Poucos setores da Bolsa brasileira têm tanto a ganhar com uma eventual melhora da percepção fiscal e queda dos juros quanto o varejo. Mas, às vésperas da eleição presidencial, o JPMorgan avalia que parte desse movimento já começou a ser antecipada pelos investidores e recomenda cautela na escolha das ações para capturar uma possível reprecificação.O setor chega à eleição negociando com valuations bastante deprimidos e após uma sequência predominantemente negativa de revisões de lucros. Isso cria espaço relevante de valorização caso o resultado eleitoral provoque redução do prêmio de risco brasileiro e das taxas de juros. O problema é que, segundo o banco, o resultado das urnas ainda não está claramente inclinado para um cenário de maior disciplina fiscal.Além disso, os fluxos domésticos têm grande influência sobre as varejistas e já provocaram movimentos expressivos nas ações antes mesmo da votação. O resultado é uma mudança na relação entre risco e retorno de algumas das apostas mais óbvias para juros menores.Leia tambémEm 7 pontos, entenda por que VALE3 apagou os ganhos de 2026 — e o que vem agoraAção cai 10,58% em setembro e volta ao negativo no ano; minério segue pressionado, gráfico testa região importante e bancos divergem sobre o valor da companhiaMagazine Luiza (MGLU3) e Assaí (ASAI3), por exemplo, seriam escolhas naturais para um cenário de queda mais forte das taxas devido à elevada alavancagem. Depois da valorização recente, no entanto, o JPMorgan considera que C&A (CEAB3), Lojas Renner (LREN3) e Riachuelo (RIAA3) oferecem atualmente uma assimetria mais interessante diante dos diferentes resultados eleitorais.Varejistas baratas, mas eleição pode mudar preços rapidamenteO ponto de partida é um setor negociando muito abaixo de seus padrões históricos. Pelos dados de consenso compilados pelo JPMorgan, as varejistas são negociadas em torno de 8 vezes o lucro projetado, contra mediana de aproximadamente 15 vezes nos últimos cinco anos.O desconto mediano chega a 58% em relação à média histórica de dez anos e a 47% frente à média de cinco anos. C&A negocia com desconto de 78% para sua média de dez anos, Renner, de 66%, e Riachuelo, de 65%.Esse desconto amplia a sensibilidade das ações ao resultado eleitoral, já que uma mudança na percepção sobre risco fiscal pode afetar juros, câmbio, expectativas de inflação e custo de capital.O JPMorgan, porém, ressalta que uma melhora eleitoral nas cotações não deve ser confundida com uma recuperação imediata dos fundamentos do varejo. Em um cenário político favorável, as ações podem subir antes que os lucros efetivamente se recuperem, à medida que investidores antecipam taxas menores, menor custo de capital e melhores perspectivas para o consumo.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Confira o que movimenta Bolsa, Dólar e Juros nesta quartaÍndices futuros dos EUA operam de forma mista Mesmo com juros menores, o banco não espera que os múltiplos retornem integralmente às médias históricas. Considerando que várias companhias estão em estágio mais maduro e devem apresentar expansão de lucro inferior à do passado, a expectativa é de uma reprecificação estrutural de pelo menos duas a três vezes no múltiplo P/L. O potencial médio até os novos preços-alvo para dezembro de 2027 é de cerca de 30%.Magalu e Assaí: grandes betas dos jurosQuando a análise é puramente sobre sensibilidade às taxas, Magazine Luiza e Assaí aparecem como os principais nomes.Nas contas do JPMorgan, uma redução de 100 pontos-base na Selic em relação ao cenário-base aumentaria o lucro projetado do Magalu para 2028 em aproximadamente 10%. No Assaí, o impacto seria de cerca de 5%. Para as demais varejistas, em geral menos alavancadas, o efeito médio ficaria perto de 2%.Mas, segundo o banco, o mercado já começou a precificar parte dessa tese. O JPMorgan aponta que Magazine Luiza superou o Ibovespa em cerca de 30% no movimento analisado, enquanto Assaí teve desempenho superior de aproximadamente 25%.No Assaí, o banco acredita que a reprecificação pode ser mais sustentável devido à resiliência típica do varejo alimentar e à limitada dependência dos lucros em incentivos fiscais. A recomendação para ASAI3 é neutra, com preço-alvo de R$ 11.No Magalu, a leitura é mais cautelosa, apesar da grande sensibilidade positiva a juros menores. O JPMorgan mantém recomendação underweight (exposição abaixo da média do mercado, equivalente à venda) para MGLU3 e chama atenção para a qualidade dos resultados. Segundo os cálculos da instituição, quase todo o lucro da companhia depende de incentivos tributários. Juros menores também podem reduzir as margens brutas do setor ao diminuir os ganhos financeiros embutidos nas vendas, limitando parte do benefício sobre o lucro.Ao mesmo tempo, o banco elevou suas estimativas para o Magalu por incorporar ganhos de participação decorrentes da recuperação judicial da Casas Bahia e da parceria recente com o Mercado Livre. Para 2027, a estimativa de receita líquida subiu 6% e a de lucro, 24%.E C&A, Renner e Riachuelo?Magalu e Assaí tornam o beta mais evidente, enquanto o JPMorgan considera que o ponto de entrada está mais interessante nas varejistas de moda C&A, Renner e Riachuelo.A questão é sobre assimetria, uma vez que o cenário operacional de curto prazo continua fraco e ainda pode haver revisões negativas de lucros, mas as expectativas já são conservadoras, os múltiplos estão deprimidos e as empresas não apresentam os mesmos problemas de balanço observados em companhias mais alavancadas. Os três papéis também negociam próximos ou abaixo do valor patrimonial, apesar de apresentarem retornos acima do custo de capital.Isso poderia limitar as perdas em um cenário eleitoral negativo e, ao mesmo