Setembro foi o mês dos títulos públicos atrelados à inflação na renda fixa. O IMA-B, índice da Anbima que acompanha a carteira de títulos do Tesouro IPCA+, subiu 3,15% no mês, o melhor resultado entre os principais índices do mercado. Na outra ponta, as debêntures incentivadas renderam apenas 0,41%, segundo o IDA-IPCA Infraestrutura. Esses títulos de dívida de empresas são isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas.A diferença entre o primeiro e o último colocado chegou a 2,74 pontos percentuais em um único mês. No acumulado do ano, o contraste é ainda maior. As debêntures atreladas ao IPCA sem benefício fiscal, medidas pelo IDA-IPCA ex-Infraestrutura, acumulam alta de 11,20%, contra 4,17% das incentivadas.AtivoÍndiceSetembro (%)No ano (%)Títulos públicos de inflaçãoIMA-B3,1510,11Debêntures IPCA não incentivadasIDA – IPCA ex-Infraestrutura2,4911,2Títulos públicos prefixadosIRF-M2,099,29Títulos públicosIMA – Geral1,7210,11Títulos públicos pós-fixadosIMA-S1,0610,62Debêntures atreladas ao DIIDA – DI1,0110,92DebênturesIDA – Geral0,777,75Debêntures atreladas ao IPCAIDA – IPCA0,484,37Debêntures incentivadasIDA – IPCA Infraestrutura0,414,17Fonte: Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais)O que explica a valorização do Tesouro IPCA+O desempenho dos títulos do Tesouro IPCA+, chamados no mercado de NTN-Bs, se explica principalmente pela queda das taxas de juros negociadas no mercado. Quando essas taxas recuam, o preço dos títulos que já estão em carteira sobe.“Tanto a inflação como o fluxo, na minha visão, pesaram muito pouco”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research. Segundo ele, a taxa da NTN-B de cinco anos caiu cerca de 45 pontos-base em relação a agosto (cada 100 pontos-base equivalem a 1 ponto percentual). A de dez anos recuou 38 pontos-base, e os vencimentos de 15 a 35 anos tiveram queda entre 27 e 31 pontos-base.Para Almeida, o comportamento das projeções de inflação reforça esse diagnóstico. A inflação implícita de dez anos, que indica quanto de inflação o mercado embute nos preços dos títulos, caiu de cerca de 6,16% para 5,98%. No mesmo período, as taxas dos contratos de DI futuro, referência para os juros prefixados, recuaram quase 60 pontos-base, e as das NTN-Bs, 38 pontos-base. Na leitura dele, o mercado reduziu a compensação extra que vinha cobrando pelo risco de inflação, em vez de aumentá-la.Leia tambémBolsa: opções em dólar indicam “movimento explosivo” após o 1º turnoVolume de opções de compra do principal ETF de Ibovespa no mercado internacional disparou e pode influenciar o mercado já na segunda-feira, a depender do resultado das urnas; entenda o potencialEmbora a queda das taxas tenha sido mais intensa nos prazos intermediários, o maior retorno ficou com os títulos mais longos. Isso acontece porque, quanto mais longo o papel, mais o preço reage a cada variação de taxa. O IMA-B 5+, que reúne as NTN-Bs com vencimento acima de cinco anos, subiu 3,82% no mês. Já o IMA-B 5, com os papéis de até cinco anos, avançou 2%. Lauro Sawamura Kubo, gestor da Patagonia Capital, avalia que a queda das taxas atingiu todos os prazos, com ganho maior nos mais longos justamente por esse efeito.Para João Debom, sócio da Supernova Investimentos, o ponto de partida já era favorável. “A gente entrou em setembro com as NTN-Bs pagando um juro real que, olhando a história, é absurdo, porque o mercado vinha cobrando caro pelo risco fiscal e pela eleição”, diz. Diferentemente de Almeida, ele vê papel também para a inflação. Segundo Debom, um corte de juros sem surpresas, os sinais de desaceleração da atividade econômica e uma inflação de serviços mais comportada bastaram para que parte desse prêmio, o juro extra cobrado pelos riscos, fosse devolvida.Leia também: Comprou Tesouro IPCA+ acima de 8%? Simulação mostra se vale a pena vender agora A virada dos prefixadosO IRF-M, índice da Anbima que acompanha os títulos prefixados do Tesouro, havia fechado agosto como o pior do mês, com 1,04%. Em setembro, saltou para 2,09%, e a explicação está na forma como as taxas se moveram em cada prazo.Almeida explica que, em agosto, as taxas caíram apenas nos prazos curtos, com recuo de 21 pontos-base nos papéis de seis meses e de 13 pontos-base nos de um ano. Nos prazos de dois a cinco anos, porém, as taxas subiram entre 9 e 13 pontos-base, o que anulou o ganho. Em setembro, a queda foi generalizada e mais forte nos prazos longos, chegando a cerca de 60 pontos-base entre sete e 15 anos. Enquanto isso, a taxa de um ano cedeu só 18 pontos-base.