Aliados de Trump na Otan resistem à guerra no Irã e ampliam desgaste com os EUA

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Os aliados de Donald Trump na Otan vêm aumentando a resistência em se envolver na guerra do presidente americano contra o Irã, elevando o risco de um racha ainda maior em um bloco militar que já está sob forte tensão.Na segunda-feira, a Espanha fechou seu espaço aéreo para jatos dos EUA, e a Itália negou a aeronaves militares americanas, com destino ao Oriente Médio, permissão para pousar em uma base na Sicília, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto. A Polônia afirmou que não tem planos de realocar suas baterias Patriot, após reportagem indicar que os americanos sugeriram a Varsóvia considerar o envio de um dos sistemas para reforçar a defesa aérea no Oriente Médio.Leia tambémPetróleo brent se aproxima dos US$ 120 e caminha para alta recorde em marçoOs preços do brent dispararam na terça-feira, após o Irã atingir um petroleiro kuwaitiano com um ataque de drone, mas os ganhos posteriormente arrefeceramIrã incendeia petroleiro gigante perto de Dubai após advertências de TrumpO ataque foi o mais recente contra navios mercantes no estreito, uma hidrovia vital, desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiroNa terça-feira, o presidente dos EUA reclamou nas redes sociais da recusa da França em permitir que aviões com suprimentos militares usassem seu espaço aéreo. “Os EUA vão LEMBRAR”, escreveu Trump.Desde que Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro, líderes europeus vêm tentando caminhar em uma linha muito estreita. Eles querem evitar antagonizar o comandante em chefe americano e, ao mesmo tempo, impedir que ele prejudique o esforço de guerra da Ucrânia contra a Rússia. Depois de inicialmente rejeitarem o pedido de Trump por ajuda para garantir a passagem pelo Estreito de Ormuz, os europeus acabaram se alinhando em torno de uma proposta de formar uma coalizão para garantir a liberdade de navegação na rota estratégica, mas só depois do fim dos combates mais intensos.A mudança, porém, veio tarde demais para evitar a fúria de Trump. Segundo a Bloomberg, o secretário de Estado, Marco Rubio, adotou um tom mais brando a portas fechadas em uma reunião do G7 na semana passada, na França, sem fazer exigências concretas e apoiando a iniciativa europeia. Ainda assim, na segunda-feira ele afirmou que os EUA talvez precisem reavaliar sua relação com a Otan após a guerra do Irã e classificou a reação da aliança militar à ação americana como “muito decepcionante”, criticando parceiros do Tratado do Atlântico Norte por negarem acesso a bases militares.Embora os Estados Unidos tenham iniciado a guerra no Irã com pouco ou nenhum aviso aos aliados, sua ofensiva depende fortemente de infraestrutura em solo europeu — bases, portos e espaço aéreo. Só que os países da região não estão dispostos a entrar diretamente no conflito, nem têm espaço político interno para oferecer a Trump o grau de apoio que ele cobra.O fechamento de grandes faixas do espaço aéreo do sul da Europa significa que bombardeiros que decolam do Reino Unido teriam de fazer rotas bem mais longas até o Golfo Pérsico. Isso aumenta o tempo de voo, o desgaste das tripulações e o consumo de combustível, que depende de aviões-tanque. Os EUA já tiveram um acidente com uma dessas aeronaves no início da guerra, quando um KC-135 caiu no Iraque, matando os seis tripulantes.A Europa também tem muito em jogo no Estreito de Ormuz, vital para o fluxo de energia global, que o Irã fechou sob ameaças de retaliação após ser atacado pelos EUA e por Israel. A passagem, crucial para o transporte de petróleo e gás, está na prática bloqueada desde o fim de fevereiro, o que fez disparar os preços desses combustíveis.O conflito é amplamente impopular no continente, que já sofre com uma disparada da inflação ligada à guerra. Governos europeus vêm tentando se afastar politicamente do conflito, enfatizando que qualquer participação militar até agora é estritamente defensiva.