A disparada dos juros dos Treasuries, os títulos do Tesouro americano, abriu um racha entre os gestores: de um lado, quem vê exagero na conta de novas altas do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e já apostam na queda das taxas; do outro, os que enxergam fundamentos mais duradouros por trás do movimento, como o déficit fiscal dos Estados Unidos, e preferem não brigar com a curva.O debate ganha urgência à medida que as taxas sobem. Nesta semana, os papeis de 10 anos e de 30 anos atingiram as máximas desde 2002, em movimento que se segue nesta quinta-feira (8) após mais uma alta do petróleo.O consenso maior é sobre os principais motores da alta, com a economia americana resiliente, diante dos investimentos em inteligência artificial, e o petróleo caro que mantém a inflação pressionada – e levou o Fed a voltar a subir juros em setembro. O desacordo está principalmente nos próximos, no peso das contas públicas americanas e, por consequência, na forma como cada casa posiciona seus fundos.A gestão do fundo Itaú Janeiro, da Itaú Asset, calcula que a maior parte da alta do Treasury de 10 anos desde 2022 ocorreu em torno da divulgação de dados de atividade, como o payroll, e que, ainda assim, a taxa está cerca de 75 pontos-base acima do que esses números justificam. “Nossa avaliação é que parte da alta foi exagerada e que os juros devem recuar adiante”, escreve a gestora em carta mensal, que projeta queda do rendimento de 5,25% para 4,50%.A casa também rejeita a ideia de que os EUA enfrentam um problema inflacionário duradouro. “A alta de juros é acompanhada de uma narrativa de problema inflacionário persistente, da qual nós discordamos”, afirma a gestora, argumentando que os núcleos de inflação seguem comportados e que o efeito do petróleo tende a perder força até março de 2027. Por isso, a Itaú Asset vê excesso na precificação para o ciclo do Fed e trabalha com uma alta em dezembro seguida de manutenção ao longo do ano que vem.A leitura é similar ao do braço de gestão do banco americano JPMorgan, para quem o mercado pesou demais a mão ao embutir de três a quatro altas do Fed entre este ano e o próximo e também espera apenas mais um aumento, em dezembro, antes de uma pausa em 2027. “Achamos que o pior já passou para a alta de juros e de yields, e na frente vemos uma moderação”, disse a estrategista Marina Valentini ao InfoMoney. Ao fim de setembro, a Itaú Asset mantinha posição aplicada, que ganha com a queda das taxas, e tinha na curva americana sua preferência entre os mercados desenvolvidos. Até aqui, porém, a aposta pesa no resultado, já que a estratégia de juros em países desenvolvidos tirou 0,61 ponto percentual do fundo em setembro e 1,89 ponto no acumulado do ano.Por outro lado, se para o time do Itaú Janeiro “a dívida pública não aparece como um fator importante” na explicação da alta dos juros longos, a Legacy Capital discorda e inclui a preocupação com o fiscal das economias desenvolvidas entre os três vetores de pressão sobre a curva americana, ao lado da atividade e dos investimentos em inteligência artificial. “A perspectiva de déficits persistentes e de maior oferta de dívida soberana tende a elevar o prêmio exigido pelos investidores para carregar títulos de vencimentos mais longos”, afirma a gestora em carta aos cotistas.A Kinea Investimentos vai na mesma linha ao citar o volume elevado de emissões públicas e privadas. Na visão da casa, o movimento reflete tanto a necessidade de juros mais altos por mais tempo quanto um prêmio de risco um pouco maior cobrado por quem financia o governo americano.A Kinea também enxerga legitimidade na alta. Segundo a gestora, a taxa de dois anos ficou persistentemente acima dos juros básicos nos últimos meses, enquanto os vencimentos longos seguiam subindo. “Era a maneira que o mercado encontrou de afirmar que a política monetária estava abaixo do necessário”, diz a carta. Para a casa, a reação dos mercados sugere que a primeira alta sob o comando de Kevin Warsh, aprovada por unanimidade, foi correta, e novas elevações podem vir a depender dos dados.A gestora diz já começar a buscar, de forma tática, oportunidades para apostar na queda dos juros nos níveis atuais, mas diz ainda estar próxima da neutralidade em Treasuries. Por ora, prefere aplicar juros na Europa e no Reino Unido, onde aposta no alívio do petróleo sobre a inflação, e na Nova Zelândia e no México, onde a ociosidade das economias justificaria taxas mais baixas que as precificadas. Na Opportunity, a avaliação é mais matizada. A gestora reconhece uma assimetria de alta nos riscos inflacionários e a percepção de juros neutros mais elevados, mas observa que o movimento se concentrou nos juros reais, com a inflação implícita ainda compatível com as metas. Na leitura da casa, o próprio nível das taxas já começa a pesar sobre as autoridades. “Os níveis historicamente altos alcançados pelos juros longos começam a trazer trade-offs mais relevantes para a formulação de política econômica”, afirma. A gestora manteve, no fundo Income, a posição tomada em juros americanos, que se beneficia da alta das taxas. Para todas as casas, o próximo passo do Fed segue decisivo.The post Exagero ou novo patamar? Juros americanos em máxima de 24 anos dividem gestores appeared first on InfoMoney.
