Paraguai, Panamá, Uruguai e Argentina: o que atrai brasileiros para esses países?

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Ter uma segunda residência ou cidadania no exterior deixou de ser apenas um projeto de mudança de país ou uma forma de viajar com menos restrições. Para uma parcela de empresários, investidores e famílias de maior patrimônio, passou a integrar uma estratégia de diversificação de riscos, proteção de ativos e acesso a novos mercados. O movimento já aparece nas estatísticas migratórias da América Latina, especialmente no Paraguai, onde os brasileiros responderam por mais de três quartos das autorizações de residência concedidas só no primeiro semestre deste ano.Entre janeiro e junho de 2026, o Paraguai concedeu 29.765 residências a estrangeiros, aumento de 81% em relação ao mesmo período de 2025. Desse total, 22.628 foram destinadas a brasileiros, o equivalente a 76% das autorizações. Os dados são da Direção Nacional de Migrações do país e ajudam a dimensionar o interesse crescente por alternativas de residência na região.Esse movimento é um dos destaques do relatório The Next Decade of Mobility Planning: Jurisdiction as an Asset Class, divulgado pela consultoria internacional Global Citizen Solutions (GCS). O estudo indica que a escolha do país de residência, da cidadania e do domicílio dos negócios está ganhando espaço nas decisões de planejamento patrimonial, ao lado de investimentos tradicionais.Para a consultoria, a jurisdição é vista como uma nova classe de ativo. Apesar de uma autorização de residência não representar necessariamente um investimento negociável e nem garantir retorno financeiro. Diferentemente de ações, imóveis ou títulos, seu valor está nas possibilidades que oferece como acesso a mercados, alternativas de residência, diversificação geográfica e, dependendo da legislação, condições tributárias distintas.Segundo a GCS, a procura por serviços de planejamento de residência e cidadania entre seus clientes triplicou na última década e o Paraguai vem atraindo cada vez mais brasileiros, mesmo que a residência não signifique uma vantagem fiscal automática. Entretanto, a proximidade geográfica, a integração regional e as regras migratórias relativamente acessíveis ajudam a explicar a posição do Paraguai entre os destinos mais procurados por brasileiros.Leia também: Paraguai: entenda a crise que derrubou presidente do BC e colocou banco sob suspeitaSegundo a consultoria, o Acordo de Residência do Mercosul facilita a obtenção de autorizações migratórias por cidadãos de países participantes, sem exigir necessariamente os investimentos elevados associados a programas destinados a estrangeiros de outras regiões. Além disso, o Paraguai adota um sistema de tributação territorial, no qual a incidência do imposto sobre a renda está vinculada, em linhas gerais, à origem dos rendimentos.Para a Global Citizen Solutions, essa combinação torna o país uma alternativa atraente para empresários e investidores interessados em estabelecer uma segunda base de residência na América do Sul. Entretanto, a obtenção de uma autorização migratória não significa que o brasileiro passe automaticamente a pagar impostos no Paraguai ou deixe de ter obrigações tributárias no Brasil, como esclarece a consultoria. A residência fiscal depende de critérios próprios, que incluem a situação efetiva do contribuinte e o cumprimento das exigências legais de cada país. Quem continua residente fiscal no Brasil permanece sujeito às regras brasileiras de tributação, inclusive sobre rendimentos obtidos no exterior, conforme a legislação.América Latina oferece alternativasAlém do Paraguai, o estudo destaca Panamá, Uruguai e Argentina como destinos relevantes para estratégias de residência e mobilidade internacional. Na avaliação da Global Intelligence Unit, divisão de pesquisas da GCS, o Panamá ocupa a primeira posição entre 11 programas latino-americanos analisados, seguido pelo Paraguai. O levantamento considera características como custos, condições de acesso e vantagens oferecidas pelos programas.Uma das conclusões é que pagar mais caro não garante necessariamente uma alternativa superior. Segundo a consultoria, os valores de entrada dos programas analisados variam de US$ 48,2 mil a US$ 2 milhões, mas algumas das opções mais acessíveis aparecem entre as mais bem avaliadas.De acordo com a GCS, a comparação exige cautela, pois os programas possuem finalidades, requisitos e contrapartidas diferentes. Em alguns casos, o desembolso corresponde a um investimento que permanece no patrimônio do interessado. Em outros, pode envolver contribuições não reembolsáveis ou despesas que não serão recuperadas.O Uruguai é apontado pela consultoria como uma alternativa para quem prioriza estabilidade institucional e qualidade de vida. Já o Panamá se destaca, segundo o estudo, pela economia dolarizada e pelas regras tributárias. Já a Argentina aparece no radar em razão das iniciativas para criar uma rota de cidadania vinculada a investimentos.A eventual concessão de nacionalidade mediante aporte financeiro, contudo, depende das regras efetivamente implementadas, e anúncios de programas não devem ser confundidos com autorizações já disponíveis ao público.Para Patricia