Impostos, monopólio e contrabando: como os Houthis financiam sua máquina de guerra?

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O devastador ataque dos Houthis contra o aeroporto internacional de Riad, na Arábia Saudita, foi considerado por muitos especialistas como o ponto mais alto da nova escalada da guerra civil no Iêmen, que já dura mais de 10 anos. Uma dúvida frequente é: como esses insurgente iemenitas conseguem financiar sua máquina de guerra? Embora a milícia armada fruto de um ramo do islamismo xiita seja há anos apoiada pelo regime do Irã, a resposta é que o grupo conseguiu montar uma potente rede econômica atrelada à sua liderança política e militar na região.Um estudo recente do think tank Mokha Center for Strategic Studies mostra que essa rede é baseada no controle do comércio, na monopolização de setores estratégicos, na captura de recursos financeiros e na transformação do setor privado em uma das fontes mais importantes de financiamento da guerra. Isso aconteceu especialmente após o golpe de setembro de 2014, quando os Houthis tomaram a capital Sanaa com a ajuda do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, exigindo uma repartição do poder.Leia mais: Reino Unido amplia apoio militar à Arábia Saudita contra os houthisLeia Mais: EUA ordenam saída de diplomatas e familiares da Arábia Saudita após ataquesO Mokha Center lembra que, antes da guerra, a economia do Iêmen dependia fortemente das receitas de petróleo e gás, que representavam entre 25% e 30% do PIB, mais de 90% das exportações de commodities e entre 60% e 75% das receitas públicas. O PIB era de cerca de US$ 43 bilhões em 2014.Apesar desses números, a economia local sofria com diversificação limitada, com forte dependência de importações e a população sofrendo com altas taxas de pobreza e desemprego.Os gastos públicos permaneceram em grande parte conduzidos pelo Estado, enquanto um número limitado de casas comerciais tradicionais dominava as importações, a distribuição e os serviços financeiros. E a atividade econômica estava concentrada principalmente em Sanaa, Aden, Taiz e Hodeidah, enquanto a agricultura permanecia a principal fonte de renda para grande parte da população.As oportunidades econômicas e os privilégios comerciais já estavam na época intimamente ligados a redes de interesses e relações políticas. Como resultado, o Iêmen entrou na guerra civil com uma economia frágil, altamente dependente do petróleo e extremamente vulnerável à fragmentação – algo que se comprovou quando as instituições estatais foram desmanteladas e o conflito eclodiu.Leia mais: Houthis do Iêmen estão aprendendo a se armar por conta própriaGuerra agrava condiçõesO golpe Houthi em setembro de 2014, seguido pelo início da guerra civil em 2015, levou a economia do Iêmen a um período de grave contração. Grande parte da produção de petróleo foi interrompida, as exportações foram prejudicadas e o Estado perdeu sua principal fonte de moeda estrangeira, bem como mais de 60% de sua receita pública.Isso coincidiu com a divisão do Banco Central em 2016 e o ​​surgimento de duas autoridades monetárias operando sob diferentes políticas fiscais e monetárias, uma controlada pelo Houthis iemenitas e outra pelo regime reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita.Assim, a eficiência do sistema bancário diminuiu, o custo do comércio e do transporte aumentaram, taxas e impostos se multiplicaram e o mercado nacional fragmentou-se em mercados separados, governados por diferentes autoridades e procedimentos.Foi nesse vácuo financeiro que os Houthis aproveitaram a oportunidade de construir fontes alternativas de receita após o declínio da renda do petróleo. O estudo mostra que o grupo impôs impostos, taxas, contribuições, doações zakat e contribuições obrigatórias a empresas e comerciantes.Ao mesmo tempo, apertou o controle sobre importações, combustíveis, transporte marítimo e câmbio. Os mercados, portanto, tornaram-se o recurso financeiro mais estável dentro das áreas sob seu controle.Desde então, empresas e comerciantes ficaram sob crescente pressão financeira, enfrentando custos que se estendem da emissão