Os mercados de títulos estão começando a fazer parte do trabalho dos bancos centrais ao redor do mundo ao elevar, por conta própria, os custos de financiamento, reduzindo potencialmente o número de altas nas taxas básicas de juros necessárias para controlar a inflação.Os rendimentos dos títulos dispararam para máximas de vários anos após semanas de vendas, apertando as condições financeiras mesmo sem novas ações dos formuladores de política monetária. Os investidores responderam reduzindo suas expectativas de altas de juros, com o volume de aperto monetário precificado nos swaps de oito grandes economias recuando quase 200 pontos-base desde meados de setembro, segundo dados compilados pela Bloomberg.Há poucos sinais de que a liquidação dos títulos esteja perdendo força, à medida que preocupações com gastos fiscais dos Estados Unidos, Japão e França levam investidores a exigir maiores retornos, enquanto uma enxurrada de emissões de dívida relacionadas à inteligência artificial absorve capital.Os custos mais altos de financiamento estão se espalhando para hipotecas e crédito de maior risco, produzindo parte da desaceleração econômica que os bancos centrais normalmente tentariam obter por meio de juros mais altos.“Quanto mais aperto os mercados precificam, mais restritas ficam as condições financeiras”, disse Ken Orchard, chefe de renda fixa internacional da T. Rowe Price, que administra US$ 1,9 trilhão. “E quanto mais restritas ficam as condições financeiras, menos aperto os bancos centrais podem acabar precisando — ou conseguindo — entregar.”Leia tambémKiev reage a pedido de Trump por novo presidente e reforça ataques a ‘Google russo’O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, rebateu os comentários de Trump, escrevendo no X no final da noite de sábado que Zelenski estava liderando o País em uma guerra por sua independênciaAtualmente, os investidores precificam um total combinado de 539 pontos-base de alta de juros nas oito economias analisadas, abaixo dos 717 pontos-base registrados em setembro, quando as expectativas atingiram o maior nível desde 2022, segundo dados compilados pela Bloomberg. O maior recuo ocorreu na Austrália, seguida pela zona do euro em meio às preocupações com a situação fiscal da França, além de Coreia do Sul e Canadá.O rendimento médio dos títulos soberanos globais superou 4%, atingindo o maior nível desde 2000, levantando a questão sobre onde está o ponto de inflexão. Rendimentos mais elevados podem fazer parte do trabalho dos bancos centrais, mas, se os formuladores de política parecerem excessivamente focados em apoiar o crescimento econômico, investidores podem questionar seu compromisso com o combate à inflação e exigir um prêmio ainda maior para carregar títulos de prazo mais longo.“Os bancos centrais terão de equilibrar, em última instância, o mandato de crescimento com os riscos inflacionários de curto prazo”, afirmou Yuxuan Tang, chefe de estratégia de juros e câmbio para a Ásia do JPMorgan Private Bank. “Acreditamos que a maioria dos mercados de juros está superestimando o risco de novas altas, considerando os crescentes riscos baixistas para o crescimento decorrentes dos efeitos da guerra.”Para os investidores, isso pode tornar os títulos novamente atraentes. Tang afirma que a renda fixa de alta qualidade continua sendo uma das melhores proteções contra inflação e desaceleração econômica, acrescentando que a forte alta dos rendimentos no último mês melhorou significativamente a relação entre risco e retorno.O Deutsche Bank também passou a enxergar oportunidades nos Treasuries americanos.“Nossa visão é que, pelo menos do ponto de vista energético, essa situação não será permanente”, disse Christian Nolting, diretor global de investimentos da área de private banking do banco, sediado em Frankfurt. “A situação energética vai melhorar e a inflação está caindo. Sob essa perspectiva, não acredito que estejamos em um ciclo completo de aperto monetário.”Estratégistas do Barclays afirmam que os mercados já aliviaram parte da pressão sobre o Federal Reserve.“Parte do aperto ocorreu independentemente das expectativas de novas altas do Fed”, escreveram. “Mantidas as demais condições, isso deveria reduzir a urgência de o Fed elevar os juros, ainda que a estrutura de gerenciamento de riscos mantenha um viés favorável a mais aperto.”Nem todos estão convencidos. Alguns argumentam que os mercados ainda subestimam o risco de novas altas, já que a guerra continua alimentando pressões inflacionárias por meio dos preços elevados do petróleo. O barril permanece acima de US$ 100, enquanto investidores avaliam a escalada dos ataques iranianos a navios-tanque no Estreito de Hormuz e as declarações do presidente Donald Trump de que os EUA “não atacarão” Teerã antes das eleições legislativas de novembro.O que dizem os estrategistas da Bloomberg“A atividade econômica real absorveu repetidos episódios de incerteza e de aperto das condições financeiras melhor do que o esperado, reforçando a percepção de que a taxa de juros neutra é mais alta do que se imaginava anteriormente.”— Michael Ball, estrategista macro.Mesmo que os danos ao crescimento se tornem mais evidentes e os bancos centrais interrompam as altas de juros, as preocupações fiscais podem limitar a queda dos rendimentos de longo prazo, segundo Kenneth Goh, diretor de gestão patrimonial do UOB Kay Hian, em Singapura.O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tentou tranquilizar investidores céticos ao afirmar que um crescimento mais forte e contenção de gastos melhorarão “muito rapidamente” a trajetória da dívida americana. No Japão, a primeira-ministra Sanae Takaichi disse que seu governo está preparado para revisar planos de gastos e receitas caso os rendimentos dos títulos subam de forma inesperada.Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos dos EUA avançaram mais de 70 pontos-base desde o início do segundo semestre. No Japão, os rendimentos equivalentes subiram 31 pontos-base, enquanto na Alemanha e na França avançaram 61 e 121 pontos-base, respectivamente.Por enquanto, os bancos centrais sinalizam que continuam preparados para agir. Autoridades do Federal Reserve votaram unanimemente no mês passado por elevar a taxa básica de juros pela primeira vez desde julho de 2023, embora alguns dirigentes tenham defendido maior flexibilidade, sugerindo que talvez não haja nova alta ainda neste mês.A Índia também adotou um tom mais duro, com o banco central elevando os juros pela primeira vez em quase quatro anos e indicando novos aumentos à frente.Esse cenário servirá de pano de fundo para as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI), que começam nesta segunda-feira em Bangcoc. Autoridades de todo o mundo discutirão crescimento, inflação, juros e dívida pública. Além disso, a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos referente a setembro, na quarta-feira, será acompanhada de perto em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária do Fed.© 2026 Bloomberg L.P.The post Disparada dos títulos muda apostas para juros em grandes economias appeared first on InfoMoney.