Casaburi, fundadora e CEO da Global Citizen Solutions, a principal mudança no comportamento dos clientes está na maneira de pensar a mobilidade internacional. “Há 10 anos, a pergunta que um cliente levava a um consultor de mobilidade global era mais simples e direta: qual passaporte é melhor, qual país é mais receptivo?”, afirma.Hoje, segundo ela, a preocupação envolve a combinação de diferentes jurisdições, seus efeitos sobre a residência fiscal, a sucessão patrimonial e a localização dos negócios. “A maior mudança é que as pessoas passaram a pensar na situação como um todo, incluindo os impactos na família, nos negócios, no patrimônio e no que se quer que aconteça no futuro”, diz.Na prática, isso significa que um empresário pode considerar uma residência em determinado país para facilitar operações comerciais, enquanto busca uma cidadania europeia por razões familiares ou de mobilidade.A estratégia, entretanto, não é isenta de riscos. Manter vínculos com diferentes países pode aumentar os custos de documentação, assessoria jurídica, declarações fiscais e cumprimento de obrigações regulatórias. Também exige atenção às regras de residência efetiva, à tributação de rendimentos e patrimônio e aos acordos internacionais aplicáveis.Além disso, uma segunda cidadania não elimina automaticamente as obrigações do indivíduo em seu país de origem, assim como uma autorização de residência não assegura, por si só, benefícios fiscais. Por isso, a ideia de diversificação jurisdicional precisa ser analisada com o mesmo rigor aplicado a qualquer decisão patrimonial relevante.Espanha e o caminho para cidadania europeiaO relatório destaca que os brasileiros possuem vantagens em determinadas rotas de naturalização, especialmente na Espanha. Pela legislação espanhola, cidadãos de países ibero-americanos podem solicitar a nacionalidade após dois anos de residência legal e continuada, enquanto o prazo geral exigido de estrangeiros de outras nacionalidades é de 10 anos. Isso não significa, porém, que o passaporte seja concedido automaticamente após dois anos. O interessado precisa cumprir os requisitos legais, apresentar a documentação exigida e aguardar a análise do pedido.A GCS estima que, considerando as etapas administrativas, o processo completo possa levar de três a quatro anos. A Espanha também permite, nas condições previstas em sua legislação, que brasileiros mantenham a nacionalidade de origem ao adquirir a espanhola.Leia Mais: Crise bancária vira problema para Peña após bloqueio de depósitos no ParaguaiOutro fator importante é que o Brasil deixou de prever a perda automática da nacionalidade brasileira pela simples aquisição voluntária de outra cidadania, após a Emenda Constitucional 131, de 2023.O caminho para conseguir residência na Espanha, entretanto, tornou-se mais restrito para investidores. O país encerrou em abril de 2025 o programa de Golden Visa, que permitia obter autorização de residência mediante determinados investimentos.Com isso, alternativas como o visto de residência não lucrativa passaram a ganhar relevância para pessoas que dispõem de recursos suficientes para viver no país sem exercer atividade profissional local.Por outro lado, Portugal, que tradicionalmente era um dos destinos preferidos dos brasileiros, também aparece no estudo como alternativa para quem pretende construir uma segunda base na Europa. Mas as regras ficaram mais exigentes. A legislação portuguesa que entrou em vigor em maio de 2026 passou a estabelecer, para novos pedidos de naturalização por residência, um prazo geral de sete anos para cidadãos de países de língua portuguesa, como o Brasil, e de 10 anos para outras nacionalidades.No caso português, a proximidade cultural, a língua e os vínculos históricos continuam sendo atrativos para brasileiros, mas a escolha exige considerar o tempo necessário para obter a nacionalidade, as exigências migratórias e o custo de vida. Para quem possui ascendência europeia, também podem existir possibilidades de reconhecimento de cidadania por descendência, conforme as regras de cada país.TendênciasO relatório da GCS identifica cinco tendências para a próxima década: consolidação dos programas de residência e cidadania, valorização de alternativas consideradas mais duradouras, diversificação entre países, maior rigor nas exigências de conformidade e integração dessas decisões ao planejamento patrimonial.A consultoria estima que cerca de 80 países possuam programas de residência ou cidadania previstos em lei, embora nem todos estejam ativos ou disponíveis nas mesmas condições. O endurecimento das regras em alguns destinos mostra que a oferta desses programas está sujeita a pressões políticas, econômicas e sociais.A recomendação central do estudo é definir primeiro o objetivo e só depois escolher o país. Para uma família, a prioridade pode ser facilitar o acesso dos filhos à educação no exterior. Para um empresário, abrir novos mercados. Para um investidor, diversificar a exposição geográfica do patrimônio. São objetivos diferentes, que podem exigir soluções igualmente distintas.The post Paraguai, Panamá, Uruguai e Argentina: o que atrai brasileiros para esses países? appeared first on InfoMoney.

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