Bolsa decolou, mas está mais barata? Por que gestores ainda veem fôlego na euforia

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A Bolsa brasileira subiu quase 8% em um único dia após o primeiro turno e, ainda assim, pode ter terminado o pregão mais barata do que começou. A tese, que soa contraditória à primeira vista, é de João Luiz Braga, sócio-fundador da Encore Asset Management, e ajuda a entender por que parte dos gestores de ações vê espaço para novas altas mesmo após a euforia que se seguiu ao primeiro turno das eleições.O Ibovespa superou os 209 mil pontos na segunda-feira (5), na maior valorização diária desde 24 de março de 2020. Mesmo com correção na terça, segue acima da marca dos 200 mil pontos. Ainda assim, defende Braga, pela queda forte dos juros, a Bolsa não necessariamente ficou mais cara.“Se brincar, no final do dia ela estava mais barata do que um dia antes”, diz. Juros futuros menores melhoram as projeções de receita das empresas, reduzem a despesa financeira e diminuem a taxa de desconto usada para calcular o valor das ações. Num cenário de vitória de Flávio, com menor preocupação fiscal, o gestor considera não só possível como provável que os juros caiam dos atuais 13,75% para perto de 10%. “Não acho que teve nenhum exagero [na segunda-feira], muito pelo contrário.”Braga lembra que várias empresas domésticas eram negociadas a quatro ou cinco vezes o lucro, nível que diz talvez nunca ter visto, e que poderiam chegar a oito ou dez vezes sem que isso as tornasse caras.João Luiz Braga, sócio e analista de investimentos da Encore Asset Management, durante sessão na Expert XP 2026 (Foto: Fábio Rizzato/InfoMoney)Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital, vê espaço para novas altas no posicionamento dos investidores que ficaram de fora. Com a renda fixa pagando acima de 13% ao ano e os títulos públicos atrelados à inflação (NTN-Bs) garantindo as metas atuariais dos fundos de pensão sem risco de Bolsa, o Brasil vivia “a menor alocação em Bolsa da história”. “Todo mundo pensou que agora precisava ter alguma coisa em Bolsa”— Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach CapitalNa conta de Campos, mesmo depois do salto o Ibovespa segue abaixo da média histórica de preço sobre lucro (P/L), e os resultados das empresas tendem a melhorar com crédito mais barato.Isso não quer dizer que o caminho será linear. “Se a gente começar a imaginar que vai ser todo dia uma alta dessa, também não é verdade”, pondera Campos, para quem um eventual novo governo também terá seus problemas.Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach CapitalEsperança x entregaLuciano França, gestor de renda variável da Paramis Avantgarde, avalia que, com uma trajetória de dívida mais coerente, juros mais estáveis e maior previsibilidade, o Ibovespa pode se consolidar na casa dos 250 mil pontos até o fim de 2027, alta de pouco mais de 20% sobre o fechamento de segunda. Sem ajustes fiscais, porém, o risco é de um “voo de galinha”. “Uma coisa é a esperança, outra coisa é a entrega”, diz.Para o gestor, o que se viu na segunda-feira foi uma reprecificação de múltiplos provocada pela queda dos juros longos, e não uma revisão de lucros, que deve levar de 12 a 24 meses para aparecer nos balanços. “Juros e Bolsa são praticamente o mesmo ativo”, resume. Segundo ele, “o mercado não estava precificando empresas. Estava precificando duas coisas: Brasil e juros.”Luciano França, gestor de renda variável da Paramis AvantgardePara Frederico Sampaio, CIO da Franklin Templeton Brasil, a alta de segunda-feira surpreendeu pela força e pela velocidade, já que o mercado havia subido na semana anterior antecipando um resultado favorável à oposição. “Eu não esperava esse impacto todo, foi muito acima do esperado porque eu achava que o mercado já estava precificando um cenário de Flávio Bolsonaro na frente”, diz. O principal fundo de ações da casa, o Franklin Valor e Liquidez, subiu 10,7% no dia, ganho que só não foi maior por causa de proteções em opções montadas para o caso de uma surpresa negativa.Segundo o gestor, agora é preciso separar o curto prazo do horizonte mais longo. “No curto prazo o mercado já subiu bastante, não vejo muito espaço para subir muito mais, e