de licenças e registros comerciais a importações, transporte, distribuição e serviços. Ao mesmo tempo, empresas ligadas ao grupo ou a figuras próximas a ele recebem privilégios e contratos que fortaleceram sua presença nos setores mais lucrativos.Por meio desse mecanismo, parte da receita soberana perdida foi substituída por fundos arrecadados do setor privado. Uma parte desses recursos foi direcionada para o financiamento de gastos militares e de segurança e para atender às necessidades da economia de guerra.Veja alguns detalhes dessa rede econômica meticulosamente organizada para financiar tropas, armas e munições dos Houthis.Setor PrivadoOs dados de registro comercial analisados pelo Mokha Center mostram que, desde 2014/2015, o setor privado passou de um ambiente de mercado competitivo para uma economia regida por privilégios e lealdades. Quem se submete à política de impostos, taxas, zakat e contribuições consegue agilidade em registros e licenças comerciais, além de autorização para importações, transporte marítimo, câmbio e comércio de combustíveis. Enquanto isso, os comerciantes independentes enfrentam restrições e encargos financeiros crescentes.“Por meio desses mecanismos, o grupo ampliou suas receitas, aumentou sua capacidade de controlar comerciantes e empresas, e direcionou uma parcela crescente dos recursos do setor privado para a economia de guerra”, diz o estudo.Uma análise de quase 68.000 registros e licenças comerciais emitidos em áreas sob controle Houthi entre 2014 e 2025 revelou que o registro de empresas expandiu-se, de forma mais acentuada, nos setores de maior lucratividade — incluindo comércio geral e importações, gêneros alimentícios, transporte de cargas, câmbio, energia e produtos farmacêuticos.Contribuições excepcionais e taxas recorrentes também drenaram parte dos lucros de empresas e comerciantes. As receitas alfandegárias e tributárias aproximaram-se de 700 bilhões de riais iemenitas (YER) – o equivalente a cerca de R$ 15 bilhões — , enquanto as receitas da Autoridade do Zakat ultrapassaram 400 bilhões de YER anualmente.O total de receitas arrecadadas em áreas sob controle do grupo atingiu cerca de 2,2 trilhões de YER (cerca de R$ 45 bilhões) em 2023.Redes de influência e monopóliosOs anos de guerra mudaram as prioridades da atividade econômica nas áreas controladas pelos Houthis. Durante o período, a presença de muitas atividades ligadas à produção e ao investimento de longo prazo diminuiu, enquanto setores relacionados ao comércio, importações, câmbio, energia e transporte marítimo expandiram-se.Novas empresas, ligadas ao grupo ou a figuras próximas a ele, voltaram-se para os setores que geravam receitas mais rapidamente, como comércio, importações, energia, câmbio e transporte marítimo. Foram esses os setores que forneceram ao grupo recursos financeiros contínuos.Como consequência, partes significativas da atividade econômica passaram a estar vinculadas à economia de guerra, na qual os interesses comerciais se sobrepõem, cada vez mais, a questões de influência e controle, de uma maneira sem precedentes.ConcentraçãoA fotografia dos novos registros comerciais revela uma tendência clara de concentração da atividade comercial em um número limitado de províncias sob controle Houthi, sendo que o período de crescimento variou de uma província para outra ao longo dos anos de guerra.Há uma concentração evidente de registros no município da Capital, que respondeu por 27% de todos os novos registros. Em seguida, aparecem a província de Sanaa, com 16%, e as províncias de Hodeidah e Ibb, com 12% e 11%, respectivamente.Essa concentração resultou do deslocamento de capital e de atividades comerciais para províncias onde o grupo intensificou seu controle sobre instituições geradoras de receita e grandes mercados.Entre 2020 e 2022, o grupo consolidou seu domínio sobre os mercados, ampliou seus mecanismos de arrecadação financeira e impôs restrições adicionais aos comerciantes independentes. Paralelamente, empresários leais e companhias vinculadas ao grupo receberam privilégios que facilitaram sua expansão.O crescimento observado posteriormente em Saada, no