O presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita uma recepção luxuosa em Washington, oferecendo um acordo de defesa que inclui aviões de guerra de última geração e o absolvendo do assassinato de um colunista de jornal em 2018.Menos claro foi o que Trump recebeu em troca.Leia tambémCristiano Ronaldo vai a jantar na Casa Branca e recebe elogios de Donald TrumpEm recente entrevista, o veterano atacante de 40 anos disse que gostaria de ter uma conversa agradável com Trump no futuro para debater sobre “a paz global”Harvard vai apurar laços de Summers com Epstein após investigação do governo TrumpA investigação ocorre após troca de e-mails entre Larry Summers e Jeffrey Epstein vir à tona na semana passadaO líder americano recebeu Mohammed bin Salman com uma dúzia de soldados carregando bandeiras a cavalo, uma banda do Corpo de Fuzileiros Navais tocando na varanda da Casa Branca e um sobrevoo dos caças F-35 que os sauditas cobiçam há muito tempo. A Casa Branca disse depois que os dois países assinaram um pacto de cooperação em defesa com termos vagos, e Trump designou a Arábia Saudita como um “aliado importante fora da OTAN” durante um jantar em homenagem ao seu aliado de 40 anos.O pomposo evento foi equivalente ao que o príncipe herdeiro ofereceu a Trump em sua visita à Arábia Saudita no início deste ano. Em troca, Trump recebeu uma promessa vaga de que os sauditas investiriam até US$ 1 trilhão nos EUA — acima da promessa anterior de US$ 600 bilhões. Isso se soma a trilhões de dólares em promessas semelhantes que Trump recebeu em acordos comerciais com outros parceiros, e que especialistas dizem que podem nunca se concretizar.Foi uma vitória para MBS, como é conhecido o líder de fato da Arábia Saudita, que buscou reparar e aprofundar os laços com os EUA enquanto usava relações mais próximas com a China como alavanca. Trump elogiou repetidamente o príncipe herdeiro, chamando-o de “um grande amigo meu” e dizendo que ele fez coisas incríveis “em termos de direitos humanos e tudo mais.”“Eu acho que é desigual,” disse Frederic Wehrey, ex-oficial da Força Aérea e pesquisador sênior do programa do Oriente Médio no Carnegie Endowment for International Peace. “Os EUA estão abrindo mão de uma enorme influência ao ceder tanto, tão rapidamente.”Além da venda dos caças F-35, os EUA concordaram em liberar as primeiras entregas de chips avançados de inteligência artificial para uma empresa saudita, segundo pessoas familiarizadas com o acordo. Isso ocorreu apesar das preocupações de segurança nacional dos EUA sobre os laços econômicos entre Arábia Saudita e China.O petróleo continua sendo um pilar crítico da relação, dado o papel da Arábia Saudita como maior exportador mundial. O tema não esteve em destaque na agenda dos dois líderes, o que sinalizou a satisfação de Trump com as recentes decisões da OPEP+ — um cartel efetivamente liderado por Riad — de aumentar a produção. Isso ajudou a reduzir o preço do barril de Brent em cerca de 14% neste ano, para menos de US$ 65, reduzindo os preços dos combustíveis globalmente, inclusive nos EUA.Antes da chegada de MBS, autoridades americanas disseram que poderiam haver acordos para a Arábia Saudita comprar gás natural liquefeito americano. Nenhum acordo desse tipo foi anunciado na terça-feira, mas executivos do setor de energia devem participar de uma conferência de investimentos EUA-Arábia Saudita em Washington na quarta-feira.Mais tarde na terça, Trump disse que a Arábia Saudita compraria “quase US$ 142 bilhões em equipamentos e serviços militares americanos.” Ele não deu detalhes e não está claro como a Arábia Saudita pagará por todo esse material, dado que isso representa quase 15% do produto interno bruto anual do país.Reabilitação da imagemIgualmente importante, Trump ofereceu ao príncipe Mohammed uma reabilitação muito necessária na imagem, sete anos após o assassinato do comentarista Jamal Khashoggi. Um relatório da inteligência americana concluiu que MBS autorizou o assassinato do insider saudita que virou colunista do Washington Post, que foi desmembrado dentro do consulado saudita em Istambul por uma equipe que incluía oficiais da proteção do príncipe.