Sou neurocientista especializado em sono e passei a última década orientando equipes de liderança sobre sono e desempenho. Neste artigo, com base em uma nova pesquisa que realizei e na minha experiência na área, vou analisar o que realmente afeta o sono dentro das organizações, quais comportamentos os líderes precisam cultivar nos outros e em si mesmos e como uma avaliação de recuperação que desenvolvi pode ajudá-lo a analisar a si próprio e à sua equipe.O que os líderes esperamEm três estudos separados, o professor de comportamento organizacional Christopher Barnes, que pesquisa como o sono afeta o trabalho, e seus colegas perguntaram a funcionários até que ponto seus gestores tratavam o sono como algo que deveria ser sacrificado pelo trabalho. Isso incluía se vangloriar de dormir pouco, enviar mensagens em horários em que a maioria das pessoas está dormindo ou recompensar quem responde e-mails às três da manhã. Barnes e seus colegas descobriram que, quanto mais os gestores agiam dessa forma, pior seus funcionários dormiam. E o impacto não ficava apenas no quarto: os funcionários que dormiam pior sob essas lideranças tinham mais probabilidade de adotar comportamentos antiéticos no trabalho no dia seguinte.Se as expectativas estabelecidas por um líder podem tirar o sono das pessoas, então mudar essas expectativas deveria ajudar a recuperá-lo. Uma evidência disso vem do meio militar. Em um estudo randomizado realizado com 39 pelotões do Exército dos Estados Unidos, equipes de liderança receberam apenas uma hora de treinamento sobre o que os pesquisadores chamaram de “liderança do sono”: tratar o sono da equipe como parte de suas responsabilidades, incentivar horas extras de descanso antes de dias mais exigentes e dar o exemplo ao ir dormir em horário adequado. Os subordinados não foram informados de que participavam do estudo. Um mês depois, eles tinham mais que o dobro de chances de dormir mais de sete horas por noite em comparação com soldados cujos líderes não receberam o treinamento.Quando líderes mudam as condições ao redor do trabalho, o sono pode melhorar sem sequer ser mencionado diretamente. Afinal, o sono é um comportamento que também pode ser liderado.O que você permite e o que você valorizaO que exatamente esses líderes mudaram? Não os hábitos dos funcionários, mas as condições ao redor deles. Os resultados da minha pesquisa destacam duas dessas condições: o que é permitido e o que é valorizado.Leia também“Flávio é virtual presidente”, diz cientista; veja os números por trás da análiseCientista político aponta dificuldade de Lula para conquistar votos de candidatos eliminados e diz que monitoramento da Real Time Big Data mostra pouca migração entre os dois adversáriosTesla apresenta “carro voador” Roadster e espera reacender entusiasmo pela marcaO veículo elétrico realizou uma série de acrobacias aéreas para uma plateia de espectadores e para Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX, que descreveu a façanha como “algo que você nunca viu em nenhum filme”O que é permitidoPerguntei aos líderes se suas organizações permitiam que eles priorizassem uma quantidade adequada de sono. Entre os que responderam que não, 51% afirmaram dormir menos do que precisavam em quatro ou mais noites por semana. Entre aqueles que responderam que sim, esse percentual foi de apenas 35%. A diferença está menos nas políticas formais e mais nos comportamentos da liderança. Trata-se de saber se uma reunião às 7h pode ser negociada, se um e-mail enviado à noite exige resposta antes da manhã seguinte ou se pegar um voo de madrugada e fazer uma apresentação às 9h é considerado algo normal.O que é valorizadoSeis em cada dez líderes, em diferentes setores e tamanhos de empresas, afirmam que, em suas organizações, dormir pouco é visto como sinal de comprometimento, uma espécie de medalha de honra. Nessas empresas, 94% dos líderes disseram ter escondido o cansaço pelo menos uma vez no último mês, contra 57% nos demais ambientes. Curiosamente, esses líderes não dormem menos do que os outros. Em vez de produzir o sacrifício do sono, essa cultura produz a performance do sacrifício.Se uma cultura corporativa glorifica dormir pouco, por que alguém esconderia o próprio cansaço? Porque a valorização e a ocultação dizem