Não é preciso entender de economia para conhecer a frase “não existe almoço grátis”, amplamente usada por quem fala de dinheiro e investimentos. No entanto, um vencedor do Prêmio Nobel de Economia já desafiou o dito popular ao afirmar que a diversificação é o único almoço grátis no universo dos investimentos. Na década de 1950, quando a seleção de ativos ainda era amadora, Harry Markowitz criou a Teoria Moderna do Portfólio e revolucionou a maneira de planejar os investimentos. Sua obra influenciou o mercado global e gerou a divisão 60/40 (60% em ações e 40% em renda fixa), famosa até hoje. Leia também: XP vê Bolsa forte em 2026 com corte de juros de Brasil e EUA; veja ações preferidasNo entanto, o mundo mudou após a pandemia de Covid-19: países desenvolvidos agora convivem com taxas de juros mais altas e inflação persistente. A correlação entre renda fixa e ações mudou e a divisão 60/40 teve seu pior desempenho na história em 2022. O InfoMoney conversou com três especialistas em alocação para entender se o jeito de pensar na carteira idealizado por Markowitz ainda é válido hoje em dia.O que Markowitz pensava sobre investimentosA Teoria Moderna do Portfólio (TMP) se propõe a ajudar investidores a potencializar ganhos enquanto reduzem riscos. Esse conceito só parece óbvio para alguns investidores atualmente por causa do economista norte-americano. Para ele, a verdadeira diversificação não está em comprar vários ativos aleatoriamente, mas em escolher instrumentos que se comportam de maneiras diferentes. Markowitz provou que o risco de uma carteira depende de como os ativos se relacionam entre si, não apenas no risco individual que cada um carrega. O economista também é responsável pelo conceito de fronteira eficiente – quando o portfólio tem o máximo retorno esperado para um determinado nível de risco. A linha amarela do gráfico abaixo representa a fronteira eficiente, que pode ser atingida observando a correlação entre ativos de baixo e alto risco e dosando a posição em cada um para encontrar a alocação mais eficiente.Fontes: XP, NasdaqPara entender a TMP ainda é importante saber que ela usa o desvio-padrão como principal métrica de risco: quanto mais um ativo se desvia de sua média histórica, maior a volatilidade e, portanto, maiores são os riscos e o retorno esperado. A Teoria de Markowitz morreu? Com a correlação entre os ativos como ponto central, a Teoria teve na pandemia de Covid-19 uma de suas principais provas. Afinal, os choques causados pelos lockdowns afetou a relação entre renda fixa e renda variável. Com inflação e juros mais altos, a renda fixa passou a ser uma opção rentável mesmo enquanto as Bolsas vão bem.Um estudo da gigante de investimentos americana KKR divulgado em julho deste ano mostrou que uma carteira com peso de 60% em ações do S&P 500 e 40% em títulos do governo americano estaria no vermelho entre janeiro de 2022 e abril de 2025, com retorno chegando a -24% em outubro de 2022 e -5% em abril deste ano. O relatório mostra que, pela primeira vez em 150 anos, a renda fixa não se comportou como a proteção na qual os investidores podem confiar enquanto as ações vão mal.No entanto, “ainda é cedo para tirar conclusões (sobre a morte da TMP)”, segundo Rodrigo Sgavioli, Head de Alocação do Research da XP Investimentos. Ele ressalta que a Teoria foi usada majoritariamente em tempos de juros baixos e inflação controlada; por isso, é necessário cautela para avaliar seu desempenho no novo cenário. O especialista conta que a XP não usa apenas a TMP como base teórica para a construção de portfólios. O modelo Black-Litterman, que permite a incorporação de crenças individuais sobre o mercado para diminuir a dependência de dados históricos, também é usado na casa, assim como a recém-incorporada estratégia de Paridade de Risco, que prevê cada classe de ativos contribuindo com uma parcela igual de risco para o portfólio. Harry Max Markowitz (crédito: Divulgação)Para Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird Investimentos, a Teoria Moderna do Portfólio continua relevante, mesmo com o aumento da complexidade dos mercados: “hoje, mais do nunca, a diversificação não está apenas na quantidade de ativos, mas na qualidade”. A divisão 60/40 ainda funciona?Harada diz que o modelo “é um ponto de partida, não uma solução universal”. Ele ressalta que “em alguns momentos recentes, ações e títulos de renda fixa caíram ao mesmo tempo, o que compromete o efeito do 60/40 clássico; então, hoje, portfólios mais dinâmicos, que se ajustam à conjuntura macro e aos ciclos de juros fazem mais sentido”. Na Tivio, a métrica de retorno esperado para os próximos anos se sobrepõe no momento de escolher os ativos. Rafael Espinoso, estrategista da gestora, diz que “ao que parece, o retorno esperado será menor tanto para renda variável quanto para a renda fixa olhando para os Estados Unidos e se faz necessário incorporar classes que poderão gerar retornos maiores ajustados ao risco”. Leia também: 18 mil motivos pelos quais é tão difícil construir uma fábrica de chips nos EUAAí entram os investimentos alternativos: ativos como ouro e instrumentos ligados à infraestrutura. Eles vêm sendo incorporados aos portfólios para buscar descorrelação e aumentar a proteção contra a inflação, maior vilã dos retornos nos últimos anos. “Temos olhado para alocações mais ligadas a ativos reais e setores da economia que representam maiores ganhos acima da inflação, como infraestrutura, principalmente lá fora”, conta Sgavioli. “É preciso ter mais ativos que te protejam da inflação e que te tirem das correlações tradicionais”. Ou seja, mesmo em um mundo mais desenvolvido, com ativos que não existiam quando Markowitz criou sua Teoria, é possível usar suas ideias para incorporar ativos como FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), debêntures, criptomoedas e ouro aos portfólios. Espinoso ensina que é preciso testar pesos nos portfólios para encontrar o ponto de equilíbrio entre risco e retorno. Para os profissionais, é importante se atentar ao que o cliente busca e fazer os ajustes necessários em momentos de euforia ou estresse, pontua o especialista. A Teoria Moderna do Portfólio “foi criada para qualquer conjunto de ativos que a gente consiga medir expectativa de retorno, volatilidade e correlação”, lembra Harada. “Então, se uma classe oferece retorno adicional e um comportamento descorrelacionado, ela pode, sim, melhorar a fronteira eficiente”. Portanto, as ideias de Markowitz seguem atuais, mas é necessário se adaptar às mudanças no cenário macroeconômico, assim como os especialistas em alocação vêm fazendo. “Nossa abordagem não é a maximização de retorno, mas sim a otimização do retorno ajustado ao risco”, diz Sgavioli. Se investir é um jogo infinito, você não pode morrer no meio do caminho”, lembra o executivo. Ao ser perguntado sobre como Harry Markowitz avaliaria a relevância da TMP atualmente, o head de alocação da XP diz que ele provavelmente entenderia que o mundo passa por uma transformação importante e “talvez não haveria ninguém melhor do que ele para discutir academicamente essas adaptações (à TMP) que vários de nós aqui estamos tentando correr atrás”. The post A divisão 60/40 ainda é a melhor para montar sua carteira de investimentos? appeared first on InfoMoney.
