O Ibovespa desabou nesta segunda-feira, com a B3 acionando o mecanismo de “circuit breaker” na abertura do pregão, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na véspera, que contrariou as expectativas do mercado e trouxe preocupações sobre o cenário fiscal do país.Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa despencou 13,88%, a 176.608,23 pontos, maior perda percentual desde março de 2020, período marcado pela pandemia de Covid. O “circuit breaker” suspendeu por 30 minutos a negociação de ativos à vista, renda fixa privada e opções referenciadas em ações, BDR, Ibovespa, Ibovespa B3 BR+, IBrX-50, Índice Small Cap e ETFs. No aviso, a B3 citou queda de 10%. O Ibovespa chegou a 169.516,43 pontos logo após a retomada dos negócios, queda de 17,34%.A última vez que a bolsa precisou acionar o mecanismo foi também em março de 2020, com o mercado reagindo negativamente a medidas relacionadas à pandemia da Covid-19. No mercado futuro, a B3 ampliou duas vezes o limite de queda do contrato do Ibovespa e dos mini, primeiro de 10% para 15% e depois de 15% para 20%.Leia tambémIbovespa Ao Vivo: Ibovespa desaba 15% após reeleição de Lula e circuit breakerB3 acionou mecanismo de circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, durante a pandemiaDe acordo com agentes financeiros, o mercado vinha se posicionando para uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição, principalmente após o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro liderar o primeiro turno. E investidores enxergavam uma mudança em Brasília como uma possibilidade de melhora das contas públicas do país.“Isso naturalmente gera um ajuste grande nos portfólios e, sem dúvida, uma preocupação principalmente com os próximos passos e a questão fiscal que precisa ser endereçada pelo Brasil”, afirmou o responsável pela mesa de ações e sócio do BTG Pactual, Jerson Zanlorenzi. “Hoje é um dia clássico de aversão a risco; os investidores preferem sair das posições, colocar recurso em caixa para aguardar um pouco mais os fatos e anúncios antes de se manterem posicionados.”Para os próximos pregões, Zanlorenzi avalia que o movimento provavelmente tende a suavizar com as posições já ajustadas e o mercado fazendo conta. “Mas hoje é um dia que realmente as coisas ficam mais irracionais e as posições têm mudanças abruptas.”Leia tambémMorgan Stanley vê dólar até R$ 5,60 e queda de 30% da Bolsa após reeleição de LulaOs estrategistas destacam que a principal preocupação passa a ser a trajetória das contas públicasDe acordo com a equipe de mercados emergentes do UBS Global Wealth Management, a forte valorização dos ativos brasileiros após o desfecho do primeiro turno foi baseada na expectativa de um governo mais favorável ao mercado e de uma consolidação fiscal rápida.“Uma vitória de Lula implica uma trajetória diferente”, afirmaram em relatório a clientes no final da noite da véspera, destacando que, com base nas informações disponíveis neste momento, ainda não veem um ajuste fiscal concreto suficiente para justificar a reprecificação dos ativos brasileiros observada desde o primeiro turno.“Assim, esperamos que ações, o real e os juros retornem para níveis próximos aos registrados antes da primeira rodada da eleição, embora seja possível haver um desempenho temporariamente ainda pior do que esses níveis.”A equipe do Citi também antecipou a recepção negativa, afirmando que o resultado foi contrário às expectativas dos investidores e reforça a assimetria de risco negativa. Mas destacou que a eleição registrou a menor taxa de abstenção desde a retomada das eleições presidenciais diretas no Brasil, em 1989, evidenciando forte engajamento do eleitorado e conferindo maior legitimidade ao resultado.Lula venceu Flávio por 51,79% a 48,21% dos votos válidos, uma diferença de 4,4 milhões de votos, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após uma eleição marcada por um adiamento de última hora no fechamento das urnas devido a problemas no deslocamento de eleitores, que levou o candidato derrotado a questionar o resultado.“O resultado contraria o cenário base e entrega a maior surpresa desta eleição com a vitória de Lula. O mercado não estava posicionado para este desfecho”, afirmou o head de multimercados do ASA, Felipe Balassiano.“Diferente dos cenários de vitória de Bolsonaro — onde quanto maior a vantagem, melhor andariam os ativos –, devemos passar por um ajuste severo de preços na abertura. Esperamos forte volatilidade, com pressão de queda na bolsa, depreciação do real e abertura das curvas de juros, até que o novo governo reforce o compromisso com a responsabilidade fiscal”, afirmou, em comentário enviado à imprensa após o anúncio do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).Luis Ferreira diretor de investimentos para as Américas do EFG, aponta que a reação desta segunda-feira refletiu mais um ajuste de posicionamento do que uma mudança estrutural de cenário. Segundo ele, o mercado vinha precificando desde meados de agosto uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, o que gerou rali em ativos locais e queda do dólar. Com a confirmação da reeleição de Lula, essa “aposta” tende a ser devolvida, com pressão no câmbio e abertura relevante nos juros futuros.Segundo Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, a reação dos ativos não surpreende, e sim o resultado da eleição do segundo turno. “Era sabido que se o Lula ganhasse, os mercados iam corrigir. O mercado estava com precificação forte, as chances de ele vencer eram pequenas”, diz.De acordo com Magno, o maior recente do mercado é como ficarão as contas públicas do Brasil a partir de 2027, em meio a aumentos de benefícios pelo governo. “Tudo isso gera um curto. O mercado olha para essa eleição e pensa: como vou confiar?.”Conforme Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, a percepção dos agentes é que o governo pode continuar com gastos altos, permanecendo com o crédito subsidiado, com políticas mais populistas e aumento da dívida em proporção do Produto Interno Bruto (PIB). “Então, a trajetória é de alta para os juros futuros.”(com Reuters e Estadão Conteúdo)The post Circuit breaker e maior baixa desde 2020: Ibovespa cai quase 14% após vitória de Lula appeared first on InfoMoney.
