A Bolsa brasileira chega ao mês das eleições negociando a múltiplos ainda descontados, mas a combinação entre cenário fiscal, trajetória dos juros e condições financeiras globais deve falar mais alto do que o valuation nos próximos meses, segundo a XP. Em relatório Raio XP de outubro, Fernando Ferreira e equipe, estrategistas que assinam o documento, mantêm visão construtiva para as ações brasileiras, mas avaliam que o Ibovespa está em uma “encruzilhada”, com uma dispersão significativa entre os cenários possíveis para o índice.Os estrategistas mantêm valor justo de 200 mil pontos para o Ibovespa no fim de 2026, equivalente a um potencial de valorização de aproximadamente 7% em relação ao patamar usado no estudo. Em um cenário otimista, o índice poderia alcançar 248 mil pontos, alta potencial de 33%. Já na hipótese pessimista, cairia para aproximadamente 165 mil pontos, uma desvalorização de 11%.A avaliação ganha relevância depois de um mês positivo para o mercado brasileiro. O Ibovespa avançou 5% em reais em setembro, aos 186.340 pontos, mesmo com a piora do ambiente internacional. A XP atribui parte do descolamento do Brasil ao aumento das atenções dos investidores sobre as eleições e ao retorno do fluxo estrangeiro.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Confira o que movimenta Bolsa, Dólar e Juros nesta quintaÍndices futuros dos EUA avançam no primeiro pregão de outubro No exterior, setembro foi marcado pela alta das taxas de juros e do petróleo. A Treasury americana de dez anos subiu 55 pontos-base, de 4,75% para 5,30%, maior nível desde 2007, enquanto o Brent atingiu US$ 103,50 por barril. Nesse ambiente, o MSCI ACWI recuou 1%.Valuation barato não é suficienteApesar da recuperação recente, a XP continua vendo a Bolsa brasileira como barata. A casa aponta o mercado negociando a cerca de 8,5 vezes o lucro projetado, 0,6 desvio-padrão abaixo da média dos últimos dez anos. O Brasil também apresenta desconto de 15% em relação aos emergentes e de 49% diante das bolsas globais.Mas os estrategistas apontam que o preço baixo, sozinho, pode não ser suficiente para sustentar uma nova rodada de valorização, já que os juros longos continuam sendo o principal obstáculo para um rali mais forte, e sua trajetória está diretamente associada às expectativas para a política fiscal e a dívida pública.A XP destaca que a dívida bruta corresponde atualmente a 83% do PIB e cresce em ritmo de aproximadamente três pontos percentuais por ano, enquanto o serviço da dívida corresponde a 8,9% do PIB ao ano. O temor é que uma trajetória fiscal desfavorável mantenha elevados os juros longos e, consequentemente, limite a expansão dos múltiplos das ações.Essa incerteza explica a ampla distância entre os cenários traçados pela casa. No otimista, a XP considera lucros e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) 10% superiores ao cenário-base, juros reais recuando para 6% e expansão do P/L para 12 vezes. Nesse conjunto de premissas, o valor justo calculado chega a aproximadamente 248 mil pontos.No cenário pessimista, lucros e Ebitda ficariam 10% abaixo da referência, os juros reais subiriam para 8,5% e os múltiplos retornariam às mínimas. O resultado seria um Ibovespa próximo de 165 mil pontos. No caso central, a projeção de cerca de 200 mil pontos resulta da média de quatro metodologias de avaliação.Leia também17 ações sobem mais de 10% e 5 caem ao menos 10%: destaques do Ibovespa em setembroMagazine Luiza teve maior ganho do mês, enquanto Natura teve a maior quedaNa avaliação da casa, apesar da recente recuperação, a assimetria ainda favorece a Bolsa porque os preços atuais parecem incorporar um cenário mais próximo do pessimista do que das hipóteses base ou otimista.Estrangeiro ensaia volta à BolsaUmo elemento importante para o desempenho do mercado é o investidor estrangeiro uma vez que, após uma retirada de aproximadamente R$ 18 bilhões em agosto, os “gringos”compraram R$ 9,6 bilhões em ações no mercado à vista em setembro.No acumulado de 2026, a entrada estrangeira chega a R$ 27,9 bilhões no mercado à vista, enquanto os futuros registram saldo negativo de R$ 15,1 bilhões. A XP considera o volume ainda modesto e vê espaço para entradas maiores caso aumente o apetite dos investidores por ativos brasileiros.Nesse eventual movimento, as grandes empresas devem ser as primeiras beneficiárias. A cesta de “Fluxo Estrangeiro” montada pela casa reúne Petrobras (PETR4), Embraer (EMBJ3), Itaú (ITUB4), Mercado Livre (BDR: MELI34) e