A inteligência artificial prometia devolver tempo aos líderes para atividades mais estratégicas. Mas um em cada quatro diretores e executivos C-level brasileiros deixou de delegar tarefas no último mês porque acreditava que, com IA, faria o trabalho mais rápido sozinho, segundo pesquisa com 4,3 mil profissionais. O ganho individual de produtividade abre uma questão para as empresas: quando o chefe executa mais, quem desenvolve a equipe?A pesquisa da Afferolab, plataforma de educação corporativa, em parceria com a Tera, plataforma de educação em tecnologia, ouviu 4,3 mil profissionais sobre comportamento organizacional, automação e maturidade em inteligência artificial no Brasil.Entre diretores e C-levels, 25% admitiram ter deixado de delegar tarefas nos 30 dias anteriores porque, usando IA, acreditavam que fariam mais rápido sozinhos.O dado expõe um efeito menos óbvio da tecnologia sobre a liderança. A IA pode tornar um executivo mais rápido na produção de textos, análises e outras tarefas que anteriormente seriam distribuídas entre integrantes da equipe.Isso não significa, porém, que executar individualmente com maior velocidade seja necessariamente a melhor escolha para a organização.A própria pesquisa mostra que 87,5% dos profissionais usam IA para geração de textos, 67,1% para análise de dados e 63,4% para apoiar decisões estratégicas. Outros 57,5% utilizam a tecnologia para gerar imagens.Quando a pergunta passa da execução individual para automação, o número diminui: 37,8% usam IA para automatizar tarefas repetitivas.Leia também: Sete em cada 10 empresas não executam os próprios planos; o que explica?IA aumenta produtividade dos líderesOutro estudo ajuda a entender por que a tentação de fazer sozinho pode ser grande.O Executive Compensation & Talent Trends 2026 — América Latina mostra que 74% dos executivos C-level e líderes seniores latino-americanos usam ativamente IA generativa no trabalho, ante 41% em 2024 e 60% em 2025. No Brasil, a adoção chega a 75%.Entre os executivos e líderes seniores da região, 83% dizem que a IA aumentou sua produtividade individual. Outros 79% afirmam que a tecnologia melhorou a qualidade do trabalho e 72% dizem que ela permitiu concentrar-se em tarefas mais satisfatórias.O benefício individual, portanto, existe na percepção dos próprios líderes.A questão é o que acontece quando essa capacidade adicional deixa de ser usada para ampliar o desempenho da equipe e passa a incentivar o executivo a absorver tarefas que poderia distribuir.O relatório faz justamente essa distinção: a recomendação do estudo é tratar a adoção da inteligência artificial como uma discussão de liderança, e não apenas técnica. Executivos, segundo o relatório, precisam conseguir orientar equipes diante da ambiguidade, reduzir receios e estimular a experimentação de maneira estruturada.Leia também: A empresa do futuro será menos definida pela IA do que pela capacidade de aprenderProblema também aparece na gerênciaA centralização das tarefas não está restrita ao topo. Na média gerência, 69% dos profissionais afirmam utilizar IA em tarefas que poderiam ser delegadas. Desse grupo, 49,6% dizem fazer isso às vezes e 19,4%, frequentemente.No outro extremo estão os gestores que utilizam a tecnologia e disseminam seu uso.Segundo o levantamento Afferolab/Tera, somente 6,7% dos profissionais da média gerência estão no estágio mais avançado, em que delegam tarefas e capacitam a própria equipe para utilizar IA.A diferença importa porque delegar não serve apenas para retirar uma tarefa da agenda do chefe. Também distribui responsabilidade, expõe profissionais a problemas novos e permite que integrantes da equipe desenvolvam competências.Se o gestor passa a recorrer à IA para fazer sozinho aquilo que antes entregava a alguém, pode ganhar velocidade naquela tarefa. Mas a empresa precisa observar se essa escolha reduz oportunidades de desenvolvimento dos demais profissionais.Leia também: O RH já paga a academia. Agora precisa convencer as pessoas a treinarGanho do chefe não é ganho da empresaHá outro sinal de que produtividade individual e produtividade organizacional