Conteúdo XPA transição do palco para o pregão costuma ser romantizada. No entanto, no caso de Márcio Kieling, a virada foi menos glamour e mais confronto interno. Acostumado ao reconhecimento público e à validação constante da carreira artística, ele encontrou no mercado financeiro um ambiente que não aplaude, não perdoa e, sobretudo, não negocia com o ego.No episódio 8 da 4ª temporada do Mapa Mental, no canal GainCast, Márcio Kieling contou como trocou o roteiro das novelas pelos gráficos do day trade. Entretanto, a parte mais marcante da conversa não foi técnica. Foi psicológica.O choque de realidadeAo entrar no mercado, Kieling acreditava que o controle emocional seria seu diferencial competitivo. Afinal, como ator, estava habituado a lidar com sentimentos intensos sob pressão. Contudo, o gráfico mostrou outra realidade. “Eu 30 anos como ator achava que me conhecia. E hoje há 5 anos no mercado, eu estou me conhecendo e diante do gráfico, diante da tela. É incrível”, afirma.Além disso, o impacto foi ainda maior porque, ao longo da vida, ele construiu uma narrativa pessoal de realização. Diferentemente de outras áreas, no trading o esforço não garante recompensa imediata. Portanto, o confronto deixou de ser externo e passou a ser interno. “Eu sempre fui um cara que consegui realizar tudo que eu quis. Então, eu cheguei no mercado e não conseguia realizar”, observa.O peso de precisarSe o ego foi desafiado, a pressão financeira ampliou o conflito. No início da trajetória, Kieling operava precisando que o dinheiro viesse do mercado. Consequentemente, cada operação carregava uma carga emocional desproporcional. “Eu operava com um piano nas costas”, relembra.Segundo ele, a dependência financeira distorce decisões. Quando o trade deixa de ser uma estratégia e passa a ser uma necessidade urgente, o clique perde racionalidade. Por isso, ele passou a alertar iniciantes sobre o risco de operar sob pressão. “Se você vier para o mercado dependendo só desse dinheiro, e não tiver dinheiro para te sustentar aí, cara, não venha que você vai quebrar, irmão. Você vai se frustrar novamente”, orienta.Assim, a maturidade operacional começou quando o mercado deixou de ser tábua de salvação e passou a ser fonte complementar de renda. A leveza não veio da técnica. Veio da estrutura emocional.Ego e negaçãoEntretanto, o maior obstáculo não foi a falta de conhecimento técnico. Foi a dificuldade de aceitar o erro. Acostumado a um ambiente em que cenas podem ser regravadas, Kieling encontrou no trade uma dinâmica implacável: o prejuízo é imediato e definitivo. “Não, eu não estou errado. Vai voltar. A não aceitação do erro”, admite.Além disso, ele reconhece que a carreira artística inflou sua autoconfiança. No mercado, porém, o excesso de confiança se transforma rapidamente em prejuízo. “Eu venho de um mercado que o ego é inflado né? E, eu até estava falando né, o ego é alimentado”, explica.Dessa forma, aceitar o stop passou a ser um exercício diário de humildade. No trading, perder faz parte do jogo. Contudo, emocionalmente, essa constatação não é simples. “Você vai entrar num business que perder faz parte”, ressalta.A desilusão inicialA trajetória também foi marcada por um episódio que poderia ter encerrado sua jornada no mercado. Logo no início, ele confiou em um mentor que prometia ganhos expressivos. O resultado foi frustração. “Eu comecei perdendo e comecei perdendo um dinheiro que eu não podia perder”, relata.Posteriormente, descobriu que os resultados apresentados pelo mentor eram manipulados. “Não, não é possível, cara. Ele é um picareta”, afirma.Apesar disso, a decepção serviu como divisor de águas. Em vez de abandonar o mercado, Kieling decidiu buscar referências mais sólidas e aprofundar o estudo. Portanto, o erro inicial virou combustível para o amadurecimento.Mercado como espelhoCom o tempo, o gráfico deixou de ser inimigo e passou a ser espelho. Cada reação diante de um loss, cada impulso de aumentar a mão ou cada hesitação antes de zerar posição revelava traços de personalidade antes invisíveis. “O mercado financeiro é uma escola de autoconhecimento absurda”, afirma.Além disso, ele percebeu que disciplina não é acordar cedo ou treinar diariamente. Disciplina, no mercado, significa seguir regra mesmo quando o emocional pede o contrário. “Ou você é disciplinado na sua vida toda ou você não é disciplinado”, conclui.Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice. The post De novelas ao day trade: Márcio Kieling diz como o mercado derrubou seu ego appeared first on InfoMoney.
