Nigel Farage desceu de um helicóptero enquanto o sol se punha sobre o hipódromo de Chelmsford City, em Essex. De terno azul, gravata multicolorida e um pin da bandeira britânica na lapela, ele se preparava para erguer uma taça de champanhe e fazer um brinde.O condado no sudeste da Inglaterra acabara de cair nas mãos do Reform UK, um dos vários conselhos locais que mudaram de partido nas eleições municipais anunciadas mais cedo naquele dia. “Vai ter música, vai ter bebida”, prometeu Farage no púlpito, enquanto listava todos os assentos que o Reform havia conquistado e atacava seus adversários. “Nós somos o partido da diversão.”Leia tambémPrimeiro-ministro do Reino Unido promete ‘reviver governo’ após derrota em eleiçõesPartido Trabalhista ficou sem mais de 1.100 assentos nos conselhos locais na Inglaterra, perdendo o controle de regiões que mantinha há décadasPressionado, Starmer traz ex-premiê de volta para tentar unir partido no Reino UnidoGordon Brown foi nomeado enviado especial para finanças globais como parte da tentativa de apaziguar as alas rivais do Partido Trabalhista, após o partido registrar um desempenho desastroso nas eleições locaisAo sair do palco para se juntar a uma plateia que dançava ao som de “Mr. Blue Sky”, hit do fim dos anos 1970, o bon vivant assumido fumava um cigarro e já tinha trocado o champanhe por vinho tinto. Ele disse à Bloomberg que os mercados de gilts (títulos públicos britânicos) tinham reagido bem naquela sexta‑feira à vitória do partido e às “receitas” dele para os problemas do país.O problema é que pouca gente sabe, de fato, quais são essas políticas. Farage não demorou a jogar fora pontos centrais do manifesto que o levou, junto com um punhado de deputados do Reform, ao poder. E, além de dizer à Bloomberg em Davos, no início do ano, que queria derrubar “todo e qualquer dogma” do modelo econômico britânico, os detalhes seguem em aberto.O “brexiteiro” de 62 anos ficou conhecido por, no início da carreira, trabalhar como trader de metais e levar clientes para almoços regados a álcool. Agora, ao cortejar doadores ricos, Farage ganhou uma nova base de poder e a chance de escrever, praticamente do zero, o programa do partido. O desafio é colocar um limite na diversão e encarar a seriedade do momento — tarefa cuja dificuldade é reconhecida até dentro da própria legenda.“Agora conseguimos botar o pé na porta”, diz Darren Dennis, dono de uma consultoria de saúde e segurança que foi ao comício em Chelmsford depois de vencer a eleição para o distrito de Grays Riverside, em Thurrock, pelo Reform. “Temos dois ou três anos para entregar resultado antes da eleição geral. Se não entregarmos, acabou.”O Reform experimentou o poder pela primeira vez após assumir o controle de nove conselhos locais nas eleições municipais do ano passado, e alguns de seus representantes relataram dificuldades para lidar com a realidade de gerir coleta de lixo e orçamentos de assistência social. Agora, o partido conquistou mais 14 conselhos.O novo sucesso de Farage — convertendo apoio nas pesquisas em votos na eleição de quinta‑feira, ficando em primeiro lugar na Inglaterra e garantindo cadeiras nos parlamentos da Escócia e do País de Gales — lhe dá uma chance concreta de consolidar a marca do partido: nacionalista, anti-União Europeia e cético em relação à imigração.A oportunidade parece ainda maior diante da desorganização que emergiu após a votação de 7 de maio. Um grupo de parlamentares de Keir Starmer já avisou ao primeiro‑ministro que ele está “sob aviso”. Mais amplamente, o colapso do apoio ao governista Partido Trabalhista e ao principal opositor, o Partido Conservador, enfraqueceu o duopólio tradicional e fragmentou o cenário político.É um terreno devastado em que Farage, aliado de Donald Trump, já mostrou habilidade para navegar durante os anos de elevada volatilidade política no Reino Unido. Mas isso também exigirá mais dele: com mais representação vêm mais escrutínio e responsabilidade, o que torna mais difícil manter a pose de insurgente anti‑establishment — e ignorar controvérsias como a revelação de uma doação de 5 milhões de libras de um investidor em criptomoedas.Farage será pressionado a assumir posições em temas que até agora evitou por conveniência. Mostrar quem ele realmente é pode ser o desafio mais difícil.