A estabilidade institucional mínima e a manutenção de indicadores econômicos básicos colocaram o Brasil em uma posição privilegiada no cenário global, não por uma melhora brilhante, mas pela deterioração de seus pares diretos. Segundo Ricardo Lacerda, CEO e fundador do banco BR Partners, o país passou a ser visto como o “menos feio” em um desfile de emergentes problemáticos, o que explica a retomada do fluxo de capital estrangeiro observada a partir do terceiro trimestre do ano passado.“Não é que a gente ficou mais bonito, mas a gente ficou menos feio”, resumiu o executivo, destacando que o Brasil se beneficia do relativo esvaziamento de outras opções de investimento. Enquanto a Europa enfrenta estagnação, a China sofre com barreiras geopolíticas e a Índia apresenta múltiplos excessivamente caros, o mercado brasileiro voltou a atrair o olhar do investidor internacional, que busca rentabilidade em um ambiente de escassez de alternativas viáveis.O tema foi central na conversa de Lacerda com o apresentador Lucas Collazo e o analista de financials Matheus Guimarães, durante o programa Stock Pickers, produzido pela XP. Veja mais: “Juros insustentáveis vão explodir o país”, alerta CEO da BR PartnersE também: IA enterra modelo de negócios que sustentou setor de softwareO executivo ponderou que, embora o cenário atual seja de juros elevados e desafios fiscais, a simples percepção de que o Brasil possui empresas saudáveis e uma economia que ainda respira — com desemprego em níveis baixos e inflação sob controle — foi suficiente para disparar gatilhos de investimento lá fora.BC perdeu o ‘bonde’ do ciclo de corte da SelicEssa mudança de humor já se reflete na prática com a reativação das operações de mercado de capitais. Lacerda observou um aumento significativo na taxa de conversão de mandatos em transações reais, especialmente em follow-ons e até alguns IPOs pontuais. “O resultado no M&A é função dos mandatos e da conversão desses mandatos em operações. Vimos a partir do quarto trimestre uma taxa de conversão maior”, explicou, sinalizando que o represamento de projetos dos últimos anos começa a ceder.IA não é a vilã do emprego, diz gestor da Itaú Asset — veja o verdadeiro riscoCâmara aprova urgência para projeto que aumenta faturamento de MEIsContudo, o otimismo é acompanhado de uma advertência severa sobre a política monetária. Para o CEO do BR Partners, o Banco Central pode ter “perdido o bonde” ao demorar para iniciar o ciclo de queda da Selic. Ele argumenta que a manutenção de taxas na casa dos 15% ao ano por tempo indeterminado é insustentável para o setor produtivo, empurrando até mesmo companhias robustas para processos de reestruturação de dívida e recuperação judicial.Leia tambémTrump cogita tomada da ilha de Kharg para forçar Irã a abrir Ormuz, diz AxiosO local é considerado um ponto estratégico em OrmuzLula: Para minha alegria, Haddad colocou nome para ser o governador de SPLula disse ter conversado com o ministro que “a situação política do mundo é tão grave” que não se lançar poderia significar entregar o país para o que ele chamou de “fascistas”A cultura do capital independenteDiante desse cenário de estresse, Lacerda reforça a tese que fundamentou a criação do BR Partners em 2010: a independência em relação ao balanço. Diferente dos grandes bancos de varejo, que muitas vezes enfrentam conflitos de interesse ao atuar como credores e assessores simultaneamente, o modelo de “capital as a service” permite que a instituição foque exclusivamente no interesse do cliente. “O nosso balanço é um taker (tomador) da operação, nunca o protagonista”, definiu.Essa disciplina reflete-se na estrutura enxuta do banco, que evita alavancagens excessivas e mantém um teto rigoroso de exposição por nome. Com uma carteira de crédito entre R$ 4 e R$ 5 bilhões, a instituição prefere atuar na estruturação de papéis que serão distribuídos ao mercado, mantendo no máximo 25% do risco em casa. É essa agilidade que, na visão do CEO, permite ao banco navegar pelas “escorregadas” do sistema financeiro sem comprometer sua solvência.A cultura interna, inspirada nos tempos em que Lacerda atuou no Goldman Sachs, prioriza o que ele chama de “long-term greed” — o foco no lucro de longo prazo através da defesa intransigente dos interesses do cliente. “Não é porque a gente é bonzinho, é porque a gente acha que vai ganhar dinheiro assim”, admitiu. Essa filosofia permeia todas as áreas, desde o Investment Banking até a nova vertical de Wealth Management, que tem sido reforçada com contratações seniores.O peso da incógnita políticaOlhando para o futuro, o executivo aponta que a sustentabilidade de qualquer ciclo de crescimento dependerá do desfecho do cenário político. Para ele, o Brasil vive uma polarização desgastante entre esquerda e direita, com ambos os lados apresentando fragilidades e altos índices de rejeição. Lacerda acredita que há espaço para uma “terceira via” transformacional, mencionando o nome do governador do Paraná, Ratinho Junior, como uma alternativa de centro-direita ponderada.“A candidatura dele poderia dar um horizonte de oito anos de crescimento para o Brasil”, opinou, ressaltando que uma política fiscal equilibrada e uma Brasília “menos bagunçada” poderiam potencializar o fluxo estrangeiro em níveis muito superiores aos vistos nos últimos anos. Para o executivo, o capital que entrou recentemente representa menos de 0,5% do potencial disponível, caso o país faça o “mínimo de bom senso” na lição de casa institucional.Enquanto as definições políticas não chegam, o BR Partners segue expandindo sua atuação, inclusive no exterior. O banco aderiu recentemente a um programa de ADRs para facilitar o acesso de investidores estrangeiros que desejam operar o papel da instituição sem necessariamente ter um veículo local. É mais um passo na estratégia de conectar o capital global às oportunidades de um Brasil que, mesmo “feio”, ainda consegue se destacar na vitrine dos emergentes.The post Fluxo estrangeiro volta à bolsa e Brasil se destaca por fraqueza dos rivais appeared first on InfoMoney.