Nubank (BDR: ROXO34). Nos 13 meses de maior entrada de estrangeiros desde 2022, 64% das ações pertencentes ao grupo das 20% maiores empresas da B3 tiveram compras líquidas desses investidores, ante 26% entre as 20% menores.Quais ações ganham em um cenário mais amigável ao mercado?Com as eleições aumentando a incerteza sobre os próximos passos da política econômica, a XP atualizou suas cestas de ações para diferentes cenários.Na cesta chamada de”Política Alternativa”, que busca reunir empresas que poderiam se beneficiar de políticas consideradas mais favoráveis aos negócios e de uma melhora fiscal, aparecem Petrobras (PETR4), B3 (B3SA3), Sabesp (SBSP3), Banco do Brasil (BBAS3) e Localiza (RENT3).A lógica combina empresas estatais e reguladas, potencialmente beneficiadas pela redução do prêmio de risco, com ações mais sensíveis aos juros, que poderiam ganhar com uma queda mais acentuada das taxas diante de uma sinalização fiscal considerada mais crível.A cesta avançou 9,4% em setembro e acumula 19,9% no ano, 5,9 pontos percentuais acima do Ibovespa. Mesmo depois dessa valorização, negocia a 8,1 vezes o lucro projetado, 1,3 desvio-padrão abaixo da média desde 2021.A XP analisou ainda seis episódios de valorização conjunta do real e dos títulos prefixados desde 2021, movimento que considera compatível com uma melhora da percepção sobre a política econômica. A cesta superou o Ibovespa em cinco deles.E se o fiscal piorar?Do outro lado está a cesta de”Deterioração Fiscal”, criada para um ambiente de piora das contas públicas, enfraquecimento do real e aumento dos juros longos. A seleção reúne Aura (AURA33), Petrobras (PETR4), Gerdau (GGBR4), WEG (WEGE3) e Suzano (SUZB3).As empresas têm maior exposição ao dólar ou características de qualidade e menor alavancagem. A estratégia acumula alta de 29,9% em 2026, desempenho 15,8 pontos percentuais superior ao Ibovespa, sendo a cesta temática de melhor performance no ano.Em seis períodos de forte queda conjunta do real e dos títulos prefixados analisados pela XP desde 2021, essa cesta superou o Ibovespa em todos, com excesso médio de retorno de 4,1 pontos percentuais.A Petrobras aparece, portanto, nas duas cestas, tanto na de melhora das políticas econômicas quanto na de deterioração fiscal, algo que ajuda a explicar a preferência da casa pela companhia diante da incerteza eleitoral.Real forte ou fraco também muda as escolhasPara um cenário de valorização do real, a XP destaca ações predominantemente domésticas. Sua cesta de baixa exposição ao dólar inclui Copasa (CSMG3), Copel (CPLE3), Motiva (MOTV3), Allos (ALOS3), Cyrela (CYRE3), Rede D’Or (RDOR3), Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3).A cesta avançou 8,8% somente em setembro e acumula 7,5% em 2026. Em cinco dos seis episódios de maior valorização do real analisados desde 2021, superou o Ibovespa, com excesso médio de retorno de 3,9 pontos percentuais.Já em um cenário de real mais depreciado, a seleção inclui PRIO (PRIO3), Gerdau (GGBR4), Vale (VALE3), Klabin (KLBN11), MBRF (MBRF3), Suzano (SUZB3) e JBS (JBSS32), com maior presença de exportadoras e empresas com receitas em moeda estrangeira.Diante da assimetria considerada favorável, a casa optou por elevar modestamente o risco de suas carteiras recomendadas para outubro, mas sem abandonar o viés de qualidade. A estratégia é privilegiar empresas que possam participar de um cenário positivo sem sofrer de maneira desproporcional caso o ambiente piore.Na carteira Top Ações, a XP elevou os pesos de BTG Pactual (BPAC11), Iguatemi (IGTI11) e Sabesp (SBSP3), enquanto reduziu Rede D’Or (RDOR3) e Gerdau (GGBR4). O peso de BTG passou de 5% para 10%, enquanto Iguatemi e Sabesp passaram de 7,5% para 10%.Na carteira de dividendos, a casa aumentou Petrobras (PETR4) de 12,5% para 15% e B3 (B3SA3) de 10% para 12,5%, enquanto reduziu Vale (VALE3) de 12,5% para 7,5%. Para Petrobras, a XP destaca uma das melhores relações entre risco e retorno no setor e um FCFE yield de cerca de 12% em 2027, considerando Brent a US$ 75 por barril.Nas small caps, a principal novidade é a entrada de Cogna (COGN3), com peso de 10%. A XP cita melhora de execução, lucros resilientes e geração de caixa, com FCF yield de aproximadamente 20%. A casa também aumentou Tupy (TUPY3) e Ecorodovias (ECOR3), retirou C&A (CEAB3) e 3tentos (TTEN3) e diminuiu Orizon (ORVR3) e Alupar (ALUP11).The post XP vê Bolsa brasileira em uma “encruzilhada” e traça 3 cenários para mercado de ações appeared first on InfoMoney.
