A nova ambição do trabalhador é ter tempo — não apenas dinheiro

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Durante décadas, a lógica do mercado de trabalho parecia relativamente simples: crescer na carreira exigia jornadas longas, disponibilidade total, pressão constante e sacrifícios pessoais considerados parte natural da ascensão profissional.O sucesso era medido por cargo, salário, bônus e status corporativo. Mas uma série de estudos recentes sugere que esse pacto começou a mudar.Em diferentes pesquisas divulgadas nos últimos meses, trabalhadores de várias gerações passaram a indicar que qualidade de vida, equilíbrio emocional e autonomia ganharam peso semelhante — ou até superior — ao avanço hierárquico tradicional.Mais do que uma mudança de comportamento, os dados começam a indicar uma transformação mais profunda na relação das pessoas com o trabalho.O salário deixou de ser suficienteLevantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que crescimento e plano de carreira aparecem hoje como principal critério para definir o “emprego ideal”, citados por 20,42% dos trabalhadores, acima até de salário e benefícios, mencionados por 13,60% dos entrevistados.Ao mesmo tempo, uma pesquisa da WeWork em parceria com a Offerwise revelou que 64% dos profissionais aceitariam trocar de emprego por uma rotina com melhor qualidade de vida, mesmo com salário menor.O dado talvez seja um dos mais simbólicos das mudanças recentes no mercado de trabalho brasileiro.Em um país historicamente marcado pela busca por estabilidade financeira e ascensão econômica, trabalhadores passaram a incluir tempo, deslocamento, saúde mental e flexibilidade no cálculo sobre o que significa um “bom emprego”.Leia também:O preço invisível da ascensão feminina: o que mães sacrificam pela carreiraO custo invisível do trabalho começou a pesarA pesquisa da WeWork mostra que 65% dos profissionais apontam o deslocamento diário como principal fator de desgaste do trabalho presencial. Outros 53% afirmam gastar mais com transporte, alimentação e outras despesas ligadas à ida ao escritório.Mais do que uma questão logística, o trajeto passou a ser percebido como perda concreta de tempo e energia.O estudo também mostra que 93% consideram essencial equilibrar vida pessoal e trabalho.Esse tipo de percepção ajuda a explicar a resistência crescente ao retorno integral ao presencial. Segundo levantamento da mesma pesquisa, 79% dos trabalhadores que voltaram ao escritório afirmam que isso ocorreu por exigência das empresas, e não por escolha própria.Leia também:O que o Brasil pode aprender com a escala 4×3 em PortugalPermanecer também gera arrependimentoA mudança de mentalidade aparece inclusive na forma como profissionais avaliam a própria trajetória.Pesquisa da Resume Now, divulgada pela Fortune, mostrou que 58% dos trabalhadores afirmam que o maior arrependimento da carreira foi permanecer tempo demais em empregos ruins, enquanto apenas 38% dizem se arrepender de ter pedido demissão.Durante muito tempo, estabilidade e permanência eram tratadas como sinais automáticos de sucesso profissional. Agora, parte dos trabalhadores passou a enxergar o custo psicológico da permanência prolongada em ambientes considerados tóxicos ou desgastantes.Leia também:CEOs estão ficando mais velhos — e isso diz muito