É uma nova realidade que até ele parece reconhecer. Farage lembrou à nova leva de conselheiros do Reform o peso da responsabilidade, já que “as pessoas colocaram a fé e a confiança em vocês” num momento em que a confiança em autoridades públicas nunca foi tão baixa.Ao longo de sua trajetória na City de Londres e na política, Farage sempre apostou em construir confiança — primeiro entre clientes e, depois, entre eleitores, colegas políticos e doadores. Mas a versão de Farage que cada um desses grupos conhece é bem diferente.Uma parcela dos eleitores do Reform é seduzida pelo personagem “gente como a gente”: falastrão, cerveja na mão, papo reto. Para quem ele gosta, Farage é afável. Várias pessoas próximas dele nas últimas décadas falam de uma capacidade quase impressionante de se adaptar ao ambiente.Essa qualidade camaleônica aparece, por exemplo, na forma como ele explorou a proximidade com Trump até que a relação se tornou tóxica politicamente dentro de casa. Farage saiu de um discurso em que exaltava a amizade com o ex‑presidente americano para quase não mencioná‑la mais.Farage em campanha no País de Gales, em abril. Foto: Tom Skipp/BloombergEm encontros sociais pequenos, Farage costuma aparecer com um gim‑tônica na mão, comandando a roda, e aproveita qualquer fresta na janela para fumar um cigarro. Dependendo do público, a conversa pode ir de papo de boteco a análise histórica. Ele fala de forma quase paternal sobre auxiliares mais jovens que estão ao seu lado há anos e, longe das câmeras, parece ao mesmo tempo irreverente e reflexivo.Mas o estilo agressivo em coletivas de imprensa fez com que pessoas próximas passassem a alertá‑lo para controlar o temperamento, temendo que ele soe rabugento e pouco presidencial. Outros o descrevem como vingativo, sensível à crítica e explosivo quando é questionado.Enquanto tenta mostrar que o Reform pode transformar os ganhos locais em sucesso numa eleição geral prevista para 2029, alguns apoiadores — e críticos, de forma mais ruidosa — começam a se perguntar se Farage tem mesmo condições de converter a rebelião populista, que fala a um eleitorado desiludido, em uma força capaz de governar o país.Para isso, ele pode contar com antigos contatos da época em que trabalhava como trader de metais.O antigo colégio de Farage, o Dulwich College, em Londres. Foto: Dan Kitwood/Getty ImagesFarage deixou o colégio privado Dulwich College, em Londres, aos 18 anos e ignorou a universidade para seguir o pai na City. Foi lá que conheceu David Lilley, hoje diretor da gestora Drakewood Capital Management, e Mark Thompson, da Tamar Minerals. Os dois ajudaram a criar, no último ano, dois think tanks destinados a influenciar as políticas do Reform e de outros partidos de direita.Farage diz que entrou na política movido pela aversão à União Europeia — em especial à tentativa fracassada do Reino Unido de atrelar a libra ao marco alemão no Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio, em 1990.Esse momento cristalizou um ceticismo em relação à Europa que, segundo ele, já vinha desde o início dos anos 1980. Em entrevista à Bloomberg neste ano, lembrou:“Quando eu atendia o telefone na bolsa de metais, podia ser Paris ou Frankfurt, mas era mais provável que fosse Singapura ou Santiago. E eu pensava: estamos em Londres, nos anos 80, todos os bancos do mundo querem vir para cá. Somos um centro global de negociação. A Europa responde por menos de um quinto dos negócios externos que fazemos — por que estamos nos amarrando a um mercado único europeu?”Na noite em que o Reino Unido entrou no mecanismo cambial, Farage lembra que “passou a noite inteira reclamando no bar” depois do trabalho. Ele foi se tornando cada vez mais político quando o Tratado de Maastricht foi assinado, em 1991, abrindo caminho para maior integração e para o euro.Ao ver o governo conservador de John Major apoiar o tratado, Farage concluiu que “eles são uma perda de tempo” e ajudou a fundar o UKIP.Naquela época, política era um hobby. Hoje, é um negócio.Farage no comitê de campanha do UKIP em Buckingham, em 2010. Foto: Peter Macdiarmid/Getty ImagesFarage dorme apenas cerca de cinco horas por noite, hábito que mantém desde a adolescência, e isso abre mais tempo para trabalhar — enquanto o dinheiro flui.O jornal The Guardian revelou que Christopher Harborne, investidor britânico em criptomoedas radicado na Tailândia, deu 5 milhões de libras diretamente a