A denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), à qual O GLOBO teve acesso, descreve episódios de tortura praticados pelos integrantes do Comando Vermelho (CV), com intenção de punir comparsas e até moradores. O grupo criminoso, alvo da megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, este apontado como principal base da facção, é comandado por Edgar Alves Andrade, o Doca, que segue foragido. Mas a figura responsável por orientar as punições e participar dos chamados “tribunais do tráfico”, com autonomia para determinar até a execução de rivais de menor expressão, conforme consta no relatório, é um dos chefes do grupo paramilitar: Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW.Leia tambémBandidos de outros estados reforçam o CV e dificultam identificação de mortos no RioSegundo a Polícia Civil, dos 133 presos na megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, pelo menos 33 eram de fora do Rio de JaneiroPCC e CV são grupos terroristas? O que dizem governos Lula, Tarcísio e especialistasPropostas para classificar facções como grupos terroristas avançam no Congresso, mas especialistas alertam para riscos e distorçõesApontado como gerente do tráfico na Gardênia Azul, BMW “goza de prestígio e atua em alta posição hierárquica dentro do Comando Vermelho” e é chefe do grupo de matadores nomeado de Equipe Sombra, segundo o MPRJ.“Além disso, em nome do predomínio violento da facção criminosa Comando Vermelho, o denunciado Juan Breno orienta a prática de punições e tortura contra moradores”, diz trecho da denúncia, que anexa uma imagem de uma mulher mergulhada numa banheira de gelo, só com a cabeça de fora. Na legenda do registro fotográfico, ela é apresentada como “brigona que gosta de arrumar confusão no baile” e que essa é a “melhor forma” de punição, já que “não quer bater em morador”.Em outro episódio, um homem amordaçado e algemado é arrastado por um carro, vestindo short, sem camisa. “Em meio a gritos implorando por perdão”, o alvo da punição cita BMW diversas vezes, enquanto o denunciado “faz piada do sofrimento alheio, debochando da vítima agonizante”.As imagens, fortes, mostram o homem se justificando sobre cifras. BMW então manda o alvo calar a boca e só para o carro quando vê um possível desmaio do punido: “Ih, apagou”, diz. Em outro momento, Carlos Costa Neves, o Gadernal, é acionado em chamada de vídeo — “fala para o chefe”, fala BMW, apontado o celular para o homem arrastado — o que indica que “contribuiu eficazmente com a conduta” de BMW.Morte dos médicosO nome de BMW já apareceu no noticiário há dois anos, como um dos responsáveis pelo assassinato de médicos em um quiosque na orla da Barra da Tijuca. Na ocasião, o grupo, que participava de um congresso no bairro, foi alvo de tiros: Marcos de Andrade Corsato e Perseu Ribeiro Almeida morreram no local, enquanto Diego Ralf de Souza Bomfim morreu no hospital. O único sobrevivente foi Daniel Sonnewend Proença.Segundo a investigação da Delegacia de Homicídios, os médicos teriam sido mortos por engano, já que Perseu Ribeiro de Almeida teria sido confundido com o chefe da milícia de Rio das Pedras, Taillon de Alcântara Pereira Barbosa. A própria facção tratou de executar os responsáveis pela ação, mas, como BMW não esteve presente na execução em si, foi poupado.‘Massagem’ e ‘crueldade’ de BafoOutro denunciado por esses castigos é Fagner Campos Marinho, o Bafo, apontado como soldado do tráfico de drogas. De acordo com o relatório do Ministério Público, ele, nas imediações do Complexo da Penha, “constrangeu a vítima, pessoa ainda não identificada, que estava totalmente dominada e em seu poder, com emprego de violência, causando-lhe intenso sofrimento físico, como forma de aplicar castigo pessoal e medida de caráter preventivo”.Na prática, Bafo agrediu violentamente uma pessoa parcialmente desnuda, caída e amarrada. “O denunciado gravou vídeo com a vítima ensanguentada, gemendo de dor, reconhecendo que foi ele quem torturou (‘deu massagem’ no) aquela pessoa, e, logo após, indagando à vítima ‘quer morrer?’”, relata a denúncia.“A crueldade de Fagner é ressaltada pela sua atuação em tortura de indivíduo amarrado e ensanguentado. Fagner indaga se a vítima “quer morrer logo”, e o indivíduo, possivelmente pela exaustão e crueldade da tortura recebida, balbucia, parecendo aceitar a sua execução, como forma de interromper o sofrimento”, relata o MPRJ.The post Denúncia que embasou operação no Rio de Janeiro aponta métodos de tortura do CV appeared first on InfoMoney.
