Escolhido pelo presidente Lula em um esforço de aproximação com uma parcela do Centrão, o novo ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, atuou no comando de empresas que acumulam problemas de gestão. Responsável por um orçamento de R$ 3,5 bilhões na pasta, ele é ligado a duas faculdades que fecharam as portas, atrasaram salários e sofreram sanções do próprio governo federal. Além do vínculo com as universidades, o titular da pasta foi sócio de uma construtora que leva suas iniciais. Juntas, as firmas acumularam uma dívida de R$ 3 milhões com a União.A Faculdade de Ciências e Tecnologias de Natal (Faciten), da qual o ministro foi sócio, foi descredenciada pelo Ministério da Educação (MEC) em novembro de 2025 por falhas na prestação de serviços educacionais. Outra instituição de ensino com a qual o ministro mantém vínculos, a Faculdade de Campina Grande foi suspensa do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) em julho do ano passado e está inoperante ao menos desde 2024. Procurado, o ministro não se manifestou.Seu irmão, Renato Feliciano, que é sócio-administrador da mantenedora da Faculdade de Campina Grande, disse que o ministro “não é mais sócio, nem representante legal, das empresas” e que “as dívidas trabalhistas estão sendo todas negociadas caso a caso”.Leia tambémBolsonarismo deixa pauta de costumes e pressionará Lula com segurança em debatesTema deverá voltar a ser foco de parlamentares da oposição no Congresso na volta do recesso, em fevereiroXi Jinping garante a Lula apoio da China em tempos “turbulentos”As declarações de Xi feitas em uma ligação telefônica com o homólogo brasileiro ocorreram após as críticas de Lula ao ataque dos EUA à VenezuelaTrajetória empresarialAs empresas têm sede na Paraíba, onde Feliciano, filho do deputado Damião Feliciano (União-PB) e da ex-vice-governadora Lígia Feliciano, construiu a rede de relações políticas que o levou ao cargo. Ele foi secretário estadual de Turismo e Desenvolvimento Econômico entre 2019 e 2021, no governo de João Azevedo (PSB) e é aliado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que deu aval à sua indicação. Feliciano substituiu Celso Sabino, que reassumiu o mandato de deputado federal após ser expulso pelo União Brasil por se recusar a deixar o cargo quando o partido ensaiou uma ruptura com Lula.O ministro tem uma trajetória empresarial marcada por dificuldades. Na plataforma e-mec, do Ministério da Educação, ele ainda aparece como diretor-presidente da União de Ensino Superior de Campina Grande (Unesc-PB), da qual seu irmão Renato é sócio. A empresa controla a Faculdade de Campina Grande.Credenciada em 2003, a Unesc-PB não funciona, pelo menos, desde 2024, segundo ex-professores ouvidos pelo GLOBO, mas ainda aparece como ativa nos sistemas do MEC e é habilitada a oferecer oito cursos de graduação. A faculdade foi suspensa do Fies em julho de 2025 por não ter enviado informações para o Censo da Educação Superior.Quando ainda estava em atividade, a Unesc-PB atrasou o pagamento de salários e o recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) dos funcionários em diversas ocasiões e segue respondendo a ações trabalhistas.Um ex-funcionário que lecionou por mais de uma década na instituição relata atrasos de salários pelo menos desde 2012. O docente, que pediu anonimato, afirma que causaram indignação entre os funcionários posts de Feliciano no Instagram de uma viagem ao Japão para assistir à final do Mundial de Clubes entre Corinthians e Chelsea. Os jogos ocorreram na mesma época em que a faculdade enfrentava problemas financeiros.Ex-professores afirmam que Lígia Feliciano dirigiu a instituição antes de se tornar vice-governadora, em 2015, e que Gustavo Feliciano passou a comandar a faculdade desde então, justamente quando a Unesc-PB entrou em crise.Com a pandemia, a situação financeira da faculdade se agravou. Uma ex-docente relata que a direção não forneceu infraestrutura adequada para o ensino remoto, o que levou alunos a abandonar os cursos. Em 2022, o número de alunos caiu para cerca de 300, o que resultou na demissão de grande parte dos funcionários. Em seu auge, no início dos anos 2010, a instituição chegou a ter cerca de 2.600 alunos.O GLOBO encontrou 313 ações trabalhistas que mencionam supostas irregularidades cometidas pela Unesc-PB no Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região. Um dos casos, com vitória em primeira instância para o autor da ação, relata falta de pagamento de salários, da rescisão trabalhista e ausência de 2018 até 2022, data da saída, de pagamento de FGTS.Em outro processo, uma ex-professora diz que trabalhou na faculdade por mais de um ano, entre 2016 e 2017, sem registro em carteira. A ação terminou com um acordo, no qual a instituição se comprometeu a indenizá-la em R$ 24 mil em 2023.Ex-funcionários acionaram a Justiça, em 2022 e 2023, porque a faculdade atrasou o pagamento de parcelas de acordos judiciais firmados para encerrar reclamações trabalhistas.A Unesc-PB consta no rol de devedores da União, com débito de R$ 2,59 milhões, segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Desse montante, R$ 1,6 milhão refere-se a dívidas previdenciárias, R$ 338,8 mil a multas trabalhistas e R$ 603 mil a passivos relacionados ao FGTS.A presença da família Feliciano no setor educacional estende-se à União de Ensino Superior da Paraíba (Unipb), mantenedora da Faciten. O ministro foi sócio da empresa, descredenciada pelo MEC em 25 de novembro do ano passado “por medida de supervisão”, após processo administrativo instaurado em 2024. A instituição oferecia cursos de Administração, Direito e Enfermagem. A Unipb ficou proibida de apresentar novos pedidos de credenciamento por dois anos.A Unipb é inscrita na dívida ativa da União, com débitos de R$ 334 mil, a maioria por débitos trabalhistas. Gustavo Feliciano também já foi presidente da firma e seu irmão Renato aparece como o atual representante legal no cadastro do MEC. Apesar disso, a empresa está atualmente no nome de Soraya Rouse Santos Araújo, que desde 2023 é secretária parlamentar do deputado Damião Feliciano, pai do ministro. Renato não respondeu ao GLOBO se tratou-se de uma aquisição. Soraya assumiu como sócia quando as faculdades já estavam inoperantes. Ela tem remuneração de R$ 3.529,86 na Câmara. Procurada, ela não respondeu.Setor imobiliárioO descredenciamento é a sanção mais severa aplicada a uma instituição de ensino superior e ocorre quando são consideradas insanáveis deficiências na qualidade do ensino, na situação financeira ou no cumprimento das normas do MEC. O processo da Faciten foi iniciado em setembro de 2025, em caráter sigiloso.Além do ramo educacional, Feliciano atuou no setor imobiliário. O ministro é sócio da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários, empresa sediada em Campina Grande que já entregou condomínios residenciais. A construtora consta na lista de devedores da PGFN, com passivo de cerca de R$ 200 mil, dos quais R$ 184 mil correspondem a débitos previdenciários. A empresa também passou para o nome de Soraya Rouse Santos Araújo.The post Empresas geridas por ministro do Turismo acumulam crise e sanções do governo federal appeared first on InfoMoney.