tempo, permitir uma reprecificação expressiva em um cenário de queda do risco fiscal e dos juros.Leia tambémMercado se anima com possível disparada da Bolsa pós-eleições: como surfar?Especialistas defendem dedicar fatia pequena para o trade tático e diversificar a carteira, de olho na limitação do risco de o trade dar erradoA Renner pode ser a primeira a reagir devido ao maior valor de mercado, maior liquidez, peso relevante nos índices e exposição aos fluxos passivos. A recomendação, porém, permanece neutra, com preço-alvo de R$ 16 para dezembro de 2027.Já C&A aparece com o maior potencial de reprecificação entre as varejistas de moda, segundo o JPMorgan, com CEAB3 negociando perto de 5,5 vezes o lucro projetado e tem recomendação overweight, com preço-alvo de R$ 13,50.Riachuelo também recebe recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra), com preço-alvo de R$ 9,50. A casa vê espaço relevante para ganhos de produtividade, uma vez que a companhia ainda está atrás de Renner e C&A nessa métrica.Smart Fit e RD Saúde: no outro caminhoFora das apostas mais tradicionais do varejo discricionário, o JPMorgan destaca duas ações que podem se beneficiar de um cenário de queda do custo de capital por razões diferentes: Smart Fit (SMFT3) e RD Saúde (RADL3).A Smart Fit vem sendo utilizada por investidores como fonte de recursos para financiar posições em ações de maior beta, aumentando as posições vendidas. Para o JPMorgan, essa dinâmica deixa a relação entre risco e retorno mais favorável para uma posição comprada na companhia.Embora apenas cerca de 40% dos negócios estejam no Brasil e a empresa não seja um exemplo clássico de beta doméstico, seu valuation continua ligado ao custo de capital brasileiro. Como se trata de uma tese de longa duração, a redução do custo de capital favorece seu valor presente. O banco mantém recomendação overweight e preço-alvo de R$ 30.A RD Saúde é ainda mais sensível a essa variável. Em uma redução de 100 pontos-base do custo de capital próprio, o valor justo calculado pelo JPMorgan aumenta cerca de 21%. Em sentido contrário, uma alta de 100 pontos-base reduziria o valor justo em aproximadamente 25%.Leia tambémHypera diz que tomou ações necessárias após Anvisa proibir propaganda da SemavyEm nota, a companhia reforça seu compromisso com o cumprimento rigoroso da legislação sanitária e com a promoção do uso adequado e responsável de medicamentosO banco avalia, porém, que o risco em um cenário negativo encontra alguma proteção no valuation atual. A RD Saúde negocia a aproximadamente 14,5 vezes o lucro projetado para 2027, abaixo das 18 vezes que a instituição considera um nível justo, enquanto seu crescimento de resultados historicamente apresenta menor ligação com o ciclo macro. O rating é overweight, com alvo de R$ 28.Eleição não resolve problema do consumidorO JPMorgan alerta para não confundir uma potencial alta das ações após a eleição com melhora instantânea do ambiente de negócios.Independentemente do resultado eleitoral, o JPMorgan prevê fortes obstáculos ao consumo em 2027. A atividade econômica deve perder ritmo enquanto as famílias continuam pressionadas por endividamento elevado, serviço da dívida pesado, inadimplência crescente e crédito caro.A deterioração da qualidade do crédito tende a deixar bancos e varejistas mais seletivos, reduzir limites e encarecer financiamentos, prejudicando principalmente categorias discricionárias e bens de maior valor. Confiança fraca e menor intenção de consumo também devem levar famílias a priorizar produtos essenciais, poupança e pagamento de dívidas.Algumas medidas adotadas no período eleitoral podem trazer algum alívio. O relatório cita as restrições às bets, o Desenrola 3.0 e o aumento do Bolsa Família como possíveis apoios temporários ao consumo ou à desalavancagem das famílias, mas considera seus efeitos desiguais e não recorrentes.A inflação de alimentos também segue como obstáculo, especialmente para as famílias de renda baixa e média: mesmo com desaceleração da inflação geral, o JPMorgan espera que a inflação de alimentação continue pressionando a renda disponível durante boa parte de 2027.Lucros ainda estão sendo cortadosA cautela já aparece nas estimativas uma vez que, na atualização do JPMorgan, o lucro líquido projetado para as varejistas foi reduzido em cerca de 2% na média e 5% na mediana para 2027. As revisões refletem desaceleração do consumo, competição crescente de plataformas internacionais, maior atividade promocional e pressão de alavancagem operacional.Além do macro, a concorrência internacional virou uma pressão mais estrutural. Em agosto, o volume de encomendas internacionais pelo Remessa Conforme cresceu 84% na comparação anual e cerca de 90% considerando os três meses anteriores. Em reais, as importações aumentaram 78% no ano. Vestuário, acessórios, beleza, calçados e produtos discricionários de baixo tíquete estão entre os segmentos mais expostos.O resultado é um cenário no qual eleição e fundamentos apontam em direções diferentes no curto prazo. Um resultado percebido como fiscalmente mais favorável pode derrubar juros e custo de capital e provocar uma rápida reprecificação das varejistas. Isso não significa, entretanto, que vendas e lucros acompanharão imediatamente o movimento.Para o JPMorgan, essa diferença explica a preferência pela assimetria oferecida atualmente por C&A, Renner e Riachuelo, em vez de simplesmente perseguir os papéis de maior beta. Magalu e Assaí continuam sendo as ações mais diretamente beneficiadas pela queda dos juros, mas parte dessa expectativa já foi incorporada às cotações.The post Eleição pode destravar varejistas, mas JPMorgan vê melhores apostas além de Magalu appeared first on InfoMoney.