tem muita coisa para acontecer, o Flávio ainda não ganhou a eleição”— Frederico Sampaio, CIO da Franklin Templeton BrasilPor isso, Sampaio manteve as principais posições do fundo, concentradas em empresas do setor financeiro não bancário, como B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11) e XP (XPBR31), além de Petrobras (PETR3; PETR4) e empresas de serviços públicos. “O mercado comemorou bastante, mas agora eu ficaria mais conservador”, alerta.Na visão dele, novas altas dependem dos desdobramentos da eleição, como a escolha da equipe econômica e o anúncio das medidas do futuro governo. “O filme tem a possibilidade de ser muito bom, mas ainda nem temos o trailer, os primeiros passos do governo, então temos de esperar”, ressalta. No longo prazo, se um eventual governo Flávio fizer as reformas esperadas pelo mercado, Sampaio avalia que o Ibovespa como um todo, que hoje negocia a 9,5 vezes o lucro, pode voltar ao múltiplo de cinco anos atrás, de 11,5 vezes, o que levaria o índice aos 250 mil pontos, patamar que França vê possível até o fim de 2027.Frederico Sampaio, CIO da Franklin Templeton Brasil (Foto: Divulgação)Cenário Flávio está totalmente precificado?Quanto da possível vitória de Flávio já está nos preços é outra dúvida. Braga estima algo próximo de 80% de probabilidade embutida, mas alerta que a pergunta pode levar o investidor a ficar parado à espera de uma confirmação. Campos cita patamar semelhante nos mercados de previsão e avalia que, se a vitória se consolidar, a Bolsa deve dar “mais uma pernada”.Sampaio menciona apostas de 84% de chance de vitória do senador no Polymarket na terça-feira (6) e não vê risco de a Bolsa desabar, a menos que Flávio seja derrotado, hipótese que considera menos provável. França também vê espaço para um novo movimento após o segundo turno, possivelmente de menor intensidade.Mesmo no cenário-base, porém, há armadilhas. Sem anúncios fiscais logo após a eleição, França vê risco de frustração, no clássico “sobe no boato, cai no fato”. Ele lembra ainda que a inflação projetada segue acima do teto da meta e que, para a tese das ações domésticas se sustentar, a curva de juros precisa se firmar num patamar bem mais baixo que o atual.O gestor também alerta para uma “concentração disfarçada”: quem tem 10 ou 15 ações domésticas pode se achar diversificado, mas, na prática, está com uma aposta única na queda dos juros. “[Na segunda-feira] parecia loja em Black Friday, todo mundo comprando tudo sem ver preço. Se todo mundo quiser sair ao mesmo tempo, a saída também fica estreita”, diz.E se Lula virar?Desde a redemocratização, nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar venceu a disputa presidencial, mas a hipótese não é nula.Questionado sobre o que aconteceria com a alta numa virada, França projeta que o ajuste não seria necessariamente simétrico. A reversão pode ser mais violenta que a alta, porque muita gente entrou no mesmo trade ao mesmo tempo, ou menor, se o mercado for incorporando a chance de virada ao longo das próximas três semanas, conforme saem novas pesquisas e se movem os mercados de previsão.“Se o cenário virar no segundo turno, uma parte relevante dessa alta, principalmente nas ações mais sensíveis a juros, tende a ser devolvida mais rapidamente”, afirma.E o investidor que ficou de fora?Para quem assistiu à disparada de longe, os gestores recomendam não ficar de fora.Braga avalia que “deixar de entrar agora por conta da alta na segunda-feira é um viés” e que o ciclo de alta “nem começou”. Campos argumenta que pouca gente aproveitou o movimento porque ninguém acerta o dia e porque o brasileiro, avesso a risco, costuma se afastar nos meses em que a Bolsa anda de lado enquanto o CDI rende. Agora, diz, a Bolsa volta à moda, o que tende a atrair mais compradores.França propõe uma saída que dispensa a tentativa de adivinhar o melhor momento: tratar a renda variável como alocação estratégica, e não tática, com uma fatia fixa da carteira rebalanceada periodicamente. “A hora de entrar é sempre”, diz, desde que não seja tudo de uma vez.The post Bolsa decolou, mas está mais barata? Por que gestores ainda veem fôlego na euforia appeared first on InfoMoney.

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