Brasil vive contradição de ter petróleo, mas não gasolina, diz ex-CEO da Petrobras

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Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras (PETR3; PETR4) e um dos maiores gestores de crise do país, afirma que o Brasil vive hoje uma contradição difícil de explicar ao cidadão comum: é autossuficiente em petróleo bruto, mas segue dependente do mercado externo para abastecer os próprios postos de gasolina. A raiz do problema, segundo ele, está no refino — e nas escolhas políticas que, há décadas, impedem o país de resolver a equação de vez.O país extrai hoje mais de 4 milhões de barris por dia. O consumo interno, segundo Parente, não chega à metade disso. Mas petróleo bruto não vai direto ao tanque do carro. “A gente não consome petróleo bruto, a gente consome derivados de petróleo”, explicou. “A gente consome gasolina, a gente consome diesel, a gente consome o gás que é feito de petróleo, o famoso GLP.”A análise foi feita em entrevista ao programa Hot Market, da CNN Brasil, apresentado por Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da XP. Parente é sócio-fundador da eB Capital e acumula um currículo que poucos no país conseguem igualar: coordenou o racionamento de energia elétrica em 2001, liderou a reestruturação da Petrobras quando ela era a empresa mais endividada do mundo e ainda conduziu a gestão da BRF (BRFS3) após a crise da Operação Carne Fraca.Veja mais: Rafael Furlanetti, da XP, estreia programa de entrevistas na CNN Brasil e CNN MoneyE também: Entusiasmo e boas equipes: a receita de Rubens Menin para liderar múltiplos negóciosO nó, ele explica, tem dois fios. O primeiro é a capacidade de refino: o Brasil simplesmente não possui refinarias em número e tamanho suficientes para processar o que consome. O segundo é mais técnico, mas igualmente relevante: o petróleo do pré-sal é leve, de alta qualidade, enquanto as refinarias brasileiras foram projetadas para processar o óleo mais pesado que predominava antes dessa descoberta.“Essa combinação faz com que a gente dependa de importação de derivados”— Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras (PETR3; PETR4).Goldman: Petrobras pode perder competitividade no curto prazo por alta no petróleoPetrobras afirma novamente não haver fato novo sobre compra da Refinaria de MataripePetrobras não pode ter dois donosQuando o assunto chega ao preço dos combustíveis e ao papel da Petrobras, Parente vai direto ao ponto que incomoda governos de todos os espectros. Quem é, de fato, o dono da estatal? Para ele, a resposta é clara — e ela torna inviável qualquer política de preços abaixo do mercado enquanto a empresa tiver capital aberto.O governo detém a maioria das ações ordinárias, aquelas com direito a voto. Mas esse bloco representa, hoje, pouco mais de um terço do capital total da companhia. “Quem é o dono da Petrobras hoje, considerando a totalidade das ações, não é o governo, são os acionistas minoritários”, afirmou. Isso significa que qualquer decisão que reduza o lucro da empresa prejudica diretamente esses sócios — o que, juridicamente, é problemático.A saída, na visão de Parente, seria fechar o capital. Não que ele concorde com isso. Mas se o governo quer praticar preços politicamente convenientes, teria que arcar com as consequências sozinho. “Se o governo quer fazer política pública, quer tomar prejuízo na empresa ou quer praticar preços que não levam a empresa a maximizar o seu resultado, fecha o capital da Petrobras, aí faz o que quiser.”E citou o exemplo da Noruega, onde a estatal petrolífera opera sem interferência política, dentro de um mercado que funciona.Há ainda uma terceira camada no problema. Com a privatização da Refinaria Mataripe, na Bahia — vendida ao Fundo Soberano dos Emirados Árabes, o Mubadala, por quase US$ 2 bilhões —, o Brasil tem agora um investidor estrangeiro dentro da sua cadeia de refino. Forçar preços abaixo do mercado envia um recado péssimo a esse e a outros potenciais investidores.Leia tambémLula monta chapa de centro para o Senado em SP em busca das duas vagas em disputaPresidente se mostrou otimista em emplacar duas vagas no Senado, mas o PT só elegeu dois senadores aliados no estado em eleições alternadasTrump fala em “grande dia” no Irã, com muitos alvos “eliminados e destruídos”Mais cedo, o presidente americano sugeriu a tomada da Ilha Kharg, no Irã, que abriga o principal terminal de petróleo do Golfo Pérsico.Subsídio dirigido, não desconto geralParente não ignora a pressão real que os caminhoneiros exercem sobre qualquer governo. Mas defende que o erro histórico é tratar o problema com um desconto que beneficia, na mesma medida, o dono do caminhão frigorífico e o dono do iate ancorado em Angra dos Reis. “Ao baixar o preço do diesel, você beneficia os caminhoneiros, que são os mais vulneráveis, mas você beneficia também o cidadão que tem um barco lá em Angra dos Reis, que enche o iate de petróleo e vai dar um passeio”, apontou Furlanetti. “Exatamente”, confirmou o ex-presidente da Petrobras.A proposta de Parente é um subsídio direto e calibrado, custeado pelos próprios dividendos da Petrobras. Quando o preço internacional do diesel sobe, os lucros da estatal sobem junto — e esse dinheiro poderia ser redirecionado para compensar os trabalhadores que dependem do combustível para sobreviver. “Uma equação que fecha”, como ele mesmo define.O modelo evitaria também o efeito colateral perverso de reduzir o ICMS dos estados. Quando o governo federal pressiona por um desconto estadual no imposto, o estado perde receita — e com ela vai parte do dinheiro para educação, segurança pública e saúde. “A decisão não é fácil”, reconhece Parente. Mas a alternativa de um subsídio inteligente e rastreável seria mais barata, mais justa e fiscalmente neutra.The post Brasil vive contradição de ter petróleo, mas não gasolina, diz ex-CEO da Petrobras appeared first on InfoMoney.

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