“Ele não sabia de nada, e podemos deixar assim,” disse Trump, criticando um jornalista que perguntou sobre o assunto como “insubordinado.”O assassinato de Khashoggi — assim como as vítimas civis resultantes da guerra da Arábia Saudita no Iêmen — pesaram nas relações EUA-Arábia Saudita por anos, inclusive na segunda metade do primeiro mandato de Trump. O ex-presidente Joe Biden chamou MBS de “pária,” embora depois tenha suavizado o tom e iniciado negociações para um amplo pacto de defesa.Claro, a pompa do encontro na Casa Branca ocultou a escassez de detalhes concretos e prazos sobre alguns dos acordos. Embora tenha sido divulgado um resumo com o escopo geral dos negócios, não houve cerimônia de assinatura, e as negociações anteriores foram difíceis.Até a parceria de segurança aprimorada é vaga. A Arábia Saudita e outras nações cobiçam a designação de “aliado importante fora da OTAN,” e embora seja um prêmio importante em termos de status, os cerca de 20 países com essa designação frequentemente têm dificuldades para usufruir plenamente dos benefícios.Enquanto a possível venda dos caças e as promessas de investimentos ajudaram a reforçar a impressão de uma relação EUA-Arábia Saudita muito mais próxima, Trump não conseguiu fazer a Arábia Saudita normalizar as relações com Israel assinando os Acordos de Abraão que ele defende desde seu primeiro mandato. E a Arábia Saudita não obteve — pelo menos até agora — um pacto de defesa mútuo semelhante ao do Qatar, outro país do Golfo.Fracasso estratégico“O fato de ele ter conseguido vir a Washington e ser recebido na Casa Branca foi uma vitória para ele,” disse Abdullah Alaoudh, ativista saudita de direitos humanos baseado em Washington. “Mas a viagem até agora falhou em nível estratégico.”Como em muitos dos anúncios iniciais de acordos que Trump faz com parceiros, não ficou claro quão rápido a Arábia Saudita poderá colher os benefícios das promessas americanas. A promessa de vender os F-35 dará início a um longo processo de negociação que provavelmente não verá os aviões entregues por vários anos — se é que serão entregues. Autoridades de segurança nacional em Washington estão cautelosas quanto à tecnologia ser compartilhada, especialmente com Pequim.Embora os anúncios de terça-feira tenham permitido que ambos os líderes reivindicassem vitórias, o maior acordo entre os dois lados — o complexo acordo de segurança e diplomacia que requer a cooperação dos EUA, Arábia Saudita e Israel — pode levar anos.Os sauditas imaginam um acordo em que os EUA ofereçam garantias de segurança ratificadas pelo Senado ao reino, em troca da normalização das relações diplomáticas de Riad com Israel.Dada a devastação causada pela guerra de Israel em Gaza, a Arábia Saudita diz que a normalização também depende de passos concretos rumo à criação do Estado palestino.“O que os sauditas querem mesmo é um tratado de defesa mútua, e isso só estará disponível se houver um acordo completo envolvendo a normalização,” disse Michael Ratney, que foi embaixador dos EUA na Arábia Saudita durante o governo Biden e agora está no Center for Strategic and International Studies.O assassinato de Khashoggi foi “um incidente horrível,” disse ele. “Mas até a administração Biden meio que entendeu que, por mais horrível que tenha sido, isso não pode ser motivo para não perseguirmos interesses fundamentais de segurança nacional.”© 2025 Bloomberg L.P.The post Recepção calorosa de Trump dá ao príncipe saudita recompensas “desiguais” appeared first on InfoMoney.