período entre 2023 e 2025, também merece destaque, diz o estudo. Ele indica o deslocamento de parte da atividade comercial para o principal reduto do grupo — local onde se concentram redes de influência e a tomada de decisões econômicas, e onde os recursos financeiros estão mais diretamente ligados ao financiamento de atividades militares e de segurança.Comércio exteriorCom o controle cada vez maior sobre as atividade de maior fluxo financeiro, cada mercadoria importada precisava passou a enfrentar por uma longa cadeia de cobranças antes de chegar ao mercado.O grupo mantém o controle — direto ou indireto — sobre as operações que regem as importações, o transporte e as transferências financeiras. Isso confere uma vantagem clara às empresas ligadas ao grupo e a empresários a ele leais, ampliando a influência de monopolistas nos mercados.Paralelamente, os comerciantes independentes enfrentaram encargos financeiros crescentes, o que debilitou sua capacidade de competir.Os recursos financeiros obtidos por meio dessas atividades aumentaram ano após ano, transformando-se em uma fonte constante que alimentava a economia de guerra, financiava gastos militares e de segurança, e assegurava a manutenção das redes de influência que o grupo havia estabelecido no setor privado.”Monopólio do petróleo e da energiaDesde os primeiros anos da guerra, o grupo Houthi reconheceu que o setor de petróleo e energia representava uma das maiores fontes de fluxo de caixa nas áreas sob seu controle. Por isso, agiu rapidamente para reforçar seu domínio sobre a importação de derivados de petróleo, sua distribuição e as respectivas redes de transporte e armazenamento, diz o estudo.“O grupo concedeu privilégios a empresas e empresários leais a ele ou vinculados à sua liderança, seja diretamente ou por meio de intermediários. O comércio de combustíveis tornou-se uma fonte constante de taxas, tributos e lucros, proporcionando uma liquidez significativa que foi utilizada para cobrir despesas militares e de segurança, além de fortalecer a economia de guerra”, detalha o Mokha Center.O comércio de derivados de petróleo adquiriu uma importância excepcional, pois gera fluxos de caixa diários difíceis de comparar com os de outros setores comerciais. Cada remessa de combustível que passa por portos ou pontos de distribuição gera taxas, tributos e lucros adicionais. Esses recursos são, então, canalizados para as redes de financiamento das quais o grupo depende para cobrir os custos de seus combatentes, financiar seu aparato de segurança e suprir suas necessidades logísticas.“O controle sobre o mercado de combustíveis tornou-se, portanto, tanto um meio de dominar o mercado mais amplo quanto uma forma de garantir o fluxo contínuo de recursos, mesmo em períodos de queda nas receitas públicas.”Controle cambialO estudo também conta que os Houthis reconheceram, desde cedo, que o controle sobre a movimentação de dinheiro era tão importante quanto o controle sobre os mercados. Por isso, buscaram expandir sua influência no setor de câmbio e transferência de valores, aproveitando-se da perda de relevância dos bancos comerciais e da desarticulação de grande parte do sistema bancário.“As empresas de câmbio tornaram-se um canal fundamental para a movimentação de recursos, a liquidação de pagamentos comerciais, o financiamento de operações de importação e o fornecimento de liquidez a comerciantes e empresas vinculados ao grupo. Essas redes permitiram a transferência de dinheiro dentro e fora do Iêmen, contornando as restrições enfrentadas pelo setor bancário tradicional.”Relatórios internacionais vinculam várias das empresas de câmbio e transferência de valores listadas na tabela a líderes Houthi ou a redes financeiras do grupo. Suas atividades vão além da prestação de serviços financeiros tradicionais, abrangendo a gestão de parte dos fluxos de caixa dos quais o grupo tem dependido durante os anos de guerra.Essas empresas processam transferências de comerciantes, liquidavam pagamentos de importações, forneciam liquidez a empresas ligadas ao grupo e realizavam os pagamentos necessários para a aquisição de combustível, mercadorias