O primeiro turno das eleições produziu uma reprecificação dos ativos brasileiros com uma onda de entrada de recursos na Bolsa que, na visão do JPMorgan, pode estar apenas no começo. Apenas no pregão de 5 de outubro, foi registrado o maior ingresso diário de capital estrangeiro da história da B3. Para Emy Shayo e Cinthya Mizuguchi, estrategistas do JPMorgan que assinam o relatório, o próximo grande vetor para o mercado poderá vir dos investidores locais.Segundo a casa, o fluxo de R$ 10 bilhões registrado em 5 de outubro superou em aproximadamente 20% o segundo maior ingresso diário já observado e foi o único entre os dez maiores episódios históricos motivado exclusivamente por fatores domésticos. Nos primeiros quatro pregões de outubro, o saldo de investimento estrangeiro na Bolsa já somava R$ 13,7 bilhões.O JPMorgan argumenta que a combinação entre mudança das expectativas políticas, possibilidade de ajuste fiscal e perspectiva de queda dos juros criou um ambiente semelhante ao observado em momentos marcantes da história recente do mercado brasileiro.“Podemos estar entrando em um território semelhante ao visto há dez anos”, afirma o banco ao traçar um paralelo com 2016, quando a melhoria das expectativas econômicas ajudou a impulsionar uma forte valorização das ações brasileiras.Estrangeiros voltaram, mas o investidor local continua ausenteApesar do recorde recente de entrada de recursos, o JPMorgan chama atenção para um desequilíbrio importante.Enquanto os estrangeiros voltaram a comprar ações brasileiras, os investidores locais seguem com exposição historicamente baixa à renda variável. O banco observa que os fundos dedicados a ações continuam registrando resgates, mesmo após o rali provocado pelo primeiro turno. Em setembro, as saídas líquidas somaram R$ 3,9 bilhões, elevando os resgates acumulados do ano para R$ 10,9 bilhões.A participação das ações no patrimônio total dos fundos caiu para 7,6%, o menor nível desde julho de 2025 e bem abaixo da média histórica de 10,2%.Na avaliação do banco, é justamente essa baixa exposição que abre espaço para uma nova perna do rali caso a trajetória de queda dos juros se consolide.Até US$ 62 bilhões podem migrar para açõesO JPMorgan fez um exercício para medir quanto dinheiro poderia migrar para a Bolsa caso investidores domésticos retornassem gradualmente aos níveis históricos de alocação em renda variável. A estimativa considera fundos de investimento e fundos de pensão. Nos fundos de investimento, a alocação atual em ações é de 7,6%, contra média histórica de 10,2%. Se a participação retornasse a esse patamar, o banco calcula uma entrada potencial de aproximadamente US$ 42 bilhões.Entre os fundos de pensão, a exposição atual às ações é de 7,3%, ante média histórica de 14,5%. O retorno ao padrão histórico representaria mais US$ 19,8 bilhões em fluxos.No total, o JPMorgan estima um potencial de aproximadamente US$ 62 bilhões em entradas domésticas para a Bolsa brasileira. Isso porque, se a Selic continuar em queda, parte dos recursos atualmente concentrados em renda fixa tende a buscar alternativas com maior potencial de retorno.O banco não considera o cenário livre de riscos: uma valorização mais forte do dólar global ou um ambiente externo mais adverso poderia reduzir o apetite por mercados emergentes e atrapalhar o ritmo de realocação para o Brasil. O JPMorgan destaca que, historicamente, fluxos para emergentes costumam ser favorecidos por um dólar mais fraco, condição que ainda não está plenamente configurada.Além disso, os fundos multimercados continuam sofrendo resgates. Os saques acumulados em 2026 chegaram a R$ 9,3 bilhões, prolongando uma tendência observada desde fevereiro.Leia mais: O estrangeiro veio para ficar? BBA estima que fluxo para B3 pode ser de até R$ 270 biJá os fundos de renda fixa, embora tenham registrado retirada líquida de R$ 27 bilhões em setembro, ainda acumulam entrada de aproximadamente R$ 136 bilhões no ano.Estrangeiros continuam relevantesMesmo apostando em uma retomada dos investidores domésticos, o JPMorgan destaca que o fluxo estrangeiro continua sendo um importante suporte para o mercado.O saldo acumulado de investimento estrangeiro em ações brasileiras já alcançou cerca de R$ 34,4 bilhões em 2026 até 5 de outubro, colocando o ano entre os melhores períodos recentes para captação de recursos externos.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Confira o que movimenta Bolsa, Dólar e Juros nesta sextaÍndices futuros dos EUA sobem com otimismo com IA e queda no petróleoA participação dos investidores estrangeiros no volume negociado da Bolsa também segue elevada. Segundo dados da B3 compilados pelo banco, os estrangeiros responderam por aproximadamente 63% do ADTV (volume médio diário negociado), acima dos níveis observados há cinco e dez anos.O que olhar agoraNa visão do JPMorgan, o fluxo recorde pós-eleição mostra que investidores estrangeiros reagiram rapidamente à mudança de percepção sobre o Brasil. Mas a continuidade desse movimento dependerá de fatores mais concretos.O banco cita como gatilhos para novos ingressos a evolução das pesquisas eleitorais, o resultado do segundo turno, a definição da equipe econômica, a agenda fiscal e, principalmente, a capacidade de implementação das medidas propostas.The post JPMorgan: fluxo “gringo” recorde abriu rali na B3 – investidor local é próxima aposta appeared first on InfoMoney.
