Frustração dos países do Golfo com os EUA cresce à medida que guerra se prolonga

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A frustração dos países do Golfo com os Estados Unidos por causa da guerra contra o Irã está aumentando, com governos da região questionando em privado as garantias de segurança americanas e demonstrando preocupação com a aparente falta de estratégia da administração Trump, segundo pessoas a par do assunto.Um mês após o início do conflito entre EUA e Israel contra o Irã — que os países do Golfo passaram um ano tentando evitar —, esses Estados continuam sob ataque iraniano. A Arábia Saudita interceptou, na sexta-feira, meia dúzia de drones, e dois portos do Kuwait foram atingidos. Enquanto isso, o Estreito de Ormuz — um corredor marítimo vital e linha de vida econômica para a região — permanece quase fechado, causando bilhões de dólares em perdas de receita com petróleo.Leia tambémIbovespa fecha em baixa seguindo o exterior, mas acumula ganho semanal de 3%Mercado monitora os desdobramentos da guerra no Oriente Médio, que segue sem perspectiva de desfechoBrasil tem “arma secreta” contra crise do petróleo, aponta The EconomistRevista britânica destaca etanol, biodiesel e frota flex como escudo contra a disparada dos combustíveisMuitos funcionários questionam a lógica, o comprometimento e os objetivos do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à guerra, bem como o valor de sediar bases americanas que transformaram seus países em alvos, disseram as fontes, que pediram anonimato para discutir assuntos sensíveis.Ainda assim, receosos de irritar Trump, nenhum desses governos expressou essas preocupações em público, e há pouca perspectiva de que peçam a retirada das forças dos EUA de suas bases.Alguns deles, em particular Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, vêm endurecendo a posição em relação a Teerã e consideram participar de ataques contra a República Islâmica se mais infraestrutura vital for atingida, informou a Bloomberg na quarta-feira. Um dos principais objetivos de Abu Dhabi é montar uma coalizão de países, incluindo os EUA, para pôr fim ao controle de fato exercido pelo Irã sobre o Estreito de Ormuz, segundo pessoas familiarizadas com o pensamento dos aliados do Golfo.“É inconcebível que essa agressão se transforme em um estado permanente de ameaça”, disse Anwar Gargash, conselheiro diplomático sênior do presidente dos Emirados, no início desta semana, acrescentando que qualquer cessar-fogo precisa conter a “ameaça nuclear do Irã, seus mísseis, drones e o bullying nos estreitos”.Muitos dirigentes do Golfo temem que Trump feche um acordo com Teerã que não limite a produção de mísseis balísticos nem o apoio a grupos militantes aliados, como o Hezbollah e o Hamas, disseram as fontes. Na visão deles, esse seria um desfecho possível para que Trump possa declarar vitória e encerrar uma guerra impopular nos EUA e que disparou os preços de energia no mundo.Nesse cenário, os países do Golfo temem ser deixados sozinhos para lidar com um Irã ressentido, que manteria algum controle sobre o Estreito de Ormuz, segundo essas pessoas.A administração Trump vem sinalizando aos aliados que não tem planos imediatos de realizar uma invasão terrestre ao Irã, mesmo com o envio de milhares de soldados adicionais ao Oriente Médio, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.Os países do Golfo se animaram com comentários de Trump em entrevista à Fox News nesta semana. Ele afirmou que os EUA continuarão a proteger os aliados do Golfo mesmo “se não ficarmos” no Irã. “Eles provavelmente gostariam que permanecêssemos”, disse. “Se não ficarmos, continuaremos protegendo-os. Sabemos, vocês sabem, eles têm sido muito bons.”Essas declarações vieram após encontros, em Washington, entre autoridades dos Emirados — incluindo a ministra de Estado Lana Nusseibeh e Sultan Al Jaber, que chefia a principal produtora de energia do país — e políticos americanos como o vice-presidente JD Vance.“A Casa Branca entende as implicações econômicas de manter o estreito fechado”, disse Nusseibeh em entrevista na cidade americana nesta semana. “Isso está bem claro em toda a administração. O ‘o que vem depois?’ é claramente o que as pessoas estão tentando resolver agora.”Questionada sobre o possível uso de força militar, ela disse que “todas as opções estariam sobre a mesa para manter o Estreito de Ormuz aberto”.A primeira viagem internacional oficial de Trump após assumir o cargo, no ano passado, foi para a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Catar. Juntos, eles prometeram trilhões de dólares em investimentos nos EUA, incluindo em inteligência artificial e data centers. Na semana passada, os Emirados afirmaram que o acordo de investimentos e cooperação econômica com os EUA, estimado em US$ 1,4 trilhão, segue dentro do planejado.Ainda assim, muitos na região se perguntam o que essas promessas lhes renderam, disseram as pessoas.Uma das frustrações centrais, segundo algumas delas, é que os alertas sobre a retaliação iraniana em caso de guerra foram ignorados pelos EUA. Washington, afirmam, deu mais peso aos argumentos de Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que tem relação muito próxima com Trump, há tempos sustenta que o Irã quer uma arma nuclear — algo negado pelos líderes iranianos — e que uma ação militar contra o país é necessária.Além disso, autoridades do Golfo ficaram irritadas com a decisão dos EUA de suspender temporariamente sanções sobre um grande volume de petróleo iraniano — potencialmente avaliado em mais de US$ 10 bilhões — estocado em petroleiros no mar. A medida visava ajudar a conter a disparada dos preços do petróleo bruto, mas veio num momento em que os Estados árabes do Golfo não conseguem exportar a maior parte de seu próprio petróleo por causa das ameaças iranianas a navios que cruzam Ormuz.Alguns países do Golfo estão pedindo discretamente que os EUA continuem atacando o Irã e até tentem derrubar a República Islâmica, disseram as fontes. Eles temem que qualquer coisa aquém disso permita ao Irã continuar a manter o estreito — e suas economias — como reféns, e o fortaleça ainda mais.Isso acontece mesmo com o objetivo de mudança de regime parecendo distante, ao menos por ora. Embora EUA e Israel tenham falado sobre isso nos primeiros dias da guerra, passaram a fazê-lo menos. As Forças Armadas iranianas e o governo continuam coesos, apesar do assassinato de vários altos funcionários e dos bombardeios que vêm desgastando o aparato militar do país.Agora, à medida que milhares de drones e mísseis sobrevoam cidades do Golfo árabe que deveriam ser refúgios para turistas e investidores financeiros em uma região volátil, alguns governos discutem fazer mais para diversificar suas alianças geopolíticas para além dos EUA e estreitar ainda mais os laços com a China, disseram as pessoas.Pequim não ofereceria uma garantia formal de segurança, mas os EUA também não o fizeram — e o discurso chinês, ao longo do último ano, de que é a superpotência mais previsível vem ganhando terreno, segundo essas fontes.© 2026 Bloomberg L.P.The post Frustração dos países do Golfo com os EUA cresce à medida que guerra se prolonga appeared first on InfoMoney.

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