não devem ser tratadas como sinônimos.Pesquisa conduzida por Nicholas Bloom, da Stanford Graduate School of Business, com 6 mil executivos ao redor do mundo, mostra que cerca de três quartos das organizações já utilizam IA em algum grau.Apesar da disseminação, os executivos projetam ganhos médios de apenas 1,4% em produtividade e 0,8% em produção. O uso médio de IA entre os próprios líderes pesquisados é de aproximadamente 1,5 hora por semana, enquanto um quarto afirma não utilizar nenhuma ferramenta de IA no trabalho.Os números sugerem uma diferença entre incorporar a tecnologia à rotina individual e conseguir transformá-la em ganhos mais amplos para a organização.“O trem da IA e dos dados já partiu, mas existem muitos trens, e alguns deles estão despencando de um penhasco”, afirma Amir Goldberg, professor da Stanford Graduate School of Business. A avaliação chama atenção para o risco de acelerar a adoção sem definir com clareza onde a tecnologia pode efetivamente gerar valor.O próprio material que analisa os resultados de Stanford resume o desafio: “O gargalo não é a ferramenta, é a decisão sobre onde, como e com que prioridade usá-la.”Os levantamentos não são diretamente comparáveis, porque foram realizados com públicos e metodologias diferentes. Mas, juntos, ajudam a separar duas questões: o quanto a IA torna uma pessoa mais produtiva e o quanto ela torna uma organização mais produtiva.Leia também: Os CFOs nunca mudaram tanto de emprego. E isso revela uma transformação silenciosaChefe pode virar o melhor executor A pesquisa Afferolab/Tera levanta uma contradição. Quanto mais competente um executivo se torna no uso individual da IA, mais fácil pode parecer resolver sozinho uma tarefa que levaria tempo para explicar, delegar e revisar.No curto prazo, a conta pode fechar. O trabalho fica pronto mais rapidamente. No longo prazo, porém, existe uma variável que não aparece nessa comparação: o desenvolvimento da equipe.O relatório sobre tendências de talentos executivos na América Latina recomenda justamente avaliar líderes por sua capacidade de ampliar competências além da própria atuação.O documento recomenda que as empresas priorizem líderes capazes de “escalar competências entre equipes”, em vez de apenas administrar a transformação dentro da própria área.É uma mudança relevante na régua. Saber usar IA deixa de ser suficiente para quem ocupa o topo. O líder também precisa fazer com que outras pessoas consigam utilizá-la.Leia também: Você tem direito a 30 dias de férias. Então por que continua cansado?IA pode mudar o significado de delegarIsso não significa que executivos devam continuar distribuindo tarefas que a tecnologia tornou desnecessárias. Se uma atividade pode ser automatizada com segurança e qualidade, preservar o processo antigo apenas para manter a delegação também não resolve o problema.A questão passa a ser outra: o que fazer com a capacidade liberada pela IA?Um gestor pode usar a tecnologia para executar mais tarefas pessoalmente. Pode automatizar processos. Ou pode permitir que sua equipe assuma problemas mais complexos, enquanto ele dedica mais tempo a estratégia, desenvolvimento e decisões.Os dados da Afferolab/Tera sugerem que essa transição ainda está em andamento. Enquanto 87,5% utilizam IA para produzir textos, apenas 37,8% a empregam na automação de tarefas repetitivas. E, entre gestores intermediários, só 6,7% chegaram ao estágio descrito pela pesquisa como delegação acompanhada de capacitação da equipe.Para as empresas, o próximo indicador de maturidade em IA pode não ser apenas quantos líderes utilizam a tecnologia, mas o que eles fazem com o tempo e a capacidade que ela libera.Se o executivo ganha produtividade para acumular execução, o benefício tende a permanecer individual. Se usa esse ganho para desenvolver pessoas, redesenhar processos e ampliar a capacidade da equipe, a IA pode começar a mudar a organização.Leia também: Salário, cargo e status já não bastam. Descubra o novo trio que atrai profissionaisThe post IA deveria liberar o chefe para liderar, mas alguns voltaram a executar appeared first on InfoMoney.