e serviços logísticos. Em contrapartida, cobravam comissões e taxas que se tornaram uma fonte adicional de receita.Esses canais financeiros também servem como um meio de contornar restrições a transferências bancárias, mantendo o fluxo de recursos necessário para operações de contrabando externo e para a aquisição de suprimentos militares.Por meio desse mecanismo, o setor cambial tornou-se um dos principais pilares da economia de guerra. Ele fornece os recursos necessários para financiar atividades militares e de segurança, e tem ajudado a sustentar as redes de influência econômica que o grupo construiu durante a guerra.Transporte e contrabandoTambém é atribuída extrema importância ao setor de transporte e logística, uma vez que ele representa o elo entre fornecedores no exterior e os mercados sob o controle do grupo. Por meio de empresas de transporte, intermediários comerciais e agentes marítimos, os Houthis garantiram fluxo contínuo de combustível, mercadorias e equipamentos. Também estabeleceu rotas externas para obter materiais de duplo uso, que podem servir tanto para fins civis quanto militares.Esse setor também ofereceu serviços de transporte, intermediação, desembaraço aduaneiro e logística. Tais atividades geraram lucros e taxas que beneficiaram empresas ligadas ao grupo, ao mesmo tempo em que preservaram as linhas de suprimento de que ele necessitava ao longo dos anos de guerra.A rede se estende do Iêmen ao Irã, China, Malásia e Hong Kong e tem estado envolvida na compra, no transporte e no envio de materiais e tecnologias de duplo uso, incluindo semicondutores, componentes eletrônicos e equipamentos que podem ser utilizados tanto para aplicações civis quanto militares.Empresas e intermediários têm gerenciado compras, transporte, desembaraço aduaneiro e a liquidação de pagamentos com fornecedores fora do Iêmen. Eles também conectam o comércio exterior a redes de financiamento e transferência de recursos, garantindo a continuidade das operações de contrabando, apesar das restrições e sanções internacionais.Além de obter retornos financeiros para empresas ligadas ao grupo, essa rede assegurou linhas de suprimento estáveis ​​e acesso a componentes e tecnologias que sustentam os programas militares e garantem o fluxo contínuo de recursos necessários para a economia de guerra.Qual a conta final?Segundo o estudo impostos e taxas alfandegárias constituíram a maior fonte financeira, com um valor anual próximo a 480 bilhões de riais iemenitas (YER) – cerca de R$ 10,24 bilhões. Em seguida, aparecem diversas taxas e tributos, totalizando cerca de 360 ​​bilhões de YER (R$ 7,9 bilhões), enquanto as contribuições vinculadas ao esforço de guerra atingiram 180 bilhões de YER (R$ 3,8 bilhões).Dezenas de bilhões adicionais foram arrecadados por meio do patrocínio de variados eventos e atividades.A captação de recursos não parou por aí. Lembra o Mokha Center. Custos de transporte, tarifas de serviços, taxas adicionais e despesas relacionadas a importações acrescentaram cerca de 420 bilhões de YER (R$ 8,9 bilhões) aos encargos suportados pelo setor privado — montante que, em grande parte, acabou refletido nos preços de bens e serviços.As receitas por meio de impostos, tributos, zakat, taxas, contratos, privilégios e contribuições impostos a empresas e comerciantes gerou fluxos financeiros regulares superiores a 1,5 trilhão de YER por ano (R$ 32 bilhões).O think tank diz que a possibilidade de imposição de mecanismos de sanções, medidas de combate à lavagem de dinheiro e o rastreamento de fluxos financeiros, constituem ferramentas que poderiam ter intensificado a pressão sobre as redes de financiamento e os monopólios criados pelo grupo. E afira que tais medidas também poderiam ter elevado o custo econômico da continuidade dessas operações. Contudo, o emprego desses instrumentos permaneceu limitado e isso permitiu que tais redes se expandissem, consolidassem sua influência e renovassem seus recursos ano após anoThe post Impostos, monopólio e contrabando: como os Houthis financiam sua máquina de guerra? appeared first on InfoMoney.

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