Títulos da França têm pior década desde 1803 e abalam mercado: o que acontece?

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A França, segunda maior economia da União Europeia e por décadas vista como uma pagadora segura, hoje paga juros mais altos que Itália e Grécia quando emite novos títulos. Nesta quinta-feira (8), a taxa dos títulos do governo francês de 10 anos voltou a subir e se aproximou de 4,9% ao ano, perto do maior nível desde 2002. Com isso, os papéis caminham para a sexta semana seguida de desvalorização.O episódio acontece num momento em que os juros já sobem em vários países. O petróleo voltou a passar de US$ 100 por barril com as tensões no Oriente Médio, o que alimenta o temor de inflação mais alta. Nos Estados Unidos, os juros dos títulos do Tesouro de 10 anos chegaram ao maior nível desde 2002, e no Reino Unido passam de 5,5%.Leia tambémExagero ou novo patamar? Juros americanos em máxima de 24 anos dividem gestoresEnquanto os juros longos renovam máximas, gestoras locais divergem sobre o peso do fiscal e o rumo do Fed e fazem apostas opostas na curva americanaTreasuries subiram demais e janela para investir se abriu, avalia JPMorgan AssetPara Marina Valentini, estrategista de mercados globais da casa, a precificação agressiva de alta de juros criou uma oportunidade – justamente quando o câmbio fica mais favorável no Brasil para enviar recursos ao exteriorEm nota a clientes, o Deutsche Bank classificou os movimentos como “genuinamente históricos”. Segundo o banco, a diferença entre os juros franceses e alemães nunca tinha aumentado tanto em uma única semana desde 1990, quando começa a série de dados. O Deutsche também calcula que quem investiu em títulos franceses de 10 anos teve, na última década, o pior retorno desde 1803, quando os efeitos da Revolução Francesa ainda pesavam sobre as contas do país.Por que a França virou preocupaçãoOs juros de um título público sobem quando investidores estão exigindo uma recompensa maior para emprestar dinheiro àquele governo, geralmente porque passaram a enxergar mais risco. No caso francês, a desconfiança vem de uma combinação de dívida alta, contas no vermelho e dificuldade política para resolver o problema.O estopim foi o projeto de orçamento de 2027, que prevê déficit de 5,4% do PIB, bem acima do limite de 3% estabelecido pela União Europeia. Com o Parlamento dividido e a eleição presidencial marcada para a próxima primavera europeia, o mercado duvida que o governo consiga aprovar cortes de gastos.A dívida pública francesa soma pouco mais de 3,5 trilhões de euros, perto de 120% de tudo o que o país produz em um ano, e o governo não fecha as contas no azul desde 1974. Para piorar, a França precisa captar um volume recorde de 340 bilhões de euros no ano que vem, boa parte para pagar títulos que vencem, justamente quando os investidores cobram mais caro.Até o presidente do Banco da França, Emmanuel Moulin, reconheceu na quarta-feira que a situação do país é “séria”, embora tenha descartado a necessidade de ajuda do Banco Central Europeu (BCE).Para Bert Flossbach, cofundador da gestora alemã Flossbach von Storch, a França se tornou o “novo filho-problema da zona do euro”, diante da resistência crônica a reformas.O termômetro mais usado pelo mercado é a comparação com a Alemanha, considerada a pagadora mais segura da Europa. Hoje, a França paga cerca de 1,3 ponto percentual a mais que os alemães nos títulos de 10 anos, a maior diferença desde a crise da dívida europeia, em 2012.Existe risco de uma nova crise do euro?A preocupação já se espalha. Os juros de Itália e Grécia também subiram nos últimos dias, e o euro caiu ao menor valor em 17 meses frente ao dólar.Ainda assim, especialistas descartam um calote. Flossbach lembra que o BCE tem um instrumento para comprar títulos de países sob pressão e conter a alta dos juros, o que funciona como uma espécie de rede de proteção. Mas, na avaliação dele, a situação precisaria piorar bastante antes de uma intervenção, até porque um socorro poderia incentivar outros governos a gastar mais.O Deutsche Bank também pondera que boa parte da venda recente veio de investidores desmontando operações que apostavam em um mercado mais tranquilo, e não apenas de uma piora nos fundamentos.O que muda para o investidorO lado positivo da alta dos juros é que a renda fixa voltou a pagar bem. Durante anos, os títulos tiveram papel secundário nas carteiras da gestora porque rendiam pouco e ofereciam pouca proteção caso os preços caíssem. Esse cenário começou a mudar, segundo Flossbach, e a Flossbach von Storch decidiu aumentar o peso dos títulos nas carteiras que combinam ações e renda fixa.A lógica é que, com juros mais altos, o investidor recebe mais pelo dinheiro emprestado, e essa renda maior funciona como um colchão. Se as taxas subirem ainda mais e os títulos perderem valor no curto prazo, os pagamentos de juros ajudam a compensar parte da perda. No longo prazo, o que importa é quanto sobra do rendimento depois de descontada a inflação, e, para o gestor, o retorno continua atraente mesmo que a inflação fique entre 3% e 4% ao ano.Um sinal curioso do momento é que o mercado hoje confia mais em empresas com boa nota de crédito do que nos governos da França e da Itália. Títulos corporativos de alta qualidade já rendem cerca de 4,5% ao ano em euros, acima dos papéis do governo alemão, e perto de 6% em dólares. Flossbach considera que o risco de investir em dólar é administrável, dada a fraqueza crônica do crescimento na zona do euro, mas ressalta que a seletividade é essencial, com foco em emissores de qualidade.A BlackRock já recomendava cautela com os títulos de prazo muito longo. A gestora prefere papéis de curto e médio prazo, que oferecem boa renda e sofrem menos quando os juros sobem, e avalia que os títulos longos se tornaram uma proteção menos confiável para as carteiras num cenário de inflação persistente e dívidas elevadas. No crédito privado, a recomendação é escolher empresas com caixa previsível e boas garantias.Para quem pensa em aproveitar a alta dos juros franceses, o Deutsche Bank avalia que os títulos do país já estão baratos em relação aos fundamentos. O banco reconhece, porém, que o momento é desafiador e que os gráficos de longo prazo preocupam.The post Títulos da França têm pior década desde 1803 e abalam mercado: o que acontece? appeared first on InfoMoney.

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