Na crise, proteger a carteira ficou caro demais — e gestores preferiram andar leve

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Quando a guerra no Irã derrubou os mercados em março, o instinto natural de qualquer investidor seria correr para montar proteção. Mas foi exatamente nesse momento que o mercado brasileiro mostrou uma de suas limitações estruturais mais sérias: proteger uma carteira de ações no Brasil, na prática, é caro demais para justificar. O caminho convencional seria comprar opções de venda sobre a bolsa — uma estrutura que garante resultado positivo ao investidor em caso de queda. O problema é que ele começa logo na largada.Para que o banco ofereça essa proteção, ele precisa vender ações a descoberto no mercado. E para vender a descoberto, precisa tomar ações emprestadas. É aí que o mecanismo trava. Metade da bolsa brasileira está nas mãos de investidores estrangeiros — e esses investidores, por regra, não podem alugar suas ações. Se o fizessem, passariam a receber o recibo da B3, que carrega classificação abaixo do grau de investimento, o que é vedado para grande parte desses fundos.Veja mais: Gringo entra forte no Brasil e local pode perder a próxima alta, dizem gestoresE também: Aftermarket: Com Hormuz fechado e caos global, um Trump sem saída assusta mercadosO diagnóstico foi feito no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo e Davi Fontenele, com Alexandre Aagesen, gestor de portfólio da XP Advisory, como convidado. A conversa expôs um problema que vai além da crise pontual e revela uma fragilidade crônica do mercado local de derivativos.“É difícil tomar aluguel no Brasil, porque você tem 50% da bolsa parqueada na mão de gringo, que por definição não pode alugar”, disse Fontenele. Com menos ações disponíveis para empréstimo, o custo da operação sobe — e esse custo é repassado integralmente ao preço da proteção, tornando-a proibitiva justamente quando mais seria necessária.Volatilidade cara por razão estrutural, não conjunturalO efeito direto dessa limitação é que a volatilidade implícita dos ativos brasileiros — o indicador que baliza o preço das opções — fica sistematicamente inflada. Não por causa do estresse do momento, mas por uma questão de arquitetura do próprio mercado. “A volatilidade do Brasil hoje é negociada a patamares mais caros do que a gente acha que deveria, mas é por uma questão estrutural”, disse.Diante desse quadro, a resposta da maioria dos gestores durante a crise de março foi pragmática: em vez de pagar caro por proteção, simplesmente reduziram o tamanho das apostas. Andaram mais leves. Não houve mudança de convicção sobre a direção dos mercados — houve uma decisão de apertar o cinto até o cenário ficar mais legível.“Os gestores não mudaram a visão sobre as direções do mercado. O que fizeram foi uma reavaliação dos mercados em que a simetria, o risco-retorno, estava menos atrativo — foram lá e zeraram a posição”, resumiu.“Deixaram só as exposições nos países que sofreriam menos, cujas curvas de juros teriam menos abertura em função do conflito.”— Alexandre Aagesen, gestor de portfólio da XP AdvisoryUma solução que alguns gestores têm tentado para contornar a dificuldade do aluguel doméstico é externalizar a operação: abrir conta no exterior e fazer a venda a descoberto via ADRs — os recibos de ações brasileiras negociados nos Estados Unidos —, onde a liquidez é maior e o mecanismo funciona com menos atrito.Leia tambémGuerra no Irã pega fundos multimercados surfando emergentes e vira maré em diasConflito no Oriente Médio derrubou bolsas, abriu curvas de juros e fez fundos multimercados registrarem, em março de 2026, terceira maior queda desde 2007Diversificar é a única proteção que não tem preçoSe a proteção via derivativos ficou cara demais, resta ao investidor uma alternativa mais simples — e mais ao alcance de qualquer um: diversificar entre fundos com estratégias diferentes. O dado mais revelador apresentado no programa é que, mesmo entre os fundos long short — estratégia que em tese oferece mais proteção natural em quedas —, há uma dispersão expressiva de resultados. Alguns navegaram bem, outros não. “O único sentido de você escolher dez fundos em vez de três é porque você reconhece que sempre existe dispersão de retornos”, disse.A lógica por trás disso é direta: até os melhores gestores de longo prazo passam por janelas ruins. Se o investidor concentrou tudo em três fundos e os três estão no fundo do ranking ao mesmo tempo, a tentação de resgatar no pior momento é quase irresistível — e resgatar no pior momento é a forma mais eficiente de destruir retorno. “A diversificação é quase uma salvaguarda para você conseguir não resgatar o tal do melhor fundo que você julga”, completou.Uma última curiosidade que emergiu do debate: em outro momento do mercado, entrar em fundos long short exigia colocar o nome em lista de espera. Hoje, todos estão abertos para captação. “Antigamente, tinha que colocar o nome numa lista. Era extremamente demandado. Hoje em dia, você compra qualquer fundo aí, porque está tudo aberto”, disse Fontenele — um sinal discreto, mas eloquente, de como o humor do investidor em relação à indústria mudou.EUA discutem cessar-fogo de 1 mês com Irã e acordo nuclear duro, diz mídia israelenseEUA enviam ao Irã plano em 15 pontos para encerrar guerra, diz fonteThe post Na crise, proteger a carteira ficou caro demais — e gestores preferiram andar leve appeared first on InfoMoney.

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