O fluxo histórico de capital estrangeiro para a América Latina nos primeiros meses de 2026 — o maior desde 1991 — está gerando um efeito colateral preocupante: a complacência fiscal nos países da região. Com câmbios apreciados e ativos em alta, governos que deveriam aproveitar a janela favorável para ajustes estruturais optam pela inércia, enquanto valuations se tornam progressivamente menos atrativos para novos investidores.O alerta vem de Bruno Bak, head da mesa Artax da Itaú Asset, uma das operações de investimento mais acompanhadas do mercado doméstico. Para ele, a bonança externa está servindo de anestesia política. “Quando a maré sobe, todos os barcos sobem. Quando a maré seca é que você vê quem está nadando pelado”, afirmou, parafraseando Buffett para descrever o momento atual dos emergentes.Veja mais: IA enterra modelo de negócios que sustentou setor de softwareE também: IA vai eliminar os empregos mais bem pagos, e o processo já começouA avaliação foi feita no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo. O diagnóstico central de Bak é de cautela — e ele não poupa nem o Brasil nem seus vizinhos na análise.O gestor divide o ciclo recente do dólar em três fases. Até o chamado Liberation Day, havia um ambiente de dólar muito forte, no qual o investidor estrangeiro alocado nos EUA era protegido mesmo em correções de bolsa. “Mesmo quando a bolsa americana corrigia, o dólar ficava tão forte que, para o portfólio em euros ou em reais, era bom”, explicou. A partir daí, a correlação se rompeu.Ataque ao Irã não derruba bolsas e gestores apontam erro fatal do regimeProdutividade turbinada por IA abre espaço para juros mais baixos, diz KapitaloO dólar fraco e a nova geografia do capitalCom o Liberation Day, a bolsa americana caiu ao mesmo tempo em que o dólar se enfraqueceu — um choque duplo que forçou uma revisão global de portfólios. Embora os prognósticos iniciais de recessão americana tenham se mostrado excessivamente pessimistas — “a grande maioria das pessoas errou”, admitiu Bak —, a mudança de percepção de risco já estava feita. O capital passou a buscar outras geografias.O mecanismo é simples: os EUA têm déficit em conta corrente e precisam de financiamento externo. Quando os ativos americanos perdem atratividade relativa e parte das compras passa a ser “hedgeada”, o dólar se enfraquece estruturalmente.“O fato de você comprar menos, e uma parte de você comprar hedgeado, faz com que o dólar se enfraqueça contra o resto do mundo”— Bruno Bak, head da mesa Artax da Itaú Asset.Para 2026, Bak vê o cenário ainda favorável aos emergentes, mas com ressalvas crescentes. “Estou nesse campo também do dólar mais fraco, que o mundo ainda é favorável aos emergentes”, disse. O problema, na sua leitura, é que a janela aberta não está sendo aproveitada pelas políticas domésticas da região.Os exemplos são concretos. No México, o Banxico sinaliza cortes de juros entre 50 e 100 pontos-base ao longo do ano, mesmo com inflação projetada em 4% no headline e 4,5% no núcleo — acima da meta de 3%. Na Colômbia, com eleições para o Congresso em março e para presidente em junho, “não está sendo feito nada” para corrigir uma situação fiscal que Bak classificou como “horrível”. “O peso colombiano está 0 a 0 no ano, uma situação horrorosa”, resumiu.Leia tambémMemecoin de Trump dispara até 60% com evento em Mar-a-Lago promovendo o presidenteA conferência Fight Fight Fight, em 25 de abril, é anunciada como um almoço de gala com Trump, de acordo com o site do eventoMagalu (MGLU3) fecha em leve queda após chegar a saltar 8% com balanço do 4TMagalu reportou números ainda pressionados por ventos contrários macroeconômicos e elevado nível de alavancagemChile como exceção — e como espelhoEm meio ao diagnóstico regional sombrio, o Chile surge como contraponto. Recém-eleito com promessa de consolidação fiscal, o país já colhe frutos: a moeda apreciou, a bolsa subiu e as projeções de PIB para o próximo ano superam 2,5%. “Só a promessa de uma pequena consolidação fiscal fez a moeda apreciar para caramba”, apontou Bak. O exemplo não é trivial — o Chile parte de um déficit nominal de 3% e dívida baixa, condições incomparavelmente mais confortáveis que as do Brasil.A mensagem implícita é direta: quem fizer o dever de casa enquanto a janela está aberta será premiado de forma desproporcional. “Não há dúvida, quem faz o dever de casa quando a maré está alta vai ser premiado”, disse o gestor. O Brasil, nesse contexto, aparece como o caso mais sensível — e mais complexo — da região.A entrada massiva de capital externo nos primeiros meses do ano inflou os valuations das maiores empresas da bolsa. “Você tem muita empresa dessas mais líquidas fazendo trader a três desvios padrões da média histórica em termos de preço/lucro”, observou Bak. O fluxo estrangeiro beneficiou principalmente o primeiro tier da bolsa — commodities, bancos, empresas com maior liquidez —, enquanto small caps e empresas mais domésticas ficaram para trás, dependendo do comprador local para se mover.O capital que chegou, porém, tem características que preocupam: é majoritariamente hedge funds e ETFs, com horizonte curto e lógica temática. “É um dinheiro que faz menos conta, é um dinheiro mais temático”, descreveu o gestor. Na sua metáfora, é capital “fazendo turismo” — e pode ir embora com a mesma velocidade com que entrou.The post Gestor alerta: euforia com emergentes pode esconder risco eleitoral no Brasil appeared first on InfoMoney.
