Se o El Niño, fosse um menino como o seu nome sugere, teria o poder de estragar tudo que toca. É isso que esse fenômeno, de chegada garantida no segundo semestre, faz com o clima de boa parte do planeta. Não existe confirmação de que ele será superpoderoso, como se tem alardeado em redes sociais. Entre todos os desastres estimados o único garantido é o térmico e este será sentido em todo o Brasil, com grande intensidade no Sudeste e no Centro-Oeste.Leia tambémAvião de pequeno porte cai em Capão da Canoa (RS); Bombeiros confirmam três mortesAs primeiras informações da Brigada Militar, o avião monomotor estaria voando em baixa altitude quando começou a perder altura e caiu, por volta das 11hHelicóptero cai no mar da Barra da Tijuca, no Rio de JaneiroDe acordo com o portal G1, a aeronave fazia um voo panorâmico, teve problemas e foi forçada a descer no mar, perto da arrebentaçãoO calor, já nas alturas, virá com tudo no segundo semestre com o impulso do Niño. E 2026 poderá superar 2024 como o ano mais quente da História da Humanidade, adverte José Marengo, um dos climatologistas mais respeitos do mundo e um dos autores de uma nota técnica enviada à Casa Civil este mês pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).Além disso, em termos gerais, o El Niño costuma provocar a diminuição das chuvas no Norte e o aumento no Sul. Na região central, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, as ondas de calor se tornam mais frequentes, normalmente acompanhadas de baixa umidade, diz a nota.A seguir o que é garantido e o que por ora é apenas previsão, com razoável grau de incerteza.RiscoHá 80% de chance de um El Niño se estabelecer no Oceano Pacífico no segundo semestre, diz Marengo. Se ele será moderado, forte ou muito forte é outra história. “Vai acontecer, será muito quente e vamos sentir mais a partir de setembro. Mais que isso, é especulação”, afirma o climatologista.Impacto globalHá um El Niño quando o Pacífico equatorial permanece a pelo menos 0,5°C acima da temperatura média por ao menos três meses. Parece pouco, mas as dimensões do fenômeno são colossais. O El Niño é como uma piscina de água quente de tamanho equivalente ao da Amazônia Legal brasileira. O combustível do El Niño é a radiação solar. O Pacífico equatorial recebe mais radiação solar do que qualquer outro lugar da Terra e essa energia é estocada em forma de calor. A atmosfera responde à toda essa água quente e os ventos enfraquecem e concentram umidade no Oeste da América do Sul. Isso deflagra uma cascata de desequilíbrios, com extremos de calor, seca e chuva. O fenômeno é regional, mas toma dimensão global porque o El Niño funciona como uma usina de energia, propagada por correntes oceânicas e ventos mundo afora.QuandoOs primeiros sinais são na época do Natal, daí a alusão ao “menino”, no caso, Jesus. Mas o fenômeno se desenvolve no período de abril a junho. E mostra as garras nos meses seguintes, sobretudo de outubro a fevereiro do ano seguinte.PotênciaNeste momento, José Marengo diz ser impossível cravar a intensidade do fenômeno, pois os modelos de previsão perdem a precisão em períodos acima de dois meses. Mas se for de forte a muito forte pode superar 2024 e levar o Brasil e o mundo a um patamar inédito de calor intenso e prolongado. Vale notar que o El Niño de 2024 não chegou a ser classificado como muito forte, mas teve efeitos devastadores _ além do calor, a tragédia do Rio Grande do Sul e a seca recorde da Amazônia, por exemplo _ porque a Terra está mais quente do que nunca nos registros. “Para ser classificada como muito forte a anomalia (na água do Pacífico) teria que superar 2,0°C”, diz a nota do Cemaden.Maçarico turbinadoO calor será intenso e garantido porque o calor do El Niño se soma ao do planeta mais quente e desmatado. Os anos de 2015 a 2025 foram o período mais quente já registrado, segundo a Organização Meteorológica Mundial. Pela primeira vez, o documento inclui uma medida chamada desequilíbrio energético da Terra — a diferença entre a energia que chega do Sol e a que é irradiada de volta para o espaço. Ela está em seu nível mais alto desde o início das observações, em 1960. O desmatamento também aumenta a temperatura ao reduzir a cobertura vegetal que ajuda a proteger o solo do efeito direto dos raios solares e a evitar a perda de umidade.Desastre térmicoO calor é um assassino invisível e silencioso, frisa Marengo. Quando extremo e prolongado, ele é um desastre. Agrava doenças, seus efeitos sobre a saúde são extensos. Reduz a produtividade, mata plantações, causa incêndios, mata animais. Pior do que os picos de temperaturas máximas, enfatiza, é a longa duração dos períodos quentes.Ondas de calorNos últimos cinco anos aumentou a área afetada e a frequência de ondas de calor, diz Marengo. O ano de 2024 teve dez ondas de calor; 2023, oito e 2025 mesmo sem El Niño marcou sete. É o período com maior número de ondas de calor da