“Estamos vendo evidências de confusão e tensão entre a opinião pública e a opinião política em muitos países da Otan”, disse Ian Lesser, pesquisador sênior do GMF. “Por padrão, existe na Europa uma tendência de cooperar com os EUA em termos militares, mas a guerra atual está colocando essas relações de defesa, construídas ao longo de décadas, sob grande pressão.”Segundo ele, as novas tensões adicionam mais uma camada de desconfiança e imprevisibilidade a uma relação transatlântica já desgastada. “Mesmo entre os aliados mais inclinados a ajudar, há preocupação sobre o que a Europa realmente ganha ao adotar uma postura mais colaborativa — e qual seria o custo de se opor”, afirmou.Um dos principais alvos da irritação americana tem sido a Espanha, que fechou seu espaço aéreo a voos dos EUA ligados às operações no Irã e bloqueou o uso de bases americanas em seu território. O primeiro-ministro Pedro Sánchez é um dos críticos mais duros de Trump na Europa, acusando o presidente dos EUA de iniciar uma guerra “ilegal”.O premiê britânico, Keir Starmer, também foi duramente atacado por Trump após inicialmente rejeitar o pedido do presidente para usar bases militares no Reino Unido em apoio aos ataques contra o Irã. O governo britânico, porém, recuou parcialmente e passou a permitir o uso de bases para “ações defensivas limitadas”.Em linha semelhante, Portugal adotou uma posição cautelosa em relação ao uso da Base Aérea das Lajes, nos Açores, pelos Estados Unidos. O governo concede acesso com base em acordos bilaterais e nos compromissos da Otan, mas faz questão de frisar que o país não é parte do conflito. Lisboa restringiu a autorização a apoio logístico — como reabastecimento e trânsito —, e não a operações ofensivas, apresentando a decisão como compatível com a legislação interna e com suas obrigações internacionais.O ministro das Relações Exteriores, Paulo Rangel, disse que qualquer autorização se limita a operações defensivas e proporcionais contra alvos militares, insistiu que Portugal “não estará nesse conflito” e esclareceu que nenhuma missão de ataque foi lançada a partir dos Açores.No caso da Itália, a proibição ao uso das bases na Sicília não é permanente, e as relações com os EUA seguem boas, segundo uma pessoa a par das discussões. A negativa teria ocorrido porque os aviões já estavam em voo quando veio o pedido para uso em missão de combate, o que não deixou tempo hábil para o governo discutir o tema no Parlamento.“Não registramos qualquer atrito ou problema com nossos parceiros internacionais”, disse o governo italiano em comunicado. “As relações com os EUA, em particular, são sólidas e fundamentais para uma colaboração plena e leal.”Na direção oposta, a Romênia permitiu que os Estados Unidos usassem sua base local para fins logísticos.“Cada país que entrou na Otan fez isso voluntariamente; ninguém nos obrigou”, disse o primeiro-ministro romeno, Ilie Bolojan, ao jornal francês Le Figaro. “Um divórcio político entre União Europeia e Estados Unidos seria uma catástrofe para todo o mundo ocidental.”Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, descartou vetar o uso da base de Ramstein, a maior instalação americana na Europa. Um acordo assinado após a Segunda Guerra Mundial garante aos EUA o uso do local, desde que suas operações não violem o direito interno ou internacional.Ainda assim, Merz — que vem tentando cultivar uma relação próxima com Trump — criticou duramente o ataque americano ao Irã.“O que Trump está fazendo neste momento não é uma tentativa de distensão nem de buscar uma solução pacífica, mas uma escalada maciça, com um desfecho completamente incerto”, afirmou em uma conferência em Frankfurt, na sexta-feira.© 2026 Bloomberg L.P.The post Aliados de Trump na Otan resistem à guerra no Irã e ampliam desgaste com os EUA appeared first on InfoMoney.

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