O assédio sexual segue como uma realidade disseminada no mercado de trabalho brasileiro – e, em grande parte, invisível. Conforme o relatório Panorama da Saúde Mental nas Empresas Brasileiras, da Gupy, empresa de tecnologia para recursos humanos, 35% das mulheres – uma a cada três – afirmam já ter sofrido assédio sexual no ambiente profissional. Apesar da dimensão do problema, apenas 10% das vítimas recorrem aos canais formais de denúncia, evidenciando um quadro de subnotificação estrutural.O dado revela que o assédio está longe de ser um episódio isolado. Trata-se de um fenômeno recorrente, que atravessa setores e níveis hierárquicos, sustentado por relações de poder desequilibradas e pela baixa confiança nos mecanismos institucionais de proteção.O avanço dos números ocorre em paralelo ao aumento da visibilidade do tema nos últimos anos. “Existe, sim, um avanço importante na forma como o tema vem sendo tratado, com mais debate público e movimentos sociais que ajudaram a tirar o assunto da invisibilidade”, afirma Gil Cordeiro, especialista em pesquisas e tendências da Gupy .Ainda assim, a leitura dos dados indica que o crescimento das estatísticas não está necessariamente ligado a uma maior incidência recente, mas também a uma maior disposição das vítimas em reconhecer e relatar situações de assédio – ainda que nem sempre formalmente.Apenas 10% das vítimas denunciamMedo e descrença travam denúnciasCrescimento das ações judiciaisAssunto crítico em ONGs e setor público Um problema estrutural Apenas 10% das vítimas denunciamSe a incidência de casos é motivo de alerta, o percentual de denúncias realizadas escancara a dimensão oculta do problema. Segundo o estudo, apenas 10% das mulheres que sofreram assédio sexual no trabalho recorreram aos canais formais de reclamação.Na prática, isso significa que nove em cada 10 casos permanecem fora dos registros oficiais. A discrepância entre ocorrência e denúncia evidencia uma falha sistêmica, que vai além da existência de canais formais.Os dados sugerem que a simples criação de mecanismos de denúncia não é suficiente para garantir seu uso. A confiança nas instituições – ou a falta dela – aparece como elemento central na decisão de denunciar.Leia também: Ações por assédio explodem na Justiça e expõem falhas no compliance das empresasMedo e descrença travam denúnciasO estudo detalha os principais fatores que explicam a baixa adesão aos canais formais. Entre as mulheres que optaram por não denunciar, mais da metade (55,7%) afirmam não acreditar que algo será feito, enquanto 41,8% relatam medo de retaliação.Esses números indicam que o problema não está apenas na ocorrência do assédio, mas na resposta institucional a ele. A percepção de ineficácia e o receio de consequências negativas criam um ambiente em que o silêncio se torna uma estratégia de proteção.“O medo de retaliação e a descrença de que algo será feito ainda impedem que a realidade apareça nos registros formais”, diz Cordeiro .Esse cenário reforça a ideia de que o assédio se mantém não apenas por práticas individuais, mas por estruturas organizacionais que não conseguem oferecer segurança e confiança às vítimas.Leia também: Chamada de “véia” no trabalho, funcionária receberá indenização por assédio moralCrescimento das ações judiciaisEmbora a maioria dos casos não seja formalizada internamente, os dados apontam um aumento na judicialização dos casos de assédio. Segundo o estudo, as ações relacionadas ao tema cresceram 35% entre 2023 e 2024, com base em dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST).O crescimento pode refletir tanto uma maior incidência quanto uma mudança no comportamento das vítimas, que passam a buscar instâncias externas diante da baixa confiança nos canais internos das empresas.A combinação entre subnotificação interna e aumento das ações judiciais sugere um deslocamento do problema: o que não é resolvido dentro das organizações acaba sendo levado ao sistema de Justiça.Leia também: Procon-SP multará estabelecimento que descumprir protocolo para mulherAssunto crítico em ONGs e setor público O levantamento também identifica diferenças na percepção do problema entre setores. O setor público e organizações não governamentais aparecem como os ambientes com avaliação mais negativa, com 17,24% dos respondentes classificando a questão do assédio de forma crítica. Depois aparecem educação (7,3%), marketing, publicidade e comunicação (7,25%), varejo e atacado (6,93%) e serviços de saúde (6,41%).O dado indica que, embora o problema seja transversal, a percepção de gravidade pode variar de acordo com o ambiente institucional e a cultura organizacional.Leia também: Lula sanciona lei contra abuso sexual de crianças e jovens atletasUm problema estrutural A leitura consolidada do estudo aponta que o assédio sexual no trabalho não pode ser tratado apenas como um desvio pontual de conduta. Trata-se de um fenômeno estrutural, sustentado por relações de poder assimétricas, fragilidade institucional e ausência de mecanismos efetivos de responsabilização.“O que esse e outros conjuntos de dados presentes no relatório sugerem é que o assédio ainda segue presente em diferentes ambientes de trabalho, apoiado em relações de poder desequilibradas, baixa confiança nos processos internos e dificuldade de responsabilização”, avalia Cordeiro .Nesse contexto, especialistas apontam que enfrentar o problema exige mais do que canais formais. É necessário construir ambientes de confiança, com apuração rigorosa, proteção contra retaliações e mecanismos contínuos de escuta.Sem isso, os números tendem a continuar altos – e, em grande parte, invisíveis.The post Uma a cada três mulheres já sofreu assédio sexual no trabalho, indica estudo appeared first on InfoMoney.
