Fundos de recebíveis começam ano com forte procura. Especialistas explicam motivos

Blog

Depois do crescimento de 9,5% no volume emitido no ano passado, com R$ 90,7 bilhões captados, os fundos de investimentos em direitos creditórios, ou FIDCs, que compram recebíveis de crédito de empresas e instituições financeiras, começam o ano com força total. O impulso tem vindo do aumento da procura dos investidores e da necessidade de capital de giro das empresas em uma economia aquecida. Um sinal do apetite do mercado pela aplicação, que paga CDI mais um adicional, foi o anúncio da captação de R$ 1 bilhão na quinta-feira (12) do FIDC da Listo, fintech de crédito voltada para o setor automotivo. Leia também: Patrimônio dos FIDCs alcança nível histórico; expectativa é por mais expansão em 2026O valor é mais que o dobro do maior fundo já captado pela empresa, de R$ 400 milhões, e equivalente a um terço de toda captação feita pela Listo desde sua fundação, em 2014, de R$ 3 bilhões, explica Olavo Cabral Netto, CEO e fundador da fintech, e que tocou ontem o sino de abertura do pregão da B3 para celebrar a captação. O valor do fundo, destinado a investidores institucionais, dará fôlego para a empresa dobrar de tamanho no curto e médio prazos e ampliar o capital de giro para a base, que processa cerca de R$ 4 bilhões por ano em transações especialmente do setor automotivo em tempo real.   Leia também: FIDCs crescem no varejo, com ganhos acima do CDI; número de contas disparaPerfil de investidor mudouNesses nove anos, com uma emissão por ano em média, a empresa conquistou um bom histórico de inadimplência baixa e trânsito entre os investidores de renda fixa, o que ajudou a ampliar o leque de compradores de cotas do Fidc, explica Cabral Netto. Hoje, a empresa já vê interesse de grandes gestoras de recursos e bancos em participar dos Fidcs. “Eles entenderam a qualidade da emissão e veem a oportunidade de investir, as gestoras estão captando muito e querem aproveitar as altas taxas de juros sem se expor demais ao risco de crédito”, explica. Do total de R$ 1 bilhão captado, R$ 700 milhões são recursos novos e R$ 300 milhões correspondem a investidores existentes que alongaram o prazo da operação. O perfil do investidor dos fundos da Listo também mudou, afirma Cabral Netto, e está mais concentrado, em seis grandes cotistas, enquanto emissões anteriores tinham até 30 cotistas. “Tivemos bastante demanda de assets grandes e clientes de grandes bancos estruturadores”, diz. Ele nota uma certa preocupação neste momento com qualidade e até a veracidade dos recebíveis. “Os investidores em geral estão muito mais criteriosos e, quando encontram bons recebíveis, têm bastante interesse”, afirma. O fundo tem três classes de cotas, com remuneração básica de CDI mais 0,70% ao ano e que pode ser maior nas duas séries de cotas mezanino, de maior risco.Cabral Netto acredita que a queda dos juros esperada para este ano vai melhorar ainda mais as condições para os negócios de FIDCs, com as empresas gerando mais recebíveis e o investidor procurando opções para investir em crédito de maneira diversificada. Os prazos dos recebíveis são curtos, mas os FIDCs têm duração de 18 a 24 meses, e há demanda para alongar as operações, afirma o CEO da Listo.Leia também: Tecnologia e economia devem estimular fusões no setor de FIDCs, indica estudoComeço agitado O mercado de emissões de FIDCs e outros títulos não costuma ser muito agitado em janeiro, mas este ano começou forte, com uma janela boa, afirma Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). “Há uma combinação de fatores, como nível mais baixo de rentabilidade de outros ativos de renda fixa, como debêntures isentas, uma captação de fundos forte ao longo dos últimos meses e que os gestores agora precisam alocar, o rescaldo dos dividendos extras pagos no fim do ano passado e ainda este ano e o dinheiro do Master voltando para o mercado”, explica.Tributação de dividendosEle acrescenta a questão da tributação de dividendos e o imposto mínimo de 10% que entrou em vigor este ano, e que tem levado grandes investidores a olharem aplicações tributadas. “Antes, o investidor só carregava títulos isentos, mas agora vai compensar ter também instrumentos tributáveis com retorno melhor e que componham a renda, e o FIDC tem a vantagem de, atendendo a algumas exigências, não ter come-cotas”, explica Maranhão, referindo-se ao imposto semestral antecipado cobrado em fundos de renda fixa e multimercados.Maior familiaridadeNo caso dos FIDC, nos últimos quatro anos, o volume emitido praticamente dobrou, de R$ 48,7 bilhões em 2022 para R$ 90,7 bilhões no ano passado. Esse crescimento é explicado pela maior familiaridade dos investidores com o instrumento, já que é um produto estruturado, com mais detalhes operacionais, que ocupa um espaço