Com a desistência de Ratinho Junior e o encaminhamento para Ronaldo Caiado ser o presidenciável do PSD, que ainda tem Eduardo Leite como opção, o partido dará início à pré-campanha com patamar inferior de intenções de voto, já que o paranaense performava melhor que os correligionários. Defensores da candidatura do governador de Goiás, contudo, afirmam que ele tem atributos com mais apelo junto ao eleitorado, sobretudo o discurso focado na segurança pública. Também tenderia a atrair apoios no universo do agronegócio, setor no qual Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta resistências. Um dos desafios, porém, é justamente conseguir tirar votos que iriam para o filho do ex-presidente.Embora a decisão por Caiado não tenha sido anunciada oficialmente, o ex-governador de Santa Catarina Jorge Bornhausen disse que o PSD já o definiu como candidato a presidente. Bornhausen faz parte da comissão política do partido para a escolha. O presidente da sigla, Gilberto Kassab, se reúne hoje com Leite.— A comissão por unanimidade escolheu Caiado — disse Bornhausen ao GLOBO.Leia tambémAtlasIntel: Flávio Bolsonaro avança além do núcleo duro e amplia competitividadeLevantamento mostra crescimento mais distribuído do senador e redução da dependência do voto bolsonarista tradicionalEduardo Bolsonaro diz que Moraes bloqueou contas dele e da mulher e cita perseguiçãoNa decisão, proferida na segunda-feira, 23, o ministro afirmou que o compartilhamento é “razoável, adequado e pertinente”Prós e contrasRatinho aparecia próximo aos dois dígitos nas pesquisas. Caiado e Leite não passam de 4%. O Paraná também é o estado com maior colégio eleitoral entre os três, o que dava a Ratinho base maior que a dos demais — com diferença pequena em relação ao Rio Grande do Sul, mas bem acima de Goiás.O goiano é considerado o mais à direita dos que tentavam se viabilizar no partido. Tanto que já representava o campo político em 1989, na primeira eleição presidencial pós-ditadura, quando terminou em nono lugar na disputa. Bem antes do boom do agro nas últimas décadas, era desde então um porta-voz do setor.Quando intensificou publicações e pronunciamentos nacionais, na esteira da candidatura que parecia encaminhada, Ratinho adotou motes genéricos, como a ideia de “destravar o Brasil”. Não é um político de embate, e mesmo as críticas ao presidente Lula e os acenos ao bolsonarismo soam mais polidos.Já Caiado, histórico opositor do petista, é lido como alguém indubitavelmente da raia da direita. O goiano, segundo interlocutores, apostará muito no discurso da segurança pública, por exemplo, alegando que acabou com a criminalidade em Goiás e que é possível replicar o feito na esfera nacional.Durante o processo de definição do candidato do PSD, Leite e Ratinho sempre foram considerados as opções mais “neutras” do partido. Já o governador de Goiás, segundo pessoas envolvidas no projeto, poderá soar mais atraente para o eleitorado da direita. Ao mesmo tempo, enfrenta a dificuldade de convencer esse eleitor de que é melhor votar nele do que em um candidato de sobrenome Bolsonaro.Ratinho, por causa da popularidade do pai na TV, o apresentador Ratinho, era considerado um nome capaz de acessar nichos lulistas, além de atrair o eleitor “nem-nem”.— Do ponto de vista narrativo, o Caiado tem um discurso mais ideológico. Bom lembrar que foi um dos primeiros candidatos à presidência depois da ditadura, em 1989, e travou embate com Lula sobre reforma agrária. Tende a se apresentar com narrativa até mais radical do que Flávio Bolsonaro, que está tentando se apresentar como moderado — avalia o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da FGV EAESP, para quem a alteração pouco muda o tamanho do PSD no jogo nacional.O partido de Kassab nunca teve candidato próprio à Presidência. Uma das principais características da sigla são as divisões regionais. Há um PSD com inclinação para o bolsonarismo, outro simpático a Lula e alas mais neutras, como o próprio Leite. Mesmo que siga adiante com a candidatura de Caiado ou do gaúcho, a tendência é que os diretórios estaduais sejam liberados para apoiar o presidenciável que acharem mais conveniente.Palanque regionalUm dos maiores medos de Ratinho era ter um resultado ruim no próprio estado na eleição presidencial. Um fator que agravava esse risco era a candidatura do senador Sergio Moro ao governo do Paraná pelo PL, com apoio de Flávio Bolsonaro.Moro, segundo aliados do governador, não só atrapalha Ratinho para emplacar o sucessor, como tem potencial de impulsionar o bolsonarismo no estado. Assim, havia o temor de que, apesar de aprovado por mais de 80% da população, o chefe do Palácio Iguaçu acabasse esquecido no voto para o Planalto.— Ele entendeu que deveria declinar por motivos familiares, questões locais de política. Não é que pegou de surpresa: é natural isso, as pessoas vão se definindo e às vezes mudam (de posição) — disse ontem Kassab.No entorno de Flávio, a avaliação é de que Ratinho teve um erro de cálculo ao rechaçar com veemência a possibilidade de ser vice do herdeiro de Jair Bolsonaro na eleição. A recusa, no meio de março, levou a uma intensificação do movimento do PL rumo a Moro.Caiado tem uma conjuntura local mais controlada para emplacar o sucessor. O atual vice-governador e candidato apoiado por ele, Daniel Vilela (MDB), lidera as pesquisas.Esse controle maior do jogo local, associado à alta aprovação — 88% em agosto do ano passado, segundo a Quaest —, também permite que Caiado vislumbre um bom desempenho no próprio estado na eleição presidencial. Leite é menos consensual no Rio Grande do Sul, com 58% de aprovação em agosto, e o cenário local está mais indefinido.Ratinho tinha o melhor desempenho, entre os pessedistas, nas últimas pesquisas nas simulações de segundo turno contra Lula, além do patamar maior no primeiro. No Datafolha, chegava a aparecer em empate técnico com o petista no confronto direto. Caiado, na mesma sondagem, registrou dez pontos a menos que o petista, e Leite, 12 pontos.Ontem, um dia após a desistência do filho, o apresentador Ratinho publicou foto de apoio com ele: “Estou com você, meu filho, em todos os momentos”, escreveu.The post Caiado tem segurança e agro como trunfos, mas desafio é tirar votos de Flávio appeared first on InfoMoney.
