Sem objetivo claro, EUA não sabem como — nem quando — encerrar guerra contra o Irã

Blog

A guerra entre Estados Unidos e Irã já dura mais de duas semanas, mas Washington ainda não respondeu à pergunta mais básica de qualquer conflito armado: o que, afinal, quer vencer? A ausência de um objetivo político preciso é, segundo o cientista político Gunther Rudzit, doutor pela Universidade de São Paulo e professor de relações internacionais da ESPM, a razão central pela qual o conflito não tem fim à vista — e pela qual os mercados globais seguirão sob pressão por tempo indeterminado.Para Rudzit, o impasse remete a uma lição do teórico militar prussiano Carl von Clausewitz, autor de Da Guerra, obra do século XIX que define o conflito armado como “a continuação da política por outros meios”. O raciocínio é direto: quem determina o início e o fim de uma guerra não são os militares — é a liderança política. E quando essa liderança não tem um objetivo muito claro, os militares simplesmente não conseguem atingi-lo.Leia tambémHormuz pode seguir bloqueado após cessar-fogo, e petróleo a US$ 60 não volta maisO regime iraniano não tem qualquer incentivo para liberar a passagemOs exemplos históricos são ilustrativos. Na Guerra do Golfo de 1991, o objetivo era preciso — expulsar Saddam Hussein do Kuwait — e foi alcançado. No Vietnã, os objetivos foram mudando ao longo dos anos, e o resultado é conhecido. “Um objetivo não bem estruturado, não bem definido foi a guerra do Vietnã”, disse Rudzit. O paralelo com o conflito atual é, na sua avaliação, inevitável.Companhias aéreas aumentam tarifas e cortam rotas diante de alta de combustívelIrã confirma morte de chefe do Conselho de Segurança após ataque de IsraelA análise foi feita no programa Expert Talks, da XP Investimentos, conduzido pelo estrategista macro Victor Scalet e pela analista de política Sol Azcune. A conversa reuniu o especialista para mapear os cenários do conflito e suas implicações para os mercados globais.Uma guerra, objetivos demaisO problema começa na enumeração. Donald Trump e o governo israelense já mencionaram, em diferentes momentos, ao menos quatro metas distintas para a guerra: mudança de regime em Teerã, fim do programa nuclear iraniano, encerramento do programa de mísseis balísticos e ruptura do apoio iraniano a grupos regionais como Hamas, Hezbollah e Houthis. “Não ficou claro qual efetivamente seria o objetivo do governo americano ao iniciar essa guerra.”A multiplicidade, avalia ele, é em si um problema estratégico — quanto mais alvos, mais difícil declarar vitória.Essa falta de nitidez tem consequência direta sobre o campo de batalha. Sem saber o que precisam conquistar, os militares americanos não conseguem calibrar esforço, tempo nem custo. E, do lado iraniano, a indefinição funciona como combustível: enquanto Washington não sabe o que quer, Teerã sabe exatamente o que precisa fazer — não perder.É aí que Clausewitz volta ao centro da análise. O pensador prussiano argumentava que a defesa tem vantagem estrutural sobre o ataque, especialmente em guerras terrestres. O objetivo do defensor é, antes de tudo, sobreviver. “Quem está na defesa vai arrastar o conflito e, se não perder, ganha a guerra, porque quem está atacando vai acabar, mais cedo ou mais tarde, tendo que desistir”, resumiu Rudzit. O Irã, nessa lógica, não precisa vencer — precisa apenas resistir até que os custos para os Estados Unidos se tornem insustentáveis.E o regime iraniano tem um incentivo existencial para resistir até o fim. Todos os que fazem parte do aparato do poder em Teerã — não apenas a cúpula, mas médios e baixos escalões — sabem que uma mudança de regime significa, na prática, o mesmo destino de Muammar Gaddafi e Saddam Hussein.“Todos esses que participam do regime sabem muito bem que, se houver uma mudança de regime, o futuro deles — não só da liderança — é o que aconteceu com Gaddafi e Saddam Hussein: vão ser mortos”— Gunther Rudzit, Doutor em Ciência Política.Trump também não tem saída fácilSe o Irã não pode recuar, Trump tampouco tem espaço político para encerrar o conflito de mãos vazias. Com eleições de meio de mandato em novembro, o presidente americano precisaria apresentar à sua base algo concreto — e uma retirada sem conquistas visíveis seria lida como derrota. O quadro se complicou quando, na terça-feira (17), o chefe de contraterrorismo do governo pediu demissão em protesto público, declarando que o Irã não representava ameaça iminente aos Estados Unidos. “Isso mostra o quanto esses membros raiz do MAGA (Make America Great Again) não queriam essa guerra”, disse Rudzit. “Se o presidente Trump não apresentar algo muito concreto, isso vai ter consequências muito fortes nas eleições de novembro.”Veja mais: Como a Europa está aprendendo a dizer “não” a Trump na guerra do IrãE também: EUA flexibilizam sanções à Venezuela para tentar segurar disparada do petróleoO movimento mais recente no tabuleiro militar aponta para uma escalada, não para uma saída. Um navio anfíbio americano com fuzileiros navais deixou a Ásia em direção ao Golfo Pérsico — sinal, na leitura do especialista, de que uma operação terrestre pode estar se aproximando, possivelmente contra a Ilha de Kharg, por onde o Irã escoa quase toda a sua produção de petróleo. A tomada da ilha forçaria Teerã a negociar ao cortar sua principal fonte de receita — e permitiria a Trump declarar uma vitória tangível.Mas mesmo esse movimento não garantiria um desfecho rápido. Do lado iraniano, a Guarda Revolucionária — que hoje efetivamente comanda o país após a morte de Khamenei — teria interesse em manter o Estreito de Hormuz fechado para países ocidentais mesmo após um eventual cessar-fogo, como forma de vingança e pressão econômica sobre Washington. “Dos dois lados, não há um incentivo para que essa guerra termine rápido”, concluiu Rudzit.ChinaO único ator com poder real de pressionar Teerã, na avaliação do professor, é Pequim. A China compra entre 80% e 90% do petróleo iraniano e tem interesse direto em conter a escalada — tanto para proteger suas reservas energéticas quanto para não perder mais um aliado estratégico, depois de Venezuela, Cuba e Síria. “Se começar a surgir alguma notícia de que Pequim estaria pressionando Teerã, pode ser que a gente tenha alguma aceleração desse processo”, disse Rudzit.The post Sem objetivo claro, EUA não sabem como — nem quando — encerrar guerra contra o Irã appeared first on InfoMoney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *