A crise que colocou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em lados opostos começou com as investigações sobre o Banco Master, mas avançou para uma disputa sobre a atuação da Polícia Federal e os limites de poder dentro da própria Corte.Em pouco mais de uma semana, Alexandre de Moraes e André Mendonça trocaram acusações, Edson Fachin interveio para levar parte das controvérsias ao plenário e dois ministros deram decisões opostas sobre o comando da PF. Nesta quarta-feira (9), Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues, afastado um dia antes por Mendonça.Leia tambémDelegados vêem ‘atropelo’ em afastamento de Andrei e defendem autonomia para PFPara a ADPF, o País não pode permanecer “mergulhado” em sucessivas crises que colocam a PF no “centro de disputas alheias à sua missão”Veja os principais pontos para entender a crise:Mensagens de Vorcaro colocaram Moraes no centro do casoO estopim ocorreu com a divulgação de um relatório da PF que reúne informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.O material contém 52 mensagens enviadas pelo banqueiro a um número atribuído pela PF a Moraes entre outubro e novembro de 2025. Vorcaro relata informações sobre investigações contra o banco e pergunta sobre a possibilidade de interferência junto a autoridades.As respostas supostamente atribuídas a Moraes eram enviadas como imagens de visualização única e não foram recuperadas. O material divulgado, portanto, mostra as solicitações de Vorcaro, mas não permite estabelecer, em grande parte dos episódios, o conteúdo das respostas nem comprova que os pedidos tenham sido atendidos.Relação entre o Master e a família de Moraes ampliou os questionamentosO relatório trouxe outros elementos sobre a relação entre Vorcaro e Moraes. Entre eles estão encontros entre os dois e negócios do Banco Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.Um contrato previa pagamentos milionários ao escritório. A relação comercial e os contatos com Vorcaro aumentaram a pressão para que seja esclarecido se houve conflito entre relações privadas e a atuação institucional do ministro.O escritório sustenta a regularidade dos serviços prestados. Até agora, as informações divulgadas não demonstram que Moraes tenha atendido aos pedidos feitos pelo banqueiro.A condução de Mendonça também passou a ser questionadaMendonça, relator das investigações relacionadas ao Master, retirou o sigilo do relatório e encaminhou informações à Procuradoria-Geral da República.A PGR questionou o procedimento. O procurador-geral Paulo Gonet sustentou que uma apuração envolvendo outro ministro do Supremo deveria observar as regras de competência da Corte e pediu a anulação do relatório.A discussão passou, então, a envolver duas questões diferentes, tanto sobre o conteúdo das informações sobre Moraes, quanto da a legalidade da forma como elas foram obtidas e conduzidas por Mendonça.Mendonça também se encontrou com VorcaroA crise ganhou outro componente quando veio a público que Mendonça recebeu Vorcaro para uma conversa em março de 2025.O ministro confirmou o encontro e afirmou que ouviu o banqueiro sobre uma questão envolvendo precatórios. Segundo Mendonça, posteriormente ele votou contra os interesses de Vorcaro no processo discutido.Flávio Dino retomou o episódio na decisão desta quarta-feira que reintegrou Andrei à PF. Sem afirmar que houve irregularidade, disse que a situação exigia “moderação, equilíbrio e prudência” de Mendonça.Moraes pediu investigação contra MendonçaO conflito deixou de se limitar ao caso Master quando Moraes pediu que Mendonça fosse investigado por supostos abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.Moraes usou informações de relatórios internos da PF para sustentar que o colega teria direcionado investigações por interesses pessoais e políticos.O pedido foi inicialmente apresentado no inquérito das fake news, relatado pelo próprio Moraes, o que abriu uma nova discussão sobre competência e possível conflito de interesses.Fachin interveio e levou a crise para outra instânciaO presidente do STF, Edson Fachin, entrou diretamente na disputa. Ele retirou o pedido contra Mendonça do inquérito das fake news e abriu caminho para que as controvérsias fossem analisadas institucionalmente pela Corte.Fachin também pediu explicações a Moraes, Mendonça, Andrei Rodrigues e Paulo Gonet sobre os fatos relacionados aos relatórios da PF.A intervenção colocou o plenário no centro da solução da crise, em vez de permitir que os ministros envolvidos continuassem tomando decisões isoladamente sobre acusações relacionadas entre si.Mendonça afastou a cúpula da PFA escalada chegou à Polícia Federal nesta terça-feira (8). Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues da direção-geral e de Leandro Almada da Diretoria de Inteligência.Mendonça questionou a legalidade de relatórios produzidos pela PF e apontou indícios de monitoramento irregular de autoridades. Também determinou a abertura de investigações sobre a atuação dos delegados e restringiu a produção de determinados relatórios de inteligência.A Segunda Turma chegou a formar maioria para referendar a medida, mas o julgamento foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes.Dino derrubou o afastamento um dia depoisNesta quarta-feira, Flávio Dino determinou que Andrei e Almada fossem imediatamente reintegrados.Dino tomou a decisão em uma investigação sob sua relatoria sobre o possível uso de emendas parlamentares no financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Andrei argumentou que seu afastamento prejudicaria diligências em andamento.O ministro também apontou problemas jurídicos na decisão de Mendonça. Para Dino, o Novo não tinha legitimidade para requerer uma cautelar penal contra os delegados, e uma controvérsia dessa dimensão deveria ser examinada pelo plenário.Dino afirmou ainda que a paralisação das atividades de inteligência poderia atingir investigações conduzidas por outros ministros.Decisões conflitantes expuseram um problema maiorO afastamento de Andrei por Mendonça e sua reintegração por Dino transformaram uma disputa sobre investigações em um problema de funcionamento do próprio Supremo.Agora, a Corte terá de definir questões que atingem seus próprios integrantes: se há elementos para investigar Moraes, se Mendonça observou as regras ao conduzir as apurações e quais são os limites para decisões individuais quando ministros estão pessoalmente envolvidos nos fatos analisados.Fachin passou a ter papel central na tentativa de levar essas controvérsias ao plenário.Crise já chegou à política, às ruas e ao setor empresarialA disputa ocorre a menos de um mês do primeiro turno da eleição presidencial e já entrou no discurso das campanhas. Atos realizados no 7 de Setembro tiveram críticas a Moraes e manifestações favoráveis a Mendonça.Nesta quarta-feira, CNI, Fiesp, CNC e outras entidades empresariais divulgaram um manifesto cobrando que o plenário do STF examine publicamente e com urgência os fatos relacionados à crise.O impacto sobre a imagem da Corte também aparece nas pesquisas. Levantamento Meio/Ideia divulgado nesta quarta mostrou que 51,6% concordam com a afirmação de que ministros do Supremo decidem mais por interesse próprio do que pela lei.A combinação entre suspeitas envolvendo integrantes do tribunal, decisões conflitantes e repercussão eleitoral elevou a pressão para que o STF produza uma resposta colegiada sobre os episódios.The post Caso Master, guerra entre ministros e PF: entenda a crise que atinge o STF appeared first on InfoMoney.
