da Energia do Catar classificou a avaliação de Bessent como “completamente errada”.A própria Fujairah também foi alvo de ataques iranianos durante o conflito. Em março, destroços de um drone interceptado provocaram um grande incêndio no polo de comercialização de petróleo da cidade. Embora os ataques tenham perdido intensidade nos últimos meses, as tensões voltaram a aumentar em agosto, quando os Emirados anunciaram o rompimento de relações econômicas com Teerã após acusar o Irã de disparar mísseis balísticos contra seu território.Nas últimas semanas, os houthis apoiados pelo Irã avançaram em áreas costeiras do Mar Vermelho próximas ao estratégico estreito de Bab el-Mandeb, outra rota fundamental para os mercados de energia e transporte marítimo. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita voltou a ampliar as exportações por Ormuz depois que ataques de milícias pró-Teerã no Iraque forçaram a paralisação temporária do oleoduto que liga o leste ao oeste do país.Eliminar a dependência de Ormuz também tende a ser caro e complexo. Embora oleodutos possam ajudar a desviar exportações de petróleo, o transporte de outras commodities, como gás natural e alumínio, envolve desafios maiores. Ainda assim, os Emirados possuem uma vantagem sobre o Catar, que não dispõe de rotas geográficas alternativas para contornar o estreito e viu sua receita com gás natural sofrer forte queda.Segundo uma pessoa próxima ao assunto, Sheikh Khaled demonstra plena consciência das responsabilidades que deverá assumir. Ele é conhecido por se apoiar em um grupo pequeno de autoridades emiradenses, alguns amigos de infância e outros responsáveis pela condução da economia de Abu Dhabi há décadas.A execução dos projetos da L’imad é liderada por Jassem Al Zaabi, apelidado por parte do mercado financeiro de “homem do dinheiro” de Abu Dhabi devido ao seu papel no comando do departamento de finanças do emirado. Al Zaabi e Saif Saeed Ghobash, presidente do gabinete do príncipe herdeiro, tiveram participação direta nas negociações da parceria de infraestrutura com a BlackRock, segundo fontes.Estruturar esse acordo foi importante porque Abu Dhabi não queria financiar sozinha um programa tão ambicioso. Gestoras globais como a BlackRock têm bilhões de dólares disponíveis para projetos de infraestrutura e ampla experiência em empreendimentos de grande escala, além da capacidade de gerar receitas recorrentes com ativos como portos. “Sheikh Khaled provavelmente continuará dependente de assessores experientes da L’imad, vários deles atuando nos mais altos níveis de Abu Dhabi há anos”, disse Hertog.Apesar do apoio de grandes investidores globais, o príncipe e seus assessores navegam por desafios que vão muito além do Irã. Dubai, tradicional centro de negócios dos Emirados, também busca expandir sua presença em Fujairah por meio de novos terminais de contêineres construídos pela DP World. Tanto essa iniciativa quanto os projetos da Abu Dhabi Ports exigem acomodar uma grande quantidade de infraestrutura em uma área relativamente reduzida.Além disso, Sheikh Khaled e sua equipe são apenas um dos polos de poder dos Emirados. Seus tios, Sheikh Tahnoon e Sheikh Mansour, continuam exercendo enorme influência dentro e fora do país.Sheikh Tahnoon supervisiona fundos soberanos e outras estruturas de investimento que, juntas, administram mais de US$ 1 trilhão em ativos, além de atuar como emissário diplomático nas relações com o Irã. Já Sheikh Mansour é vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos e presidente tanto do banco central quanto da Mubadala Investment Co., fundo soberano de US$ 385 bilhões.A ascensão do príncipe herdeiro ocorre em um momento de crescente complexidade regional. Os Emirados buscam equilibrar relações cada vez mais próximas com a China e sua tradicional parceria de segurança com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que enfrentam um ambiente regional mais instável. Diplomatas americanos destacam que ele precisará manter um delicado equilíbrio entre as duas maiores economias do mundo.Segundo um antigo professor, o jovem Sheikh Khaled já demonstrava tranquilidade mesmo em turmas compostas por estudantes que se tornariam especialistas renomados em geopolítica do Oriente Médio. Ele é conhecido por observar atentamente antes de fazer intervenções cuidadosamente calculadas.Sua ascensão já vem provocando mudanças em Abu Dhabi.Executivos de Wall Street e líderes empresariais que antes concentravam sua atenção em figuras como Sheikh Tahnoon agora também fazem questão de se reunir com o príncipe herdeiro e seus principais auxiliares quando visitam o emirado. A expectativa é que Sheikh Khaled continue buscando negócios capazes de fortalecer a economia de Abu Dhabi e criar campeões nacionais. Transações como a da Abu Dhabi Ports são consideradas essenciais, mesmo com as ameaças iranianas ainda presentes.“Uma política de ‘Sem Ormuz’ é de extrema importância para proteger os Emirados contra nova instabilidade no estreito”, afirmou Sanam Vakil, diretora do programa para Oriente Médio e Norte da África do Chatham House. Ainda assim, ela alerta que “as novas formas de guerra e o alcance crescente do Irã e de suas redes aliadas significam que os Emirados também precisam se preparar para ataques a infraestruturas localizadas fora de Ormuz”.© 2026 Bloomberg L.P.The post Príncipe herdeiro de Abu Dhabi aposta bilhões para reduzir dependência de Ormuz appeared first on InfoMoney.
