A discussão mais quente nas mesas globais hoje é a possibilidade de uma mudança de ciclo: depois de mais de uma década de domínio quase absoluto dos Estados Unidos em termos de retorno, começa a ganhar força a tese de que parte do capital internacional pode buscar alternativas fora do eixo americano, especialmente em mercados emergentes como o Brasil. “O que a gente está começando a ver é o debate sobre um possível ponto de inflexão, em que a liderança dos EUA continua, mas deixa de ser tão exclusiva”, afirma Lucas Collazo, apresentador do Stock Pickers.Durante mais de dez anos, investir fora dos Estados Unidos exigiu paciência. Os números mostram que o S&P 500 entregou retorno anualizado em torno de 15% ao ano em dólar até o fim de 2025, desempenho que consolidou o país como destino natural de capital global. Essa performance refletiu não apenas em crescimento econômico, mas também no domínio de empresas de tecnologia, inovação em escala e um mercado de capitais que soube capturar valor como poucos no mundo.No mesmo período, os mercados emergentes, medidos pelo MSCI Emerging Markets, avançaram cerca de 8,4% ao ano em dólares. O resultado foi positivo, mas insuficiente para competir com a consistência americana. Esse diferencial de performance, como definem os gestores, manteve fluxos concentrados nos EUA e reforçou a assimetria de alocação entre regiões.Veja mais: Juros caem e eleições se aproximam: especialistas revelam apostas quentes do mercadoE também: Fluxo global, dólar fraco e eleição moldam estratégia de fundos no Brasil em 2026Esse contexto criou um padrão de posicionamento em que muitos fundos globais passaram a ter exposição estruturalmente abaixo do peso em emergentes. “Quando uma região performa menos por muito tempo, ela sai do radar e passa a ser vista apenas como coadjuvante, mesmo que os fundamentos comecem a melhorar”, diz Collazo.O peso do Brasil e a lógica dos fluxosDentro desse universo, o Brasil aparece como um caso emblemático. O país responde por cerca de 4% do índice MSCI Emerging Markets, participação modesta em termos globais, mas relevante para decisões de alocação institucional. Em muitos portfólios, o Brasil está abaixo desse peso de referência ou até praticamente zerado, o que cria uma assimetria importante de fluxo.Na prática, isso significa que movimentos pequenos já podem gerar impactos expressivos. Um gestor global que decide sair de uma posição neutra ou inexistente para simplesmente acompanhar o peso do índice já precisa direcionar volumes relevantes ao mercado brasileiro. Se optar por ficar ligeiramente acima, torna-se rapidamente overweight.“Com um peso de 4%, o Brasil não precisa virar a principal aposta do mundo para receber fluxo. Basta deixar de ser ignorado”, resume Collazo. Segundo ele, a história mostra que realocações marginais em benchmarks globais costumam ter efeitos desproporcionais sobre preços e liquidez.Esse mecanismo ganha ainda mais força quando combinado com ciclos de performance. Em 2025, por exemplo, os emergentes voltaram a apresentar ganhos sólidos, sinalizando que não estão mais simplesmente andando de lado e que a dinâmica de retorno começa a responder a mudanças em dólar, juros e crescimento global.Leia tambémTrump avalia ataque ao Irã, e Hezbollah faz alerta de ‘erupção vulcânica na região’Após fracasso de contatos diplomáticos, Washington reforça presença militar e Irã promete reação “imediata e poderosa”Paraná Pesquisas: Lula lidera 1º turno, mas empata contra Flávio ou Tarcísio no 2ºPela projeção, Ratinho Jr é o único candidato prontamente derrotado pelo petista em um eventual 2º turnoDólar, valuation e a possível mudança de cicloUm dos vetores centrais dessa discussão é o comportamento do dólar. Anos de moeda americana forte funcionaram como vento contrário para ativos fora dos EUA, reduzindo retorno em dólares e inibindo o fluxo para outras regiões. Caso essa força diminua, mesmo que de forma gradual, a equação de risco-retorno dos emergentes tende a melhorar.Outro ponto recorrente nos relatórios de estratégia é o valuation relativo. Após um longo período de valorização das ações americanas, os múltiplos nos EUA permanecem, em média, mais elevados do que nos emergentes. Isso não significa que estes estejam automaticamente baratos, mas indica que o custo de oportunidade de diversificação caiu.“No cruzamento entre valuation e crescimento, começa a surgir uma assimetria interessante. Não é uma aposta cega em emergentes, mas a percepção de que o prêmio por risco voltou a fazer sentido”, observa Collazo. Para ele, é nesse tipo de comparação que os grandes movimentos de rotação costumam nascer.No caso brasileiro, essa leitura é reforçada por fatores locais: empresas com múltiplos mais baixos, dividend yields elevados em alguns setores, balanços mais defensivos e uma economia fortemente ligada a commodities, que se beneficiam em ciclos de recuperação global.Commodities, posicionamento e a lógica da rotaçãoA estrutura produtiva do Brasil o coloca em posição estratégica caso o capital volte a buscar exposição a emergentes. Minério de ferro, petróleo, soja e proteínas estão no centro das cadeias globais e tendem a ganhar tração quando o crescimento fora dos EUA se fortalece.Além disso, a combinação entre valuation descontado e posicionamento leve cria um cenário propício para reprecificação. Historicamente, ciclos em que o retorno deixa de ser concentrado em uma única região favorecem mercados que estavam fora do consenso e com baixo peso nos portfólios globais.“Rotação não é sobre abandono dos EUA, é sobre equilíbrio de forças. A liderança continua, mas outras regiões passam a disputar atenção e capital”, explica Collazo. Ele ressalta que movimentos desse tipo costumam ser graduais e percebidos primeiro nos fluxos e no posicionamento, antes de se refletirem plenamente nos índices de retorno.No fim, a discussão não é sobre promessas de performance, mas sobre probabilidades. A leitura de ciclo, baseada em dólar, juros, valuation e composição de portfólio, sugere que o mundo pode estar caminhando para uma fase menos concentrada e mais distribuída em termos de oportunidades.“Ninguém fala em certeza, mas em mudança de incentivos. E quando os incentivos mudam, o capital se move”, conclui. Para investidores e gestores, entender essas viradas silenciosas costuma ser tão importante quanto acompanhar os números que já estamparam o passado recente dos mercados.The post Fim da era EUA? Gestores veem chance de rotação global e Brasil volta ao radar appeared first on InfoMoney.
