IA, commodities e energia limpa: os quatro pilares que fazem o gringo querer o Brasil

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O mundo está mudando de forma acelerada e o capital externo está refazendo suas apostas.Num cenário em que a inteligência artificial exige investimentos físicos colossais, as guerras redefinem rotas comerciais e a desinflação global pressiona juros para baixo, o Brasil aparece no radar dos grandes alocadores internacionais com uma combinação rara: commodities, energia renovável abundante, juros altos com espaço para cair e distância segura dos conflitos geopolíticos.Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased, foi quem sistematizou o argumento com mais precisão. Para ele, o interesse estrangeiro no Brasil não é passageiro nem superficial — tem quatro pilares estruturais que explicam por que o fluxo de capital externo para o país tem resistido até ao caos de uma guerra no Oriente Médio. “O Brasil é visto como um país de commodities. A correlação do real com commodities é muito alta”, disse o gestor.Foi esse o debate travado no Aftermarket, do Stock Pickers, com apresentação de Lucas Collazo, reunindo Reider, Leonardo Linhares, head de Ações da SPX Capital, e Christian Keleti, CEO da Alpha Key, numa análise que misturou entusiasmo com cautela sobre até onde vai o rali brasileiro.Veja mais: Fluxo estrangeiro volta à bolsa e Brasil se destaca por fraqueza dos rivaisE também: “Juros insustentáveis vão explodir o país”, alerta CEO da BR PartnersO primeiro pilar identificado por Reider é direto: num ciclo global de investimentos massivos em inteligência artificial, o mundo vai precisar de muito capital físico. Quem tem ativos reais — terras, minérios, energia, infraestrutura — sai na frente. O Brasil, com sua base exportadora de commodities, está exatamente nesse perfil. O segundo pilar é mais sofisticado: a IA deve provocar uma onda desinflacionária global que, por sua vez, derrubará juros ao redor do mundo. Quem mais se beneficia disso são justamente os países que hoje convivem com juros altos. “Os juros vão colapsar no mundo. O Brasil poderia cortar muitos juros e a moeda poderia ficar valorizada por um tempo. Para o Brasil seria muito bom”, avaliou Reider.Larry Fink vê risco de IA ampliar distância entre ricos e o restante da populaçãoMinistros das Relações Exteriores do Irã e de Omã discutem Estreito de OrmuzData centers, cabos submarinos e a nova exportação brasileiraO terceiro pilar surpreende pela originalidade. Data centers de inteligência artificial consomem energia em escala industrial — e precisam, de preferência, que essa energia seja renovável. O Brasil tem uma das maiores proporções de energia limpa do mundo em sua matriz elétrica e potencial enorme de expansão. Para Reider, isso coloca o país numa posição única: “É quase que um jeito do Brasil exportar energia renovável. Você cria um data center aqui, perto dos cabos submarinos, e manda os dados para o mundo desenvolvido.”Em outras palavras: converter energia renovável em processamento de dados e exportar o resultado pela infraestrutura de cabos já instalada.O quarto e último pilar é geopolítico. Num mundo em que conflitos no Oriente Médio ameaçam o fornecimento de energia, tensões entre China e Taiwan perturbam cadeias de suprimentos e a Europa segue pressionada, o Brasil tem um ativo intangível mas valioso: está longe de tudo isso. “Tem vários cenários onde algumas geografias ganham e outras perdem. O Brasil meio que só tem prós”, resumiu Reider. A ironia, contudo, não escapou ao gestor, que lembrou uma frase do presidente Lula: “O Lula falou que vocês têm que votar em quem tem sorte. Nesse aspecto, não dá para discutir muito.”Leia também“Latam proxy”: por que o Brasil virou porta de entrada dos gringos em emergentesO Brasil está sendo chamado de Latam proxy lá foraNa crise, proteger a carteira ficou caro demais — e gestores preferiram andar leveMetade da bolsa brasileira está nas mãos de investidores estrangeirosO limite do otimismo: sem ajuste fiscal, rali não se sustentaPara Linhares, “não dá para o Brasil continuar subindo muito se você não começar a ter algum tipo de melhora. Se a gente não tiver uma melhora interna relevante, fica bem difícil você ter retornos muito acima do custo de oportunidade em bolsa brasileira.”O gestor apontou um problema concreto: o ciclo de juros que se desenhava antes da guerra — com a Selic convergindo para 11% ou 12% e amplo espaço para cortes — ficou mais nebuloso. “Eu acho que vamos terminar o ano com juros maiores do que esperávamos”, disse. Com juros mais altos por mais tempo, o equity risk premium se aperta e a comparação entre ação e título público fica cada vez menos favorável para quem opera com a régua do investidor local.Eleição como catalisador — ou como riscoA saída do impasse, para os três gestores, pode vir da política. Keleti foi o primeiro a apontar o calendário eleitoral como potencial catalisador, e Linhares endossou a leitura: “Daqui a seis meses nós temos uma eleição. Pode ser que a gente tenha uma melhora e coloque o Brasil no caminho correto na discussão macroeconômica.” Mas Reider fez questão de separar a narrativa de médio prazo da realidade de curto prazo. Por mais promissoras que sejam as teses estruturais — terras raras, data centers, energia renovável —, implementá-las é outra conversa. “O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras, mas para desenvolver isso é muito complexo. Ter data centers do tamanho necessário para IA, a gente não tem condição nenhuma de fazer isso hoje.”O diagnóstico final dos três gestores converge para o mesmo ponto: o fluxo estrangeiro é real, a narrativa é sólida e os fundamentos de médio prazo favorecem o Brasil. Mas transformar isso em retorno sustentável de bolsa depende de algo que nenhum alocador de Nova York vai resolver por aqui — arrumar a casa.The post IA, commodities e energia limpa: os quatro pilares que fazem o gringo querer o Brasil appeared first on InfoMoney.

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