A decisão chocante dos Emirados Árabes Unidos de deixar a OPEP pegou de surpresa seus parceiros de seis décadas. Agora, o cartel terá que lutar para se manter relevante em um mercado global de petróleo em rápida transformação.Autoridades de outros países membros ficaram atônitas na terça-feira, já que tensões de longa data entre Abu Dhabi e a líder de fato do grupo, a Arábia Saudita, culminaram no anúncio repentino de que o terceiro maior produtor da OPEP deixará a organização em questão de dias.Leia tambémOpep: o que é, por que existe e qual o impacto da saída dos Emirados Árabes?O grupo de países produtores de petróleo fornecia mais de 25% do petróleo mundial antes da guerra no Irã. Seus membros vêm influenciando os mercados de energia ao longo dos anosEmirados Árabes fora da Opep enfraquece cartel? Quem ganha e quem perde?País quer mais liberdade para aumentar produção fora das amarras do grupo, que estipula cotas; perda do poder do cartel de definir preços do petróleo atende a desejos de Donald TrumpPara a OPEP e seus parceiros, a saída reduzirá sua capacidade de gerenciar os preços do petróleo por meio do ajuste da oferta, ao mesmo tempo em que posiciona os Emirados Árabes Unidos como um agente imprevisível — que há muito se incomoda com as restrições impostas pelas cotas da OPEP — em um momento de mudanças sem precedentes no mercado global.Futuro da OpepNo curto prazo, a produção dos Emirados Árabes Unidos e de seus vizinhos do Golfo está sendo limitada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, deixando o resto do mundo desesperado por suprimentos e tornando as cotas da OPEP irrelevantes. Porém, quando o fluxo de petróleo for retomado, a saída dos Emirados pode abrir caminho para uma nova disputa por participação de mercado e futuras guerras de preços. Autoridades já sinalizaram a intenção de aumentar a produção.Vários representantes de outros membros da OPEP+ afirmaram não esperar uma saída em massa imediata após a decisão dos Emirados.Ainda assim, a saída de um dos membros mais influentes levanta questões mais amplas. O poder da OPEP vem sendo reduzido nos últimos anos, à medida que novas produções inundaram o mercado — especialmente o petróleo de xisto dos Estados Unidos. A Arábia Saudita, que se posiciona como guardiã do mercado global, tem enfrentado dificuldades para conter membros que produzem além do permitido, enquanto o grupo já viu alguns membros menores deixarem a organização na última década.“O poder de mercado da OPEP vai diminuir”, disse Greg Brew, analista da consultoria Eurasia Group. “A saída dos Emirados compromete a credibilidade do grupo, já que o país representava uma parcela significativa da capacidade total da OPEP.”Este relato é baseado em conversas com cerca de uma dúzia de pessoas familiarizadas com o assunto, a maioria das quais pediu anonimato por se tratar de informações privadas.Saída vinha sendo construída há anosA decisão dos Emirados de sair da OPEP vinha sendo construída há anos, segundo algumas dessas fontes, remontando ao início da década, quando a turbulência causada pela pandemia de Covid-19 aprofundou divergências sobre política petrolífera entre Abu Dhabi e Riad.Essas tensões refletem um choque de visões: de um lado, a ambição dos Emirados de aproveitar ao máximo suas reservas de hidrocarbonetos antes que a transição energética atinja um ponto crítico; de outro, a preferência da Arábia Saudita por gerenciar cuidadosamente a produção e os preços do petróleo. Isso ocorre em paralelo à disputa entre os dois países pelo papel de centro de negócios do Oriente Médio e pela influência política na região.A posição dos Emirados foi moldada por uma figura poderosa: Sultan Al Jaber, diretor-executivo da Abu Dhabi National Oil Co., que frequentemente demonstrava insatisfação com as limitações impostas pelas cotas da OPEP+.Após investir bilhões em nova capacidade de produção, o país estava ansioso para recuperar esses investimentos e aumentou a produção acima dos limites estabelecidos — recebendo uma rara repreensão pública da Arábia Saudita. Abu Dhabi chegou a cogitar sair da aliança, mas não concretizou a decisão na época.Os preparativos para a saída ganharam força no fim do ano passado. O ponto decisivo, segundo o ministro de Energia Suhail Al Mazrouei, foi a guerra no Irã.O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz — rota que conecta o Golfo Pérsico aos mercados internacionais — obrigou produtores da região, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait, a interromper cerca de 10 milhões de barris por dia, ou 10% da oferta mundial, segundo a Agência Internacional de Energia.Com a produção limitada, essa paralisação tornou a saída dos Emirados menos disruptiva. Além disso, fora da OPEP+, o país poderá atender à recuperação da demanda por combustível após a guerra sem estar preso às cotas de produção.“Se a capacidade de produção está saindo da influência do cartel, isso é negativo para os preços no horizonte de três a cinco anos”, disse Clayton Seigle, do Center for Strategic and International Studies. “Isso não significa que a OPEP+ não possa continuar gerenciando o mercado, mas o medo óbvio é um efeito dominó, com outros membros seguindo o mesmo caminho. Essa é a principal questão.”Leia tambémPetróleo fecha em alta com impasse EUA-Irã e Estreito de Ormuz sem abertura iminenteO fluxo de energia pelo Estreito de Ormuz — que transporta cerca de um quinto do petróleo e gás natural liquefeito do mundo — permanece severamente interrompidoEquilíbrio do mercadoA importância da OPEP está na sua capacidade de equilibrar o mercado, especialmente cortando produção quando a demanda cai — como ocorreu na crise financeira de 2008 e na pandemia de 2020.Agora, a responsabilidade de equilibrar oferta e demanda recairá sobre um grupo cada vez menor dentro da OPEP+, liderado por Arábia Saudita e Rússia. Enquanto Riad assume o peso dos ajustes, outros grandes membros — como Iraque, Cazaquistão e Rússia — têm mostrado compromisso menos consistente.A Arábia Saudita também demonstrou frustração com a perda de participação de mercado, já que parceiros da aliança e outros produtores aumentaram sua produção. No ano passado, o reino liderou uma mudança estratégica importante na OPEP+, ampliando a oferta e abandonando a política tradicional de sustentação de preços.Apesar da rápida expansão da capacidade dos Emirados e de sua ambição de produzir mais, não está claro quanto espaço adicional existe. Estimativas variam, mas muitos analistas acreditam que o país já operava próximo do limite antes da guerra. Em fevereiro, produziu 3,64 milhões de barris por dia, segundo a Agência Internacional de Energia — número acima dos dados oficiais.“A produção dos Emirados esteve no limite por muito tempo — eles ignoraram as cotas da OPEP+”, disse Gary Ross, consultor veterano do setor. “Na prática, quem equilibra o mercado é a Arábia Saudita. No fim das contas, a OPEP é a Arábia Saudita.”Ainda assim, a saída não indica um colapso imediato da aliança. Delegados afirmam que não pretendem seguir o mesmo caminho nem veem risco de uma saída em massa.O verdadeiro teste da força da OPEP virá na próxima vez que precisar intervir. As consequências da guerra no Irã indicam que o mercado ainda precisará de todo o petróleo possível por algum tempo, mesmo após a reabertura do Estreito de Ormuz.“O que não está claro é quando teremos excesso de oferta novamente e necessidade de controle de produção”, disse Bob McNally, presidente da Rapidan Energy Group. “Isso pode levar muitos anos.”The post Análise: Saída dos Emirados surpreende Opep e ameaça abalar controle sobre petróleo appeared first on InfoMoney.