Farage, além das doações recordes ao partido.Farage tenta minimizar as acusações de que a quantia deveria ter sido registrada como doação política. “Não posso ser intimidado, não posso ser comprado. Eu sei o que penso”, afirmou. Ele também disse que Elon Musk, dono da plataforma X, “tentou me empurrar para certas posições” ao cogitar doar dinheiro à política britânica, mas que resistiu às pressões.Enquanto a maioria dos políticos de seu calibre se vê pressionada a unir suas várias personas em uma só, sustentada por uma plataforma de políticas consistente, Farage pode ser uma exceção, segundo Rob Ford, professor de política da Universidade de Manchester. Os resultados eleitorais mostram que ele ainda é, em grande medida, imune a críticas sobre doações ou escândalos envolvendo declarações ofensivas de integrantes do partido, diz o acadêmico.“Se as pessoas acham que o establishment político é corrupto, apontar para um insurgente e dizer que ele também é corrupto não funciona tão bem”, afirma Ford.Desde que liderou a campanha pelo Brexit no referendo de 2016, reduzir a imigração continua sendo prioridade para Farage. Foi em torno desse eixo que ele cofundou o Partido do Brexit, em 2018, rebatizado como Reform UK pouco mais de dois anos depois, quando deixou o UKIP.Os resultados das eleições locais mostram que essa bandeira ainda ressoa com os eleitores. Regiões que votaram pela saída da UE foram significativamente mais propensas a apoiar o Reform do que áreas pró‑Permanência.Mas o sucesso também trouxe obstáculos. Segundo pessoas próximas, Farage se interessa mais por grandes slogans do que por detalhes de políticas públicas. Antes criticado por ser um “one‑man‑band”, ele nomeou porta‑vozes para áreas como Interior, Educação, Tesouro, Negócios e Energia.Uma pessoa que já trabalhou com Farage diz que ele deliberadamente manteve o partido com um “livro em branco”, contente em deixá‑lo significar coisas diferentes para pessoas diferentes, desde que isso se traduzisse em mais votos.Ainda assim, encarar o programa do Reform como cheio de buracos — e, portanto, fadado ao fracasso — é “uma complacência perigosa”, diz Ford.“Se as pessoas acham que o governo não funciona, será que se importam?”, questiona o professor.Vereadores do Reform ouvem discurso de Farage em Romford, em 8 de maio. Foto: Chris Ratcliffe/BloombergHouve alguns rompimentos públicos que sugerem tensões internas. Farage não fala mais com Rupert Lowe, ex‑deputado do partido, expulso após acusações de bullying, que ele nega. Pouco antes, Ben Habib, ex‑vice‑líder do Reform, saiu do partido após um racha amargo em que acusou Farage de não ter uma filosofia política.Alguns antigos aliados passaram a duvidar dele. Shaun Wilkinson, ex-chefe de um diretório local do Reform, disse que deixou o partido ao concluir que Farage não estava cumprindo a promessa de pressionar por uma investigação sobre gangues de exploração sexual no Reino Unido. O porta‑voz do Reform rebate que Farage fala sobre o tema desde 2012 e ajudou a forçar o governo a abrir um inquérito.As críticas, porém, pouco fizeram para esfriar o ânimo de Farage depois do desempenho do Reform nas eleições locais.Assumidamente “viciado em história”, ele cita a Primeira Guerra Mundial como o período que mais o fascina, pelas consequências sociais. Para ele, é “o ponto de virada entre o velho e o novo mundo”.Na madrugada de sexta‑feira, no 23º andar da sede do Reform na Millbank Tower, em Londres, após acompanhar com seus deputados e o ex‑financiador do UKIP Arron Banks a pilha de vitórias do partido, Farage anunciou uma “mudança histórica na política britânica”.Farage e vereadores locais do Reform comemoram o resultado das eleições municipais. Foto: Chris Ratcliffe/BloombergO partido já conseguiu vitórias importantes em nível local, mas ainda não está claro como isso se traduzirá no plano nacional. A figura de Farage claramente não agrada a todos: seu índice líquido de popularidade está abaixo dos de Zack Polanski, líder do Partido Verde, e de Kemi Badenoch, líder dos conservadores, segundo pesquisa YouGov.Ele próprio admite que, em algum momento, “vai aparecer alguém mais jovem e mais bonito” para assumir o comando.“Mas, por enquanto”, diz, “sou eu.”© 2026 Bloomberg L.P.The post Antes ridicularizado, Farage se aproxima de seu objetivo de governar o Reino Unido appeared first on InfoMoney.
