Depois de mais de um ano em que ganhar dinheiro na bolsa americana significava, na prática, apostar em inteligência artificial, o mercado começa a se movimentar em outra direção. As fabricantes de chips e as gigantes que mais gastam com IA lideram as perdas nesta sexta-feira (17), enquanto Apple, bancos, energia e meios de pagamento atraem o fluxo que sai do setor. Com isso, a rotação recoloca no radar do investidor uma pergunta que andava adormecida: onde alocar quando as vencedoras de sempre param de subir?Segundo o Goldman Sachs, as ações de chips chegaram a esta semana negociando com um prêmio sobre o restante do mercado no menor patamar de toda a era da IA, descontados os momentos de choque externo, como a guerra tarifária de 2025 e o conflito no Oriente Médio. Desde as máximas do fim de junho, elas já ficaram cerca de 20 pontos percentuais atrás do mercado como um todo.Na véspera, o S&P 500 na versão de peso igual (que dá a mesma importância a todas as empresas) fechou em máxima histórica, mesmo com o índice tradicional, dominado pelas gigantes de tecnologia, em queda. Para o trader da mesa de tecnologia do Goldman Sachs, Peter Callahan, esse descompasso mostra que o mercado está se “alargando”, ou seja, distribuindo os ganhos por mais setores em vez de concentrá-los em um punhado de ações de IA.O que explica – e para onde o dinheiro está indo?As razões são explicadas por vários gatilhos, e o principal é a desconfiança de que os gastos bilionários das empresas com infraestrutura de IA (capex) estejam perto do teto. A isso se juntou o avanço de modelos chineses mais baratos, capazes de entregar resultados parecidos com os das líderes americanas por uma fração do custo, o que ameaça a conta de retorno desses investimentos. Resultados abaixo do esperado na Netflix e o tropeço da SpaceX, que abortou um lançamento e ameaça o entusiasmo com estreias na bolsa ligadas à IA, reforçaram o mau humor.“Chips, infraestrutura, energia, tudo o que estava exposto ao tema [de IA] subiu muito, e o valuation tomou pano de fundo, o importante para o mercado é muito mais a derivada: se a estimativa de lucro está subindo ou ou não”, avaliou Leonardo Otero, fundador da Arbor Capital, em teleconferência com investidores na quinta-feira (16). “Mas nós não pensamos assim, não basta operar só narrativa, mas é o que está acontecendo”, disse.Boa parte do movimento também é mecânica. Muitos fundos operavam a estratégia de momentum, que consiste em comprar justamente o que mais sobe, na aposta de que a alta continue. Quando o vento vira, esses fundos são obrigados a desmontar posições ao mesmo tempo, o que acelera a queda. O indicador do Goldman que acompanha esse tipo de aposta recuou cerca de 33% desde o pico, uma correção comparável à do fim de 2022.O destino do fluxo ajuda a entender a rotação. A Apple voltou a superar a Nvidia como a empresa mais valiosa do mundo, beneficiada justamente por gastar menos com IA do que as rivais e por ficar de fora do debate sobre investimento excessivo. Além dela, o Goldman aponta procura por bancos, energia, empresas de meios de pagamento e ações ligadas a viagens. Mesmo dentro da tecnologia, o dinheiro migra para nichos vistos como menos dependentes da corrida por chips, caso das empresas de software de segurança digital e de infraestrutura de dados.O que fazer com a carteira?Para além do movimento do dia, há quem enxergue uma mudança de fundo. Os analistas Mika Inkinen e Nikolaos Panigirtzoglou, do JPMorgan, sustentam que o entusiasmo com a IA tende a se normalizar e que a próxima década deve se parecer mais com os ciclos econômicos “normais” das décadas de 1960 a 1980 do que com o período recente de dominância da tecnologia. Se estiver certo, ganham relevância dois tipos de estratégia que ficaram para trás nos últimos anos, as ações de valor (empresas maduras e baratas em relação ao lucro) e os dividendos.A recomendação do banco é combinar duas abordagens. A primeira é o investimento em altos dividendos, focado em empresas que pagam bons proventos hoje. A segunda é o investimento em dividendos crescentes, que privilegia companhias de mais qualidade capazes de aumentar o pagamento ano após ano. No episódio de tensão no Oriente Médio em março, enquanto o S&P 500 recuou 5,8%, as carteiras voltadas a dividendos caíram 4,1%. Em compensação, durante os anos de euforia com a IA, essas mesmas estratégias renderam menos que o índice, o que explica por que haviam saído de moda.Para Otero, da Arbor, companhias de qualidade que negociam a preços comprimidos por causa desse rótulo representam oportunidade, já que os fundamentos evoluíram mais do que o preço das ações. Mas o fundo segue apostando no setor de tecnologia, que perde para o S&P500 no ano, mas entrega mais de 25% nos últimos três anos, contra cerca de 20% do índice.Nada disso significa que a festa da IA acabou. A leitura predominante entre investidores do setor, segundo o Goldman Sachs, é de que a confiança na tese de longo prazo “segue relativamente otimista e convicta” entre os especialistas em tecnologia, com o ciclo de investimentos ainda intacto. Para boa parte do mercado, o que se vê é uma correção saudável depois de uma alta histórica, e não necessariamente o fim de um ciclo. A rotação atual pode, portanto, ser passageira.The post Fim da música de uma nota só? Rotação de IA na bolsa recoloca ações de valor no radar appeared first on InfoMoney.
