A ascensão da extrema-direita no Brasil é um fenômeno intrincado, que vai além do mero espectro político. Fatores como o estado atual da sociedade do país, com o avanço de organizações ligadas a grupos religiosos, fazem parte do caldo social brasileiro. Com o esvaziamento das organizações que mobilizaram o eleitorado de esquerda (a exemplo de sindicatos), as igrejas evangélicas passaram a ocupar parte desse espaço. A avaliação é de Elizabeth McKenna, professora da Harvard Kennedy School, em artigo publicado na última segunda-feira (5) pelo jornal americano The New York Times.Segundo McKenna, parte desse processo tem a ver com o PT. O partido, ao longo de anos, foi deixando de lado o trabalho de organização social, dando foco maior à disputa eleitoral e à própria gestão do governo. Some-se a isso a prevalência da figura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), um dos fundadores da sigla e que, nesta eleição de 2026, tenta o seu quarto mandato.Para a socióloga, elementos como a insatisfação econômica, as mudanças culturais no país e a polarização política, embora relevantes, não explicam, sozinhos, o avanço da direita radicalizada no Brasil. Na política, a mobilização do eleitorado é feita por organizações com capacidade de articulação na cena social.Historicamente, para o PT e outras siglas de esquerda, essa mobilização tinha como força motriz o trabalho dos sindicatos. Cada vez mais enfraquecidos, esses grupos foram perdendo poder. Um recorte nos últimos anos ajuda a explicar: a sindicalização, que ficava na casa dos 16,1% dos trabalhadores ocupados em 2012, não passou de 8,8% em 2025, de acordo com a Pnad Contínua do IBGE.Não há vazio de poderNo mesmo período citado, as igrejas evangélicas não apenas cresceram, mas passaram a gravitar no imaginário político de parte nada irrelevante da sociedade do país. A fatia de evangélicos na população saltou de 9% em 1991 para 26,9% em 2022, segundo o mais recente Censo do IBGE.McKenna sustenta que, nas periferias, igrejas pentecostais, em geral, mantêm com os moradores um vínculo mais próximo que o de partidos e movimentos sociais. Segundo levantamentos de organizações especialistas no tema, três em cada quatro evangélicos vão ao culto uma vez por semana. Na avaliação da socióloga, essa presença constante faz das redes religiosas uma base duradoura da direita. O motivo é elementar: as figuras dos pastores, não raro, ajudam os fiéis a ligar a fé às escolhas políticas.“Uma mulher pentecostal pobre da periferia de São Paulo não é eleitora de Bolsonaro por natureza; na verdade, os evangélicos passaram mais de uma década aliados ao PT. Mas, se um pastor está presente toda semana para ajudá-la a relacionar sua fé à política, ela se tornará eleitora de Bolsonaro”, escreve.Leia tambémVitória de Flávio trocaria influência da China por EUA. O que isso significa?Centros de estudo internacionais veem possibilidade de guinada nas relações internacionais, com o Brasil reduzindo presença em fóruns globais, enfraquecimento político dos BRICs e adesão ao Escudo das AméricasOs votos que ainda estão em jogo no segundo turno entre Lula e FlávioQuase 9,2 milhões escolheram candidatos eliminados, 33,4 milhões se abstiveram e outros 5,9 milhões votaram em branco ou nuloÉ neste ponto que a autora propõe a superação da ideia de que os eleitores evangélicos, em geral, não têm a ganhar com o movimento. As igrejas pentecostais, habitualmente, servem de espaços sociais aos tantos e crescentes fiéis do país. O discurso vigente, ligado à fé, oferece a uma parcela relevante de eleitores algo que o Estado, em sua composição atual, parece longe de conseguir oferecer.“Em troca, os fiéis – que recebem pouco do Estado e ainda menos dos partidos que afirmam falar em seu nome – ganham ordem, sobriedade e uma comunidade que sempre lembra do seu aniversário, como me disse uma moradora local”, relata McKenna.Menos Estado, mais desamparo?O distanciamento do Estado não acontece por acaso. Com índices de violência significativos, o aparelho estatal, muitas vezes, se materializa na forma da polícia. Enquanto isso, os históricos gargalos na prestação dos serviços de saúde e assistência social afetam os setores menos favorecidos.O artigo cita ainda os grupos conservadores organizados pela internet. Trata-se de um contingente de pessoas que não aderem a uma liderança formal ou a um programa único, muito embora estejam na alçada dos discursos políticos de figuras como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e a família Bolsonaro.Se o discurso autoritário parece cada vez mais em voga no país, o artigo do NYT sustenta que figuras institucionais clássicas, como o Supremo Tribunal Federal (STF), dificilmente podem servir, sozinhas, de garantia contra o autoritarismo. McKenna, porém, lembra que as decisões da Suprema Corte contra Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, não devem ser lidas como medidas isoladas da força da lei.Para o segundo turno da eleição presidencial, marcado para o próximo dia 25 de outubro, a autora avalia que uma vitória de Lula dependeria, entre outros fatores, de mobilizar parte dos 33 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno. Na prática, tal empreitada exigiria uma estrutura de base que o PT deixou de construir nos últimos anos, segundo MCKenna.The post NYT: igrejas ocuparam lugar de sindicatos, moldando imaginário político no Brasil appeared first on InfoMoney.
