Os fundos multimercados recuperaram parte das fortes perdas do mês nesta semana, em meio ao alívio dos mercados com as declarações do presidente Donald Trump de que está em negociações para encerrar a guerra com o Irã. O Índice de Hedge Funds da Anbima, IHFA, que acompanha 277 fundos multimercados, registrou alta na segunda-feira de 0,60%, reduzindo a perda no mês para -3,7%.A perda no ano até segunda-feira, dia 23 de março está agora em -0,23%, depois de bater -0,83% na sexta-feira, uma queda significativa em relação a 26 de fevereiro, quando o índice chegou a acumular alta de 4,0% no ano. Em 12 meses, o IHFA ainda acumula alta, de 13,98%, ante 14,85% do CDI.Essa melhora recente reflete tanto a recuperação do Índice Bovespa como a queda do dólar diante do real e a alta das bolsas internacionais. A redução dos juros longos também ajudou, pois trouxe ganhos para títulos de longo prazo do Tesouro, as NTN-Bs, e para papéis de empresas, o que beneficiou muitos multimercados que carregam esses títulos ou são também fundos de crédito.Leia também: Trump estende até 6 de abril trégua em ataques a infraestrutura de energia do IrãMaioria tem perdasA recuperação de cada carteira vai depender, porém, das posições que esses fundos mantiveram nesses mercados, já que muitos reduziram suas apostas após as fortes perdas do começo do mês com o início da guerra. Olhando individualmente, as perdas neste mês seguem elevadas para alguns fundos. Levantamento feito pelo Infomoney com ferramenta de fundos da Economática mostra que, entre 365 fundos multimercados com patrimônio superior a R$ 500 milhões, somente 156 não têm perdas neste mês, até dia 24. A maioria dos que ganham são fundos de crédito privado, com rendimentos de até 3% em março. Nos outros 209 fundos, as perdas no mês chegam a até 15%. Considerando o ano, 276 ainda têm ganhos. As maiores perdas são de multimercados com maior risco, com índices de volatilidade acima de 10% ao ano, ou seja, que podem perder no pior cenário mais de 10% em um ano. São fundos nos quais o investidor deve estar preparado para maiores oscilações, tanto para cima como para baixo. E costumam ser também os fundos que se recuperam mais rapidamente caso os mercados melhorem. Quem saca desses fundos nos momentos de queda forte acaba perdendo a recuperação.Volatilidade deve continuar altaAinda é cedo para caracterizar uma recuperação dos fundos multimercado como classe, afirma Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos. No curto prazo, é esperado que a volatilidade permaneça acima da média, com os mercados de risco globais sensíveis ao noticiário e às interpretações sobre eventos recentes. “A leitura dos desdobramentos e da consistência das informações divulgadas tem influenciado o comportamento dos ativos”, diz. Ele dá como exemplo o anúncio recente de cessar-fogo de curta duração que inicialmente gerou reação positiva nos mercados, seguida por reversão nos dias posteriores.De olho nas tendências A recuperação da classe de multimercados tende a depender da consolidação de tendências mais claras no cenário, afirma Santos. Eventos recentes no contexto internacional aumentaram o nível de incerteza e, independentemente da direção futura, os fundos multimercado possuem instrumentos para ajustar suas posições e buscar maior consistência de retornos. Fundos com maior rigidez de alocação, como os balanceados ou com estratégias mais restritas, podem apresentar recuperação mais gradual. Já estratégias mais táticas, como os de arbitragem, ou long & short, tendem a apresentar menor volatilidade relativa e maior agilidade na retomada. Dentro das subclasses, fatores como o nível de risco assumido, a flexibilidade do mandato e a capacidade de adaptação do gestor são determinantes para o desempenho, afirma Santos.Leia também: Ouro fecha em queda em meio aos desdobramentos do conflito no Oriente MédioCapacidade do gestor A exposição ao risco influencia tanto as perdas em momentos adversos quanto o potencial de recuperação em cenários favoráveis, explica. Assim, alocações mais arriscadas podem resultar em maior volatilidade, mas também em retomadas mais rápidas. “Um fator central é a capacidade do gestor de interpretar o cenário e ajustar as posições de forma dinâmica, considerando os possíveis desdobramentos”, avalia.Fundos long & short, especialmente aqueles com abordagem neutra, tendem a apresentar menor volatilidade relativa, uma vez que buscam retorno na diferença entre ativos, como entre uma carteira de ações e um índice de referência. Nos fundos macro, o desempenho está relacionado ao tipo de tendência identificada e ao horizonte de investimento adotado. “Estratégias com visão de mais longo prazo tendem a absorver melhor oscilações de curto prazo ao longo do tempo”, diz.Além da economiaPara Santos, à medida que o nível de incerteza diminua, seja por estabilização ou por maior clareza nos eventos internacionais, os fundos tendem a ter melhores condições de identificar tendências. No momento, o ambiente ainda apresenta desafios adicionais para a tomada de decisão, por envolver fatores que vão além de aspectos estritamente econômicos, caso da guerra no Irã.No longo prazo, gestores consistentes podem obter retornos superiores ao mercado, com a volatilidade sendo diluída ao longo do tempo. Ainda assim, existem riscos relevantes, como as regras do fundo, a adequação ao perfil do investidor, o uso de alavancagem, incluindo a possibilidade de perdas superiores ao capital investido, e a correlação com os demais ativos do portfólio. “Em contrapartida, os fundos multimercado oferecem diversificação de estratégias, acesso a diferentes mercados e uma gestão profissional, o que pode contribuir positivamente para o desempenho agregado do portfólio”, afirma Santos.The post Fundos multimercados ensaiam recuperação, mas seguem com perdas appeared first on InfoMoney.
