As eleições para o governo de Minas Gerais colocam duas conhecidas empresas mineiras em situações bastante diferentes para os investidores. A empresa de saneamento Copasa (CSMG3) chega à reta final da disputa eleitoral já sob gestão privada, enquanto a elétrica Cemig (CMIG4) permanece estatal e, segundo analistas, carrega um desconto justamente pela incerteza sobre como será administrada pelo próximo governo.Nesse duelo, o BTG Pactual prefere a Copasa, montando uma estratégia relativa comprada em CSMG3 e vendida em CMIG4 por considerar que a companhia de saneamento reúne uma combinação mais favorável: maior proteção caso o resultado eleitoral seja considerado negativo pelo mercado e maior potencial de valorização caso o cenário político surpreenda positivamente.“A incerteza eleitoral regional vem pesando sobre os papéis”, afirma o BTG. Para a casa, Minas Gerais pode caminhar para “um ambiente menos favorável ao mercado em relação ao status quo”, mas a Copasa estaria mais protegida em um cenário desfavorável.A explicação está principalmente na mudança de controle, uma vez que a Copasa deixou de ser uma companhia de gestão estatal, enquanto a Cemig continua exposta à influência do controlador público.A própria campanha eleitoral reforçou essa distinção, já que os candidatos mais bem posicionados na disputa pelo governo mineiro se manifestaram contra a privatização da Cemig, reduzindo a perspectiva de que uma mudança de controle seja um catalisador próximo para a elétrica.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa tem dia volátil na última sessão antes das eleiçõesBolsas dos EUA avançam após dados do payroll abaixo do esperadoA diferença aparece também na visão do JPMorgan, uma vez que o banco mantém recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) em Copasa, com preço-alvo de R$ 70 para dezembro de 2027. Para Cemig, a recomendação é underweight (exposição abaixo da média do mercado, equivalente à venda), com preço-alvo de R$ 13 para o mesmo período.Copasa chega mais protegida às urnasO ponto de partida para a preferência pela Copasa é que parte relevante do risco político que tradicionalmente acompanhava CSMG3 foi reduzida após a privatização.O Bradesco BBI mantém recomendação de compra para a ação, com preço-alvo de R$ 78 para o fim de 2027, e destaca como próximo catalisador o primeiro reajuste tarifário anual pós-privatização. A casa projeta aumento nominal de aproximadamente 6,7%, incluindo compensação pelos investimentos recentes e bônus de desempenho.Além do reajuste, o evento será acompanhado porque pode ajudar a validar na prática as novas regras regulatórias depois da privatização.A transformação da tese aparece também nas projeções operacionais, com o BBI estimando crescimento médio anual de 29% para o Ebitda e de 31% para o lucro por ação entre 2027 e 2029. O ciclo de investimentos deve permanecer importante até a universalização, prevista nas estimativas do banco para 2033.Para 2027, a casa projeta Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) de R$ 4 bilhões, ante R$ 3,16 bilhões em 2026. Em 2028, a estimativa sobe para R$ 5,33 bilhões. O lucro líquido, por sua vez, passaria de R$ 1,29 bilhão neste ano para R$ 1,76 bilhão em 2027 e R$ 2,34 bilhões em 2028.Já entre os riscos, o principal deles está na execução da redução de despesas operacionais, com o BBI adotando premissas mais conservadoras e passou a assumir que o primeiro programa de demissões ocorrerá no segundo trimestre de 2027, em vez do quarto trimestre deste ano. Ainda assim, continua vendo espaço significativo para corte de custos e criação de valor.Leia tambémAs 7 ações mais recomendadas antes do 1º turno das eleiçõesSabesp sobe nas indicações e passa a dividir a liderança com outras peso-pesadas nas carteiras de bancos e corretoras para atravessar o pleito independentemente do resultadoA leitura mais recente do JPMorgan vai na mesma direção, embora com uma dose maior de cautela sobre a velocidade dessa transformação. O banco manteve recomendação overweight para CSMG3, mas reduziu o preço-alvo para dezembro de 2027 de R$ 78 para R$ 70, incorporando principalmente um reajuste tarifário menor, uma trajetória mais lenta de corte de custos e os resultados recentes.O JPMorgan reduziu em 14% sua projeção