Potência climática, Brasil ainda captura pouco do investimento global

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As transformações provocadas pelas mudanças climáticas costumam ser tratadas como um desafio ambiental. Mas, para quem está na linha de frente da inovação, elas representam também uma das maiores oportunidades econômicas das próximas décadas, e o Brasil corre o risco de desperdiçá-la.As declarações foram feitas no programa O Clima na Faria Lima, apresentado por Marina Cançado, em entrevista com Júlia Marisa Sekula, cofundadora e CFO da Terradot, e Zé Gustavo, diretor-executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs.Embora o País reúna vantagens competitivas consideradas únicas – da biodiversidade ao potencial agrícola e energético –, os dois especialistas avaliam que falta ambição para transformar esses ativos em uma indústria de tecnologia climática capaz de competir globalmente.“O Brasil tem todas as vantagens competitivas para ser o melhor e maior mercado”, afirma Júlia. Ainda assim, segundo ela, quem mais aposta nas startups brasileiras hoje são investidores estrangeiros.Leia mais:Brasil pode atrair trilhões em investimentos verdes, projeta especialista da FGVRisco climático já muda o crédito ao agro e exige nova estratégia do BrasilCapital existe, mas não chega ao BrasilO avanço das chamadas climatechs já não é tratado internacionalmente como um nicho de impacto ou filantropia. Trata-se de um mercado consolidado dentro da indústria global de venture capital.Segundo Júlia, mais de US$ 90 bilhões foram levantados por fundos especializados em tecnologia climática nos últimos anos. Um volume muito superior ao tamanho de todo o mercado brasileiro de venture capital.Apesar disso, o Brasil ainda captura uma parcela mínima desses recursos. “A América Latina acessa menos de 1% desse montante”, destaca Zé Gustavo, lembrando que a maior parte do capital destinado às startups brasileiras ainda vem de gestores internacionais.Na visão dos especialistas, o contraste chama atenção porque poucos países reúnem uma combinação semelhante de recursos naturais, biodiversidade, matriz energética limpa e capacidade agrícola.“O Brasil tem muita coisa que a gente não se dá conta de quantas vantagens competitivas tem como país”— Júlia Marisa Sekula, cofundadora e CFO da TerradotCiência e tecnologia são a nova política industrialPara os Júlia e Zé Gustavo, transformar esse potencial em crescimento econômico depende menos dos recursos naturais e mais da capacidade de convertê-los em inovação. “Muito se fala sobre como é que a gente se transforma numa economia de maior valor agregado. Para mim, isso volta só para ciência e tecnologia”, resume Júlia.Ela argumenta que o país ainda investe pouco em pesquisa e desenvolvimento e, principalmente, falha em aproximar universidades, pesquisadores e empresas. Na avaliação da executiva, foi justamente essa conexão que permitiu ao Vale do Silício se tornar o principal polo mundial de inovação.Não é uma pauta ambiental. É uma disputa econômica.Para Zé Gustavo, um dos maiores equívocos é tratar clima como uma agenda restrita à sustentabilidade.“Clima vai transformar a nossa vida do mesmo jeito que tecnologia transformou”— Zé Gustavo, diretor-executivo do Fórum Brasileiro das ClimatechsNa avaliação dele, a transição climática produzirá uma reorganização semelhante à revolução digital. Assim como a internet criou empresas que hoje dominam mercados inteiros, a economia de baixo carbono deverá abrir espaço para novos líderes globais.Por isso, grandes companhias precisarão acelerar suas transformações, enquanto startups assumirão o papel de testar tecnologias em velocidade muito maior. “Nós precisamos de grandes empresas fazendo suas transições. E nós precisamos, num outro polo, de empresas de tecnologia que consigam tracionar e testar coisas muito rápido”, explica.Saiba mais:IA pode destravar infraestrutura no Brasil, diz ex-presidente do BNDESTransição energética não é como parece, e o mercado já percebeuA oportunidade ainda está no começoOs especialistas defendem que o mercado ainda vive um momento semelhante ao início da revolução da tecnologia da informação. Ao comparar o momento atual com o nascimento da Microsoft, Zé Gustavo argumenta que muitos investidores ainda observam a tecnologia climática apenas pelo risco, sem enxergar seu potencial de criação de valor.“As empresas que vão liderar os mercados daqui 40 anos, quando essas transformações do clima acontecerem, estão nascendo agora. Em que momento você vai entrar? Em que momento você vai entender sobre isso?”, questionou.Na visão dele, a pergunta central deixou de ser se haverá uma economia de baixo carbono. O debate agora é quais países conseguirão construir empresas líderes nesse processo.Brasil precisa decidir qual papel quer ocuparPara Júlia, o País ainda vive uma contradição. Enquanto investidores internacionais enxergam o Brasil como um dos mercados mais promissores para tecnologias climáticas, parte relevante do capital nacional continua distante desse setor.“O Brasil tem todas as vantagens competitivas para ser o melhor e maior mercado. Tanto que fundos de fora estão investindo em empresas brasileiras. Já empresas brasileiras não estão investindo em empresas brasileiras”, afirma.Na avaliação dos especialistas, transformar essa oportunidade em crescimento econômico exige uma estratégia que combine investimento em ciência, inovação, capital empreendedor e políticas públicas capazes de acelerar o desenvolvimento tecnológico. Caso contrário, o Brasil poderá repetir um padrão histórico: exportar recursos naturais enquanto importa as tecnologias que geram mais valor.IA pode destravar infraestrutura no Brasil, diz ex-presidente do BNDESThe post Potência climática, Brasil ainda captura pouco do investimento global appeared first on InfoMoney.

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