respeito a coisas diferentes. A valorização está ligada ao esforço aparente: as horas trabalhadas até tarde da noite, exibidas aos colegas. O que é escondido é o preço pago por isso: a lentidão mental, a irritação, a dificuldade de concentração. Dizer “fiquei acordado até as duas da manhã” transmite comprometimento e costuma gerar reconhecimento.Em uma série de estudos de 2024, Barnes e seus colegas descobriram que pessoas que falavam sobre a falta de sono para causar boa impressão eram recompensadas com maior status pelos colegas. Os motivos variavam por gênero: homens pareciam mais fortes, enquanto mulheres eram vistas como mais abnegadas. No entanto, as mulheres só recebiam esse benefício quando suas contribuições para a equipe já eram claramente reconhecidas. Enquanto se vangloriar da privação de sono pode funcionar a seu favor, admitir às 10h da manhã que você está exausto é interpretado como prova de que não consegue lidar com a situação. Organizações com esse tipo de cultura acabam exigindo duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo: exiba o sacrifício, mas esconda o custo.Permitir e valorizar são dois aspectos diferentes da cultura organizacional, e não é possível resolver um por meio do outro. O que você permite determina quanto seus líderes dormem. O que você valoriza determina se eles vão admitir quando estiverem privados de sono. Mude apenas o primeiro aspecto e terá líderes mais descansados que continuarão escondendo o cansaço. Mude apenas o segundo e terá líderes honestos que continuarão dormindo pouco.A avaliação de recuperaçãoO primeiro passo para uma liderança mais saudável em relação ao sono é descobrir o que você está escondendo de si mesmo e o que sua equipe está escondendo de você. Recomendo uma “avaliação de recuperação” que faz isso de três maneiras.Avalie a si mesmoComece com três perguntas sobre seu próprio sono: em uma semana típica do último mês, em quantas noites você sentiu que não dormiu o suficiente? Quantas horas de sono você precisa para se sentir totalmente descansado e quantas costuma dormir em uma noite comum de semana? Quantas vezes você escondeu o quanto estava cansado no último mês?Depois siga para outras três perguntas, que tratam da cultura que você estabelece, muitas vezes sem perceber: quantas das reuniões muito cedo ou dos e-mails enviados tarde da noite pela sua equipe partiram de você na última semana? E quando foi a última vez que você mencionou uma noite mal dormida como prova de esforço ou elogiou alguém por responder mensagens de madrugada?Suas respostas têm peso duplo: afetam você e também sua equipe, que usa seus comportamentos como referência para entender o que é permitido e valorizado.Leia o ambienteDepois de avaliar a si mesmo, observe sua equipe. Mesmo que as pessoas tentem aparentar disposição, elas não conseguem esconder todos os sinais de privação de sono.No campo do pensamento, observe erros em tarefas rotineiras, perda de raciocínio, dificuldade para lembrar nomes ou para chegar ao ponto principal de uma conversa. No humor, fique atento à irritabilidade, à falta de entusiasmo diante de boas notícias, à baixa tolerância a novas demandas ou a um silêncio fora do comum. No corpo, procure sinais como desejo constante de cafeína, inquietação durante reuniões ou cochilos involuntários sempre que a pessoa consegue ficar parada.O importante é identificar padrões: vários sinais, em mais de uma dessas áreas, que persistem ao longo do tempo. Ainda assim, isso não constitui um diagnóstico. É apenas um motivo para iniciar uma conversa. Se preferir não abordar o tema do sono diretamente, comece perguntando sobre o nível de energia da pessoa.Faça uma pesquisa com sua equipeVocê também pode ouvir sua equipe diretamente, de forma anônima, usando perguntas semelhantes às da minha pesquisa sobre noites mal dormidas, exaustão ao fim do dia, cansaço escondido, percepção de que dormir pouco é sinal de comprometimento e se a empresa permite que o sono seja uma prioridade.As respostas mostrarão se as pessoas estão descansando o suficiente, se confiam em você a ponto de admitir quando não estão e como percebem aquilo que você permite e valoriza.The post Por que líderes estão prejudicando o sono das equipes sem perceber appeared first on InfoMoney.