de Ebitda ajustado da Copasa para 2027, para R$ 4,205 bilhões, e em 7% a estimativa para 2028, para R$ 5,776 bilhões. No lucro líquido ajustado, a revisão para 2027 foi de 29% para baixo, a R$ 1,358 bilhão. Ainda assim, o banco estima crescimento médio anual de aproximadamente 24% para o Ebitda até 2031.A redução das estimativas não significa, portanto, abandono da tese pós-privatização. O banco continua trabalhando com corte de 40% nos custos em três anos, mas agora espera um processo mais gradual. O cenário-base também considera retornos regulatórios permitidos menores a partir de 2030 e normalização dos investimentos após a universalização.Para o JPMorgan, a privatização da Copasa, na qual a Equatorial (EQTL3) adquiriu participação de 30%, deve favorecer investimentos e ganhos de eficiência. Os principais riscos à recomendação positiva estão justamente na execução: a transformação operacional pode não ser concluída conforme projetado e eventuais atrasos no ambicioso programa de investimentos para universalização poderiam pressionar as estimativas.Cemig continua carregando o risco políticoJá para a Cemig, o Bradesco BBI manteve recomendação neutra para CMIG4, com preço-alvo de R$ 13 para o final de 2027.A casa estima que a Cemig esteja sendo negociada a uma TIR (Taxa Interna de Retorno) real implícita de 12,3%, acima da Equatorial e da Copel. O desconto, entretanto, é considerado justificável justamente pelo caráter estatal da companhia.Essa percepção é particularmente importante neste momento porque, segundo o BBI, as administrações mineiras dos últimos dois ciclos permitiram que a Cemig operasse “o mais próximo possível de uma empresa do setor privado”. As eleições estaduais passam, portanto, a representar um fator de risco para a continuidade desse modelo.O banco, por enquanto, não incorpora uma deterioração relevante. As projeções mantêm despesas operacionais, alocação de capital sem fusões e aquisições e custo de capital próprio real de 12%. O BBI diz não esperar uma mudança radical na trajetória positiva da empresa.Leia tambémBolsa: opções em dólar indicam “movimento explosivo” após o 1º turnoVolume de opções de compra do principal ETF de Ibovespa no mercado internacional disparou e pode influenciar o mercado já na segunda-feira, a depender do resultado das urnas; entenda o potencialEssa premissa ajuda a entender a assimetria eleitoral: na Copasa, uma troca de governo tem influência muito menor sobre a gestão; na Cemig, a capacidade do próximo controlador de preservar a disciplina operacional e de capital continua sendo uma variável da tese de investimento.O JPMorgan é ainda mais cauteloso com CMIG4, seguindo com recomendação underweight e preço-alvo de R$ 13 para dezembro de 2027. O relatório destaca uma série de incertezas de impacto elevado, que vão de créditos regulatórios às próprias eleições estaduais e seus possíveis efeitos sobre estratégia e privatização. Para o banco, surpresas positivas parecem menos prováveis nos próximos 12 meses, enquanto a avaliação da Cemig já está próxima à de pares administrados pela iniciativa privada, sinalizando que parte das expectativas positivas estaria incorporada aos preços.O banco reconhece que as eleições costumam ser encaradas como um possível catalisador para CMIG4, justamente porque a Cemig é uma das poucas empresas estatais de utilities restantes em sua cobertura. Depois de dois mandatos em que a expectativa pela privatização não se concretizou, entretanto, o J.P. Morgan afirma que prefere esperar evidências concretas antes de atribuir uma probabilidade à venda da companhia. Em sua tese de investimento, a casa afirma considerar improvável uma privatização da Cemig.Na análise de cenários, essa incerteza ganha números. Se todas as principais opcionalidades consideradas pelo J.P. Morgan se materializassem, CMIG4 poderia ter valorização próxima de 47% no cenário otimista. A própria casa, porém, considera esse cenário pouco provável e dependente de avanços regulatórios e/ou de uma privatização. No cenário pessimista, o potencial de queda seria de 22%, enquanto o cenário-base apontava valorização de 15%.Para o banco, uma eventual mudança na administração estadual após as eleições pode elevar a percepção de risco por causa das incertezas sobre os