específico entre os fundos. “Em um mercado com spreads apertados, o investidor ou gestor acaba procurando alternativas com retorno maior, e o FIDC, por suas características, acaba pagando um pouco mais”, diz Maranhão. Assim, grandes gestores que trabalhavam apenas com fundos tradicionais começaram a ver uma demanda por mais diversificação e menor tributação e passaram a montar seus FIDCs específicos.Pequenas empresasOutra característica importante é que os Fidcs acabam servindo de porta de entrada para pequenas e médias empresas, que usam seus recebíveis de qualidade e de maneira pulverizada para se financiar a um custo menor do que seu próprio risco de crédito, já que o risco é do devedor do recebível, em muitos casos grandes empresas. Mesmo assim, conseguem oferecer uma rentabilidade maior para o investidor. “É isso, temos mais gente oferecendo recebíveis, mais gente querendo comprar e condições de mercado, regulatórias e tributárias favoráveis”.   FIDC em preparaçãoOutra gestora que se prepara para captar em FIDCs é a Ouro Preto Investimentos, que estuda um lançamento neste início de ano, conta Leandro Turaça, sócio-gestor. “Estamos desenhando para colocar em pé uma operação de pelo menos R$ 500 milhões, talvez para concluir em março”, diz. Ele vê um interesse maior de grandes gestoras de recursos e mesmo de gestoras tradicionais de multimercados pelos FIDCs, formando equipes para investir nessas carteiras. Há ainda a incerteza com a eleição presidencial, que aumenta a procura por ativos menos sensíveis a flutuações. “O FIDC segue mais um ciclo estrutural e econômico e, mesmo em um contexto eleitoral, o impacto é menor”, explica.A caminho do R$ 1 trilhãoSegundo Turaça, os FIDCs têm ganhado espaço no setor de fundos, com o total de carteiras crescendo 25,5%, para 3.859, enquanto o número de fundos em geral aumentou em 4,9%. Já o patrimônio cresceu 15%, para R$ 734 bilhões, ante 15,5% em volume investido em fundos em geral. Turaça estima que, entre abril e maio deste ano, o total investido em FIDCs bata R$ 1 trilhão. “O FIDC está caindo no gosto dos investidores, saindo dos institucionais para o profissional e chegando no varejo”, explica.Além disso, com a retração dos bancos no crédito após o aumento do juro no ano passado, houve um aumento da oferta de recebíveis, o que ajuda na seletividade e na qualidade do crédito dos FIDCs. “Os bancos seguraram a mão do crédito e o cliente que fazia negócio com banco agora faz com FIDC”, explica Turaça. “É o que chamamos de desbancarização do crédito tradicional”.Crescimento de 20% A rentabilidade é um atrativo dessas carteiras, que costumam acompanhar o juro do CDI mais 3% a 4% ao ano, e como o juro básico não deve cair muito neste ano, vai continuar interessante, explica. Segundo Turaça, a Ouro Preto lidera o segmento de FIDCs, com destaque para os recebíveis comerciais e industriais, as chamadas duplicatas, além de faturas de cartão de crédito e direitos creditórios judiciais, como precatórios. “Uma grande promessa para este ano são os recebíveis de consignado para o setor privado, que o mercado todo espera que seja a nova vertente”, diz.  A gestora tem hoje cerca de R$ 15 bilhões sob gestão, sendo R$ 11 bilhões de FIDCs. Ele espera um crescimento desses fundos na casa dos 20% neste ano, considerando também os rendimentos, de cerca de 13% e mais uns 4% de captação, “sendo conservador”.  Pior já passouPara Turaça, a perspectiva para os FIDCs é promissora. “Estamos saindo de um pico de juros de 15% ao ano e indo para 12%, então talvez o pior para as empresas já tenha passado, a inflação está bem monitorada e o gasto público sendo acertado com aumento de impostos”, diz. “Temos a eleição, mas se não acontecer nada fora da curva, ela não deve ter grande impacto”, diz. Há também muito interesse de investidores institucionais e bancos e a perspectiva é de melhora da qualidade do crédito com a queda da Selic. “Temos cerca de 8 mil empresas em nossos FIDCse monitoramos o risco das carteiras em tempo real e não estamos vendo sinais de um aumento de inadimplência neste início de ano”, diz.Turaça espera que o investidor de varejo também passe a aplicar em FIDCs, mas o processo ainda deve demorar. “O pequeno investidor vai comprar cotas de um fundo que investe em FIDCs e o gestor desse fundo é que vai fazer a escolha dos FIDCs que vão compor a carteira”, explica. “Mas há uma série de exigências, como só comprar cotas seniores, o que acaba restringindo um pouco o gestor de varejo”, diz. “Além disso, a demanda dos investidores qualificados e profissionais está tão forte que eles já tomam o que existe de oferta no mercado”, acrescenta.The post Fundos de recebíveis começam ano com forte procura. Especialistas explicam motivos appeared first on InfoMoney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *