O fundador da Bridgewater Associates, Ray Dalio, afirmou a líderes globais e executivos que parem de fingir que as regras antigas ainda valem. Em conversa com Kamal Ahmed, da Fortune, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Dalio fez um alerta duro sobre o cenário geopolítico atual e disse que o destino da ordem global do pós-Segunda Guerra — amplamente debatido em meio à investida do presidente Donald Trump sobre a Groenlândia e ao abalo na Otan — já está decidido.“Não sejamos ingênuos e digamos: ‘Ah, estamos quebrando o sistema baseado em regras’”, afirmou Dalio. “Ele já acabou.”O bilionário, fundador do maior hedge fund da história, acrescentou que, como estudioso da história financeira, acompanha de perto os ciclos econômicos dos últimos 500 anos e vê padrões que se repetem ao longo do tempo.“E o que aprendi com esse exercício é que a mesma coisa acontece repetidamente”, disse. “Para mim, é como um filme. É como assistir ao mesmo filme de novo.”Leia tambémGoverno Trump busca mudança de regime em Cuba até o fim do ano, diz WSJSegundo fontes ouvidas pelo WSJ, avaliações internas do governo americano apontam que a economia cubana está próxima do colapso e mais frágil do que nunca, especialmente após a queda de MaduroTrump diz ter esboço de acordo sobre Groenlândia com Otan e recua de tarifas à EuropaApós reunião com secretário-geral da aliança, presidente afirmou ter “estrutura de futuro acordo” para Groenlândia e Ártico e cancelou tarifas contra aliados da EuropaSegundo Dalio, cinco forças específicas interagem para mover a trama, tendo o “ciclo de dinheiro e dívida” como o elemento que dá início aos eventos. As raízes da instabilidade atual, explicou, estão nas decisões monetárias tomadas ao longo das últimas décadas. Desde 1971, quando os EUA, sob o presidente Richard Nixon, romperam o vínculo do dólar com o ouro, os governos têm optado de forma recorrente por “imprimir dinheiro” em vez de permitir que crises de dívida sigam seu curso natural. Isso ocorre quando o serviço da dívida cresce mais rápido do que a renda, comprimindo o consumo. Após mais de meio século desse comportamento, argumentou Dalio — repetindo um alerta frequente em suas falas públicas — o mundo assiste agora a um “colapso da ordem monetária”, evidenciado pela mudança na composição das reservas dos bancos centrais e pela compra de ouro.Guerras de capitalNo dia anterior, em entrevista ao Squawk Box, da CNBC, à margem do encontro anual em Davos, Dalio disse que moedas fiduciárias e dívida como reserva de valor “já não estão sendo mantidas pelos bancos centrais da mesma forma”. Ele apontou uma dissociação em que os mercados dos EUA passaram a ter desempenho inferior ao de mercados estrangeiros em métricas específicas, tendência visível nos balanços dos bancos centrais globais.O núcleo da preocupação de Dalio está na transição de disputas comerciais para o que ele chama de “guerras de capital”. Ele lembrou que os títulos do Tesouro dos EUA foram, por décadas, a base das reservas globais, mas afirmou que o volume de dívida emitida pelos Estados Unidos agora colide com um apetite global menor para mantê-la.“Há um problema de oferta e demanda”, observou Dalio, acrescentando: “Não dá para ignorar a possibilidade de que talvez não exista a mesma disposição para comprar dívida americana”.Essa relutância é impulsionada por fricções geopolíticas. Segundo Dalio, em períodos de conflito internacional, “nem mesmo aliados querem manter a dívida uns dos outros”, preferindo direcionar capital para moedas fortes. Esse movimento obriga o emissor da dívida a monetizá-la, fenômeno que Dalio resumiu de forma direta: “Estamos comprando cada vez mais o nosso próprio dinheiro. Essa é a lição de tudo isso”.A força bruta de TrumpEnquanto Dalio falava na segunda-feira, os mercados enfrentavam uma venda global após a revelação de que o presidente Donald Trump estaria exigindo que os EUA assumissem o controle da Groenlândia em resposta a não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz de 2025. Segundo relatos confirmados no fim de semana, Trump teria enviado mensagens irritadas ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, apesar de o Comitê Nobel funcionar de forma independente do governo norueguês. Já na terça-feira, as declarações de Dalio ocorreram em um ambiente de mercados mais calmos, após Trump reiterar o pedido pela Groenlândia, mas afirmar que não autorizaria o uso da força para obtê-la.Essa instabilidade econômica alimenta diretamente o colapso das normas políticas, disse Dalio à Fortune. Ele argumentou que a ordem multilateral criada em 1945 — marcada por instituições como a ONU e a Organização Mundial do Comércio — já nasceu, em certa medida, como um “sistema ingênuo”, por depender de representação sem mecanismos garantidos de execução.“O que acontece quando a potência líder não quer acatar a votação?”, questionou Dalio. “Você realmente espera que uma votação na ONU ou um tribunal internacional resolva essas questões?”O resultado, segundo ele, é uma mudança clara de um sistema multilateral para um unilateral. A questão central do nosso tempo passou a ser, na visão de Dalio: “Quem faz as regras, quem as impõe e como lidar com isso?”Talvez o aspecto mais inquietante de sua análise seja a erosão da autoridade legal em favor da força bruta. “O poder importa mais” do que a lei, disse à Fortune, observando que conflitos são cada vez mais decididos por quem controla as Forças Armadas, a polícia e a Guarda Nacional. Essa tendência aparece não apenas no plano internacional, mas também dentro dos países, onde a democracia é ameaçada pelo populismo e pela crença crescente de que o sistema é corrupto.Questionado se essa ruptura deveria assustar conselhos de administração e CEOs que por décadas confiaram em regras globais estáveis, Dalio respondeu que ignorar a realidade é ainda mais perigoso.“O que sempre me assusta é a falta de realismo”, afirmou.Líderes devem se concentrar em ‘questões de jurisdição’Dalio aconselhou líderes a parar de depender de um sistema baseado em regras que está se dissolvendo e a focar em “questões de jurisdição”, buscando locais onde as pessoas sejam “afins” e se apoiem mutuamente. Seja em fronteiras internacionais ou em regulações domésticas, ele insiste que as empresas precisam encarar a dura realidade de que a era da proteção legal garantida está chegando ao fim.“A lei vai prevalecer?”, perguntou Dalio. “No plano internacional, todos estão tendo de lidar com essa questão.”Com a confiança nas instituições, no próprio direito e na dívida denominada em moedas fiduciárias em queda, Dalio destacou à CNBC o retorno silencioso, porém relevante, do ouro. Ele ressaltou que o metal não deve ser visto apenas como ativo especulativo, mas como “a segunda maior moeda de reserva” do mundo. No ano anterior, observou, o ouro foi o mercado que mais se valorizou e teve desempenho muito superior ao das ações de tecnologia, à medida que bancos centrais diversificaram suas reservas. O CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, fez comentários semelhantes em entrevista à Fortune durante a conferência Most Powerful Women, em outubro, ao dizer que, pela primeira vez em sua vida, passou a ser “semi-racional” ter ouro na carteira.Apesar do tom duro, a visão de Dalio não é inteiramente defensiva. Ele afirmou enxergar a atual fase como uma bifurcação entre uma ordem monetária em decadência e uma “maravilhosa revolução tecnológica”, ecoando declarações feitas por Trump no palco, mais cedo naquele dia, sobre um “milagre econômico” em curso. Nesse aspecto, ao menos, a força pode acabar se impondo.2026 Fortune Media IP LimitedThe post Ray Dalio diz que Trump já acabou com regras da ordem global: ‘Não sejamos ingênuos’ appeared first on InfoMoney.
