Os Estados Unidos querem saber o grau de lealdade de cada aliado da Otan às políticas de Donald Trump antes de decidir sobre cortes nos recursos militares destinados à defesa da aliança.Em um documento enviado recentemente aos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte e obtido pela Bloomberg News, os EUA fazem uma série de perguntas para medir o apoio dos países à abordagem do presidente. O país foi “publicamente favorável” à política externa americana? Quais “restrições” impôs ao uso de suas bases militares pelas Forças Armadas dos EUA?O documento também busca avaliar se os países estão direcionando recursos para empresas americanas do setor de defesa. Além disso, questiona se os governos “se opuseram publicamente a regulamentações” que “dificultem” contratos com companhias dos EUA. Em termos gerais, pergunta: “O país demonstrou alinhamento com a abordagem americana de ser ‘forte, clara e discreta’?” , em referência a uma frase do secretário de Defesa, Pete Hegseth.Aliados da Otan reagiram com desconforto à iniciativa, interpretando-a como uma tentativa de pressioná-los a um alinhamento ideológico em troca da proteção militar americana, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falaram sob condição de anonimato devido ao caráter reservado do documento.Vincular compromissos históricos de segurança dos EUA a esse tipo de fidelidade política representaria uma ruptura na relação transatlântica construída após a Segunda Guerra Mundial, baseada em garantias militares americanas que tradicionalmente superavam divergências políticas. A equipe de Trump já buscou fortalecer forças de direita em países como Alemanha e Hungria e ofereceu tropas adicionais à Polônia após a vitória de um candidato alinhado à sua visão.Leia tambémTrump impõe tarifa de 100% sobre importação de drones e mira até aliadosMedida atinge UE, Japão, Coreia do Sul e Taiwan com alíquotas entre 10% e 15%; governo alega dependência excessiva de fontes estrangeirasProcesso de reciprocidade marca mais um capítulo negativo da relação Lula x TrumpAo longo de um ano e meio de convivência como presidentes, os dois acumularam choques, intercalados por alguns momentos de demonstração de simpatia e aproximação.O questionário surge poucas semanas após o início da revisão de seis meses sobre a presença militar americana na Europa, conduzida pelo governo Trump e prevista para terminar em dezembro. A iniciativa levou os aliados da Otan a se prepararem para cortes significativos no apoio dos EUA, incluindo tropas estacionadas no continente e recursos militares que Washington enviaria em caso de ataque.Um oficial da Otan confirmou que os EUA estão trabalhando com os aliados nessa revisão, mas não comentou o conteúdo da carta. O Departamento de Defesa americano também não se manifestou.O documento toca indiretamente em vários temas que têm causado atritos entre Washington e seus aliados da Otan, incluindo os ataques dos EUA ao Irã, a operação para capturar o líder venezuelano Nicolás Maduro e os esforços europeus para privilegiar empresas locais em contratos de defesa.A pergunta sobre apoio público à política externa americana, por exemplo, menciona especificamente “iniciativas” no Oriente Médio e no Hemisfério Ocidental, duas regiões onde Trump realizou ações militares sem apoio da Otan.No caso do Irã, os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra em curso sem consultar os aliados da aliança. Posteriormente, alguns países, como a Espanha, proibiram Washington de utilizar bases em seus territórios para operações militares contra o país.O documento pergunta se cada governo adotou esse tipo de restrição e faz uma pergunta complementar: “Eles estão dispostos a reduzir ou eliminar essas limitações?”.Da mesma forma, os EUA surpreenderam os aliados da Otan em janeiro ao prender Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, em uma operação apresentada como parte de um esforço para recuperar a influência americana no Hemisfério Ocidental. Muitos países europeus consideraram a ação uma violação do direito internacional.O questionário também aprofunda um tema sensível para a aliança: os gastos com defesa. O documento solicita comprovações de que os países estão cumprindo metas mais elevadas de investimento militar e trabalhando para substituir equipamentos e capacidades fornecidos pelos EUA. Em destaque, pergunta se os governos estão comprando de empresas americanas e se manifestaram contra novas políticas de “produzido na Europa”.“Caso contrário, estariam dispostos a fazê-lo?”, indaga o documento.A carta foi inicialmente distribuída a governos em Washington antes de circular nesta semana na sede da Otan, em Bruxelas. Os EUA devem se reunir com aliados da aliança ainda neste mês para discutir o andamento da revisão.A expectativa é que a avaliação resulte em uma redução adicional da presença militar americana na Europa. Os EUA já anunciaram a retirada de 5 mil soldados da Alemanha e a realocação de outras forças sem reposição. Trump, porém, prometeu enviar tropas adicionais à Polônia, citando a eleição do nacionalista Karol Nawrocki para a presidência do país.Washington também está reduzindo os recursos militares reservados para responder a um eventual ataque contra aliados da Otan. Os cortes podem afetar bombardeiros estratégicos, capacidade que os países europeus não possuem, além de drones e embarcações navais.O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, argumenta que a revisão é uma decisão lógica e positiva, considerando o forte aumento dos gastos militares de Europa e Canadá.“Isso está aproximando a Otan”, afirmou a jornalistas em julho. “E realizar revisões regulares, na minha opinião, é apenas uma atitude prudente.”© 2026 Bloomberg L.P.The post EUA avaliam lealdade de aliados da Otan a Trump antes de rever apoio militar appeared first on InfoMoney.