rumos estratégicos da elétrica.Pontos positivos para CemigIsso não significa que faltem fundamentos positivos para Cemig. O BBI destaca que os baixos múltiplos de preço sobre lucro e a capacidade de distribuição de dividendos impedem uma postura mais pessimista com a ação. CMIG4 negocia, nas estimativas da casa, a 8 vezes o lucro de 2027 e 6,5 vezes o de 2028, abaixo da média do setor. O dividend yield estimado fica próximo de 7%.A unidade de distribuição também apresenta perspectiva de crescimento. O banco projeta expansão média anual de 16% do Ebitda ajustado entre 2026 e 2029, beneficiada pela revisão tarifária periódica de 2028 e pelos R$ 25 bilhões de investimentos considerados no período.Há ainda uma possibilidade de valorização relacionada às concessões de geração. No cenário-base, o BBI considera renovação sem custos sob o regime de cotas para Sá Carvalho, Emborcação e Nova Ponte. Caso o governo federal permita renovar os ativos com pagamento de bônus de outorga e venda da energia no mercado livre, porém, o banco calcula um potencial adicional de cerca de 3% a 5% para seu preço-alvo.Além da política, a geração adiciona outro componente de volatilidade, já que a Cemig mantém exposição ao mercado de energia à vista em 2027 e 2028.O JPMorgan também reconhece avanços operacionais e aponta melhora na distribuição, o crescimento em geração e o processo de simplificação corporativa por meio da venda de ativos. O plano estratégico está concentrado nos negócios principais de geração, transmissão, distribuição de energia e distribuição de gás, enquanto o programa de investimentos pode chegar a R$ 42 bilhões em cinco anos em Minas Gerais.No cenário-base, a casa estima crescimento médio anual de aproximadamente 13% para o Ebitda da Cemig entre 2026 e 2030. As projeções apontam Ebitda de R$ 7,412 bilhões em 2026, R$ 8,166 bilhões em 2027 e R$ 9,537 bilhões em 2028.Mas a expansão dos investimentos também reduz outro atrativo tradicional da tese. O J.P. Morgan espera capex próximo de R$ 6 bilhões por ano em 2026 e 2027, principalmente na distribuição, o que limita o dividend yield. A casa trabalha com retorno de dividendos ao redor de 5% em 2027 e 2028 e afirma que os dividendos que antes sustentavam a tese estão diminuindo, uma das justificativas para sua recomendação underweight.Há, por outro lado, opcionalidades que poderiam elevar o valor da empresa. O JPMorgan calcula que uma eventual privatização da Gasmig poderia destravar cerca de 5% de valor presente líquido para a Cemig. Uma política de dividendos mais agressiva ou pagamentos extraordinários também poderiam melhorar a percepção sobre CMIG4.Copasa com melhor assimetriaO BTG, por sua vez, ao fazer uma comparação direta, aponta a Copasa como preferida. O banco calcula uma TIR de aproximadamente 12% para CSMG3, ante cerca de 9% para Cemig, dentro das premissas de sua estratégia relativa. Mais importante é a diferença de potencial de valorização: 45% para Copasa, contra 12% para Cemig, segundo o relatório.Se o resultado eleitoral produzir um ambiente menos favorável ao mercado, o BTG considera a Copasa mais protegida porque sua gestão já é privada. Se o cenário político surpreender favoravelmente, CSMG3 também oferece, nas contas do banco, maior espaço para valorização.A visão do JPMorgan reforça essa diferença entre as duas teses. Para a Copasa, o desafio deixou de estar primordialmente em quem controlará a companhia depois das eleições e passou a se concentrar na execução da transformação pós-privatização, especialmente corte de custos, tarifa e investimentos. Mesmo após reduzir suas projeções, a casa continua overweight em CSMG3 e vê a privatização como vetor de eficiência e crescimento.Na Cemig, em contraste, o resultado das eleições ainda pode alterar diretamente a percepção de risco sobre estratégia e gestão. Embora reconheça melhora operacional e diversas opcionalidades de valorização, o J.P. Morgan avalia que as chances de surpresas positivas são menores no horizonte de 12 meses e prefere esperar sinais concretos antes de incorporar uma eventual privatização à tese. Por isso, mantém recomendação underweight para CMIG4.The post Cemig x Copasa: qual é a ação mineira preferida levando em conta o cenário eleitoral? appeared first on InfoMoney.
