O preço invisível da ascensão feminina: o que mães sacrificam pela carreira

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Durante décadas, a ascensão feminina no mercado de trabalho foi tratada como uma narrativa linear de conquista: mais mulheres nas universidades, nas empresas, nas lideranças e nos conselhos. Mas, neste Dia das Mães, uma série de estudos recentes ajuda a revelar outra face dessa trajetória — menos visível, mais silenciosa e frequentemente sustentada por renúncias pessoais profundas.Pesquisa da Nexus em parceria com o Todas Group mostra que o avanço profissional feminino continua acompanhado de uma pesada carga emocional e doméstica. Segundo o levantamento, 74% das mulheres afirmam ter aberto mão do autocuidado para crescer profissionalmente, enquanto 53% dizem ter sacrificado tempo com a família e o mesmo percentual relata ter deixado a própria saúde mental em segundo plano. Além disso, 25% afirmam ter desistido da maternidade — ou do desejo de ter filhos — em função da carreira.Os números ajudam a desmontar a ideia de que igualdade corporativa significa apenas presença feminina em cargos mais altos.A fatura imperceptível do sucessoO levantamento revela um mercado no qual mulheres avançam profissionalmente, mas frequentemente acumulando jornadas simultâneas.Além do trabalho formal, muitas continuam responsáveis pela maior parte da organização doméstica, do cuidado com filhos, da administração emocional da família e da logística cotidiana da casa. É a chamada “carga mental invisível”, tema cada vez mais discutido em estudos internacionais sobre trabalho e gênero.O relatório Women in the Workplace 2025, produzido pela McKinsey em parceria com a LeanIn.Org, mostra que mulheres continuam enfrentando obstáculos estruturais já nos primeiros degraus da carreira corporativa. Segundo o estudo, para cada 100 homens promovidos ao primeiro cargo de gerência, apenas 93 mulheres recebem a mesma oportunidade. Entre mulheres negras, o número cai para 60.O levantamento também aponta que mulheres recebem menos apoio estratégico dentro das empresas. Entre profissionais em início de carreira, apenas 16% das mulheres afirmam ter múltiplos patrocinadores internos (sponsors), ante 33% dos homens. Já o acesso a patrocinadores em cargos seniores alcança apenas 12% das mulheres no começo da trajetória corporativa, contra 22% dos homens.Leia também:CEOs estão ficando mais velhos — e isso diz muito sobre o novo mundo corporativoO gargalo aparece antes do topoO mesmo estudo global aponta outro problema estrutural: a desigualdade não começa apenas no acesso aos cargos mais altos, mas muito antes.A McKinsey descreve o fenômeno conhecido como broken rung — o “degrau quebrado” da carreira feminina. Em vez de perder espaço apenas no topo da hierarquia, mulheres já enfrentam barreiras na primeira grande promoção para posições de liderança, o que reduz sua presença em toda a cadeia seguinte.Na prática, isso significa que muitas profissionais precisam provar mais, entregar mais e sustentar múltiplas funções simultaneamente para avançar.O estudo aponta ainda níveis elevados de insegurança profissional entre mulheres líderes. Entre executivas seniores com menos tempo de empresa, 81% afirmam preocupação com estabilidade no emprego e perspectivas futuras dentro da organização.Leia também:Executivas abandonam gigantes e impulsionam ascensão das empresas médiasTrabalho e culpa caminham juntosOs dados brasileiros mostram ainda que o custo emocional dessa trajetória é elevado.Segundo a pesquisa Nexus/Todas Group, 37% das mulheres abriram mão de lazer, enquanto 41% afirmam ter encontrado apoio principalmente em outras mulheres, e não nas próprias estruturas corporativas.O dado ajuda a explicar por que redes femininas de apoio, mentorias e grupos internos ganharam importância nos últimos anos.Mais do que políticas formais de diversidade, muitas profissionais passaram a depender de mecanismos paralelos de acolhimento para sustentar suas carreiras.Leia também:O novo trabalhador brasileiro: mais qualificado, mais diverso — e mais pressionadoFlexibilidade virou peça centralO debate sobre jornada e flexibilidade também aparece como componente importante dessa equação.Relatórios do Gartner e da Gallup indicam que modelos híbridos ganharam relevância não apenas como benefício, mas como ferramenta concreta de retenção. Estudos globais apontam que trabalhadores valorizam cada vez mais autonomia, equilíbrio e qualidade de vida — especialmente mulheres com filhos.A própria discussão internacional sobre semana de quatro dias, que avança em países como Portugal, Reino Unido e Islândia, surge em meio a um cenário de fadiga corporativa crescente.Leia também:Profissionais de atacado e varejo têm maiores riscos de burnout, aponta estudoSaúde mental no centro da discussãoO avanço do tema também dialoga com o aumento dos afastamentos relacionados à saúde emocional.Dados compilados pela Gupy — empresa de tecnologia para recursos humanos — a partir da Previdência Social mostram que o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025. Embora o problema atinja homens e mulheres, pesquisas globais indicam níveis persistentemente mais altos de burnout entre profissionais do sexo feminino, especialmente mães.Segundo o Women in the Workplace 2025, 61% das mulheres afirmam ter enfrentado burnout frequente nos últimos meses, acima dos 49% registrados entre homens. Entre mulheres em cargos seniores com menos de cinco anos de empresa, o índice chega a 70%.Leia também:Empresas ainda promovem profissionais errados para liderar, indica estudo globalO velho modelo está sob pressãoA soma desses fatores começa a pressionar o próprio desenho das empresas.Nos últimos anos, organizações ampliaram programas de diversidade, aceleraram contratações femininas e fortaleceram discursos de inclusão. Mas muitos dos estudos recentes sugerem que a estrutura profunda do trabalho continua baseada em um modelo antigo: disponibilidade constante, jornadas extensas e dedicação integral à carreira.Na prática, ainda há forte expectativa de performance contínua em ambientes que nem sempre consideram a realidade do cuidado familiar.Leia também:Uma a cada três mulheres já sofreu assédio sexual no trabalho, indica estudoO novo desafio das empresasApesar dos avanços recentes, mulheres seguem sub-representadas em praticamente toda a estrutura corporativa. Segundo a McKinsey, elas ocupam apenas 29% das posições de C-level nas empresas analisadas, percentual praticamente estagnado em relação ao ano anterior.À medida que mulheres avançam para posições de liderança, cresce também a pressão para que empresas revisem não apenas metas de diversidade, mas o próprio funcionamento da cultura corporativa.Porque o desafio deixou de ser apenas abrir espaço. Passou a ser garantir que o crescimento profissional feminino não continue dependendo de renúncias permanentes, exaustão silenciosa e culpa cotidiana.Leia também:Executivas abandonam gigantes e impulsionam ascensão das empresas médiasThe post O preço invisível da ascensão feminina: o que mães sacrificam pela carreira appeared first on InfoMoney.

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