Por que o Japão, esquecido por décadas, virou a nova aposta do capital global?

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Por mais de 30 anos, o Japão foi lembrado como o país das “décadas perdidas”, dos juros negativos e da estagnação crônica. Agora, porém, o antigo centro do capital global volta a ocupar espaço nas mesas de gestores e estrategistas. A combinação de reformas de governança, câmbio desvalorizado e normalização gradual da política monetária reacendeu o interesse por um mercado que já foi sinônimo de euforia e hoje começa a ser visto como uma grande história de reprecificação.“Quando o investidor olha para o mundo em busca de diversificação, encontra no Japão um mercado grande, líquido e que passou anos barato demais”, afirma Lucas Collazo, apresentador do Stock Pickers. “Não é um novo milagre econômico, mas é uma mudança estrutural que reduz riscos e abre espaço para um re-rating.”Leia também: Governo do Japão diverge sobre benefícios da desvalorização do ieneNos anos 80, o Japão concentrava cerca de 45% do valor de mercado global em ações. Tóquio era o epicentro financeiro do planeta, o Nikkei se multiplicava e o país era visto como o modelo econômico definitivo. Três décadas depois, o mesmo Japão se tornaria o símbolo da estagnação, com crescimento fraco, inflação baixa e políticas monetárias extremas.O que mudou agora não foi um choque súbito de crescimento, mas a percepção de que, após uma longa digestão dos excessos, a engrenagem corporativa e financeira voltou a girar. “O mercado começa a entender que existe uma assimetria interessante: empresas mais eficientes, múltiplos ainda descontados e um câmbio que ajuda os lucros”, diz Collazo.Leia também: Premiê do Japão dissolve o Parlamento e abre caminho para eleição no dia 8Das raízes industriais ao modelo que travou o capitalPara entender o Japão de hoje, é preciso voltar ao século XIX. A Restauração Meiji, em 1868, marcou a ruptura com o feudalismo e o início de um projeto estatal de industrialização acelerada, com importação de tecnologia e criação de um sistema educacional moderno.Nesse processo surgiram os grandes conglomerados, os zaibatsu — mais tarde reorganizados nos keiretsu — como Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo. Eles integravam bancos, indústria, comércio exterior e logística, permitindo coordenação de investimentos em larga escala e a construção de uma poderosa base industrial.Leia também: BC do Japão mantém taxa de juros mas volta a sinalizar mais aumentosO modelo foi decisivo para o salto econômico do pós-guerra, quando o Japão cresceu perto de 9% ao ano e se tornou a segunda maior economia do mundo, dominando setores como aço, construção naval, eletrônicos e automóveis.Com o tempo, porém, a mesma estrutura passou a gerar ineficiências. As participações cruzadas reduziram a pressão por rentabilidade, protegeram gestores e mantiveram capital preso em ativos pouco produtivos, o que ajudou a derrubar o retorno sobre patrimônio das empresas.A bolha dos anos 80 e o início das décadas perdidasO auge veio na segunda metade dos anos 80. Após o Acordo do Plaza, em 1985, o iene se valorizou rapidamente e o Banco do Japão respondeu com uma enxurrada de liquidez. O dinheiro inflou imóveis e ações, criando a maior bolha de ativos da história moderna.Em 1989, o Nikkei atingiu seu topo histórico. Estimativas da época diziam que o terreno do Palácio Imperial de Tóquio valia mais do que toda a Califórnia. O Japão era, sem exagero, o centro do capital global.O estouro da bolha deu início às chamadas décadas perdidas: crescimento fraco, deflação, bancos carregando ativos problemáticos e juros que foram a zero — e depois negativos. O país virou laboratório de políticas monetárias não convencionais e deu origem ao termo “japonificação”.Leia também: Japão intensifica ameaça de intervenção cambial com iene próximo de 160 por dólarA demografia agravou o quadro. O rápido envelhecimento da população reduziu o consumo, aumentou gastos públicos e limitou o potencial de crescimento. Para o investidor estrangeiro, o Japão passou a ser visto como uma armadilha de valor: grande, líquido, mas sem catalisadores.Leia tambémTrump e Schumer avançam em acordo para evitar paralisação do governo dos EUA, diz NYTA notícia surge depois que os democratas do Senado pediram novas restrições aos agentes de imigração no início do diaGovernança, câmbio e o início de um re-ratingA virada começou de forma silenciosa. A partir da década passada, reformas de governança corporativa ganharam força. Em 2023, a Bolsa de Tóquio passou a pressionar explicitamente as empresas a focarem em custo de capital e retorno ao acionista, incentivando dividendos, recompras e a venda de ativos não estratégicos.“Isso é uma mudança cultural profunda para um mercado acostumado a priorizar estabilidade e não rentabilidade”, destaca Collazo. “Quando a empresa passa a ser cobrada por eficiência de capital, a lógica do valuation muda.”Em 2024, o Banco do Japão encerrou oficialmente a era dos juros negativos, sinalizando uma normalização gradual. Ao mesmo tempo, o iene permanece fraco, favorecendo exportadores e aumentando lucros em moeda local, o que torna os ativos japoneses ainda mais atrativos para investidores estrangeiros, especialmente com proteção cambial.Essa combinação de governança em melhora, múltiplos descontados e câmbio competitivo cria, segundo analistas, uma das histórias mais claras de reprecificação entre os grandes mercados globais.Leia também: Empresário japonês desembolsa US$ 3,2 milhões por atum de 243 quilos em leilãoO Japão no novo mapa do capital globalO retorno do Japão ao radar ocorre em um contexto de busca por diversificação fora dos Estados Unidos, onde os valuations estão elevados e os déficits fiscais aumentam. Gestores globais procuram mercados com escala, liquidez e potencial de re-rating — características que o Japão reúne como poucos.“Depois de 30 anos fora do centro das atenções, o país volta a ser relevante não por euforia, mas por estrutura”, resume Collazo. “É o mercado aceitando pagar mais por ativos que ficaram baratos por tempo demais porque o risco estrutural diminuiu.”Leia também: Japão propõe gastos orçamentários recordes enquanto contém novas dívidasNão se trata de repetir o milagre econômico do pós-guerra nem a exuberância dos anos 80. O movimento atual é mais silencioso e gradual, sustentado por mudanças institucionais e microeconômicas.O Japão, que já foi o coração do capital global e depois o símbolo máximo da estagnação, tenta agora escrever um novo capítulo: o de um mercado maduro que, após três décadas de ajustes, volta a ser visto como uma peça central na alocação global.The post Por que o Japão, esquecido por décadas, virou a nova aposta do capital global? appeared first on InfoMoney.

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