História do Brasil. Sudeste e Centro-Oeste têm sido muito afetados. O cientista destaca que as ondas estão cada vez mais comuns e preocupam, sobretudo, porque estão mais longas. Algumas superam dez dias. Porém, o efeito mais pernicioso não é sequer o extremo pontual de temperatura, mas semanas a fio acima da zona de conforto térmico do ser humano, que oscila na faixa dos 23°C. É isso que sobrecarrega o corpo e causa problemas de saúde.Noites quentesUm dos principais motivos dos efeitos nocivos é o aumento das temperaturas mínimas. O termômetro passa o dia nas alturas e o corpo não tem descanso à noite porque ele não baixa significativamente, como seria o esperado. As mínimas, segundo Marengo, têm subido mais do que as máximas. Se a pessoa não tem ar condicionado, não descansará, alerta o climatologista.Efeito diretoNo bolso do brasileiro. O ar condicionado, para quem pode ter um, é a única forma de aliviar sensação térmica superior a 35°C, como mostram estudos publicados na revista Lancet. Ventilador vira air-fryer nessas condições. Porém, o ar condicionado faz a conta de energia disparar. Ligar um único aparelho por cerca de 10 horas por dia (parte da noite e das horas mais quentes do dia, normalmente no meio da tarde) pode triplicar a conta, isso com a bandeira tarifária verde. O custo dos alimentos também sobe porque o calor constante somado a extremos de seca e chuva diminui a produtividade e leva à escassez de produtos, sobretudo, hortifrutigranjeiros.InvernoJosé Marengo diz que os invernos estão ficando mais quentes. Mas isso não impede a ocorrência de episódios de frio intenso. O El Niño é desequilíbrio e ele também pode se manifestar com extremos pontuais de frio. Porém, bem menos frequentes do que os de calor.SudesteO calor é a marca do El Niño na região. O Sudeste é uma região que os climatologistas chamam de transição e sofre outras influências, assim não existe aumento especial nos registros de extremos de chuva associados ao fenômeno.SulA nota do Cemaden alerta que, se as chuvas ficarem acima da média na Região Sul, como costuma ocorrer em anos de El Niño, aumenta o risco de deslizamentos, sobretudo na faixa leste — como Grande Curitiba e litoral do Paraná, Norte Catarinense, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e parte sul de Santa Catarina, além da Serra Gaúcha, região metropolitana de Porto Alegre e áreas de Santa Cruz do Sul e Santa Maria no Rio Grande do Sul. Podem ocorrer desde quedas de barreiras em rodovias e deslizamentos em áreas urbanas. Do ponto de vista dos rios, volumes de chuva superiores à média podem provocar cheias importantes em bacias como Uruguai, Taquari-Antas, Caí, Itajaí-Açu e Iguaçu. Os eventos de El Niño tendem a favorecer não só chuvas acumuladas acima do normal, como episódios pontuais de chuva intensa, capazes de gerar enxurradas e alagamentos em áreas densamente povoadas, com destaque para as regiões metropolitanas de Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba e todo o litoral catarinense.AmazôniaImpossível dizer neste momento se o cenário será como o de 23/24, cuja seca brutal ficou marcada na imagem da maior mortalidade de botos-cor-de-rosa da História. Mas, mesmo que chova abaixo da média, o impacto sobre o ciclo de cheias da Amazônia tende a ser limitado porque, em setembro — quando o El Niño já deve estar configurado — o pico de cheia principal já terá passado, iniciando um novo ciclo previsto apenas para o fim de 2026. Assim, mesmo que a seca se prolongue até o final do ano, o efeito esperado é, sobretudo, um atraso no início do novo ciclo hidrológico, afetando principalmente as áreas de nascente dos rios Solimões e Negro, e não toda a bacia amazônica.NordesteSe houver atraso na chuva, o impacto será maior no sertão, onde muitos municípios dependem de barragens intermitentes que levam mais tempo para encher quando o período chuvoso atrasa ou é mais fraco. Mas o Cemaden lembra que o El Niño não é o único fator por trás de extremos climáticos: o Oceano Atlântico Tropical também interfere no regime de chuvas da região e processos não climáticos, como mudanças no uso da terra e desmatamento, agravam secas e enchentes ao alterar a recarga dos reservatórios e o comportamento das bacias hidrográficas.Centro-OesteO Cemaden diz que, se o El Niño se estabelecer na segunda metade de 2026, ele pode piorar a seca já em curso no centro-norte do Brasil, sobretudo se vier acompanhado por temperaturas altas, baixa umidade do ar e atraso no início da estação chuvosa 2026–2027. Esse combo de condições criaria um cenário particularmente favorável ao aumento do risco de incêndios florestais e em áreas de vegetação, principalmente a partir de agosto, quando a estação seca se intensifica nessa faixa do país. O Pantanal está entre as áreas de preocupação, diz Marengo.The post Cemaden alerta para “desastre térmico” no Brasil com chegada do El Niño appeared first on InfoMoney.