“Ou seja, quem fechou foi o prêmio, não foi a expectativa para a Selic“, resume o head da Suno. Para ele, o movimento foi essencialmente doméstico, o que torna os próximos passos mais sensíveis ao cenário eleitoral e à agenda fiscal.Debom faz uma leitura parcialmente diferente. “Nos prefixados, a mudança foi de humor, não de fundamento”, diz. Ao contrário do head da Suno, porém, ele avalia que houve também uma revisão das expectativas para a Selic. Em agosto, havia dúvida sobre o ritmo dos cortes de juros, e em setembro o mercado passou a projetar que a taxa encerrará o ciclo em um patamar mais baixo do que se imaginava.Kubo acrescenta que o cenário eleitoral também pesou. Parte do mercado passou a incorporar aos preços a possibilidade de maior controle das contas públicas à frente.Leia também: Títulos prefixados compensam? Histórico é de vitória apertada sobre o CDIPor que as incentivadas ficaram para trásA diferença de sete pontos percentuais no ano entre debêntures incentivadas e não incentivadas chama atenção. Ainda assim, segundo os especialistas, ela não indica maior risco de calote das empresas emissoras.Almeida atribui o resultado ao aumento do spread, que é a taxa adicional paga pelas debêntures em relação aos títulos públicos de prazo semelhante. O efeito foi amplificado pelo prazo longo desses papéis. Em fevereiro, as incentivadas pagavam cerca de 65 pontos-base a menos que as NTN-Bs de referência, e no fim de setembro passaram a pagar 35 pontos-base a mais. A diferença subiu 100 pontos-base no ano, dos quais 30 apenas em setembro.“É importante destacar que ainda não é um risco de crédito”, afirma. Segundo ele, pesaram fatores técnicos, como os resgates em fundos de debêntures incentivadas desde o primeiro trimestre e a migração de parte desses recursos para títulos bancários de prazo mais curto. Em setembro, houve ainda um descompasso, já que as taxas das NTN-Bs caíram rapidamente e as das debêntures não acompanharam.Debom chama atenção para o preço pago pelos investidores. “A incentivada passou anos sendo disputada pela isenção de IR. Os spreads ficaram tão apertados que teve papel pagando menos que a NTN-B do mesmo prazo”, diz. Para ele, o benefício fiscal não é retorno, e muita gente pagou caro demais para não pagar imposto. Kubo aponta um fator adicional, as discussões recentes sobre a tributação de investimentos hoje isentos para pessoas físicas, que teriam reduzido a procura pela classe.Leia também: Crédito privado hoje é “strike ou canaleta”, e especialistas recomendam dosar o riscoAinda dá tempo de investir no Tesouro IPCA+?Almeida reconhece que parte do ganho com a valorização dos títulos já ficou para trás. Mesmo assim, avalia que o retorno para quem mantém o papel até o vencimento segue alto. Segundo ele, em apenas 15% dos períodos históricos o juro real, que é o retorno acima da inflação, foi superior ao atual. O analista cita ainda que o juro real médio de todas as NTN-Bs emitidas desde 2005 foi de 5,88%, o que coloca o patamar de hoje bem acima da média histórica.Nesta sexta-feira (2), o Tesouro IPCA+ 2032 pagava IPCA mais 7,60% ao ano no Tesouro Direto, e o IPCA+ 2050, IPCA mais 7,06%.Para Debom, os títulos começam a perder atratividade quando as taxas dos vencimentos intermediários e longos se aproximarem de 5,5% a 6% ao ano acima da inflação. “Setembro devolveu só um pedaço do prêmio que foi acumulado ao longo do ano”, diz. Por isso, ele recomenda comprar aos poucos ao longo do próximo trimestre.Kubo evita apontar um nível, mas observa que poucos ativos entregam de forma consistente retornos acima de 6% ao ano além da inflação no longo prazo.Os especialistas fazem a mesma ressalva. Quem não puder manter o título até o vencimento precisa considerar o risco de marcação a mercado, ou seja, de ter de vender o papel antes do prazo por um preço menor que o pago, caso as taxas subam.Leia também: “Se der errado, é pouco”: ainda dá tempo de lucrar com o Tesouro IPCA+?The post Melhor investimento de renda fixa paga 3,15% em 1 mês; onde aplicar agora? appeared first on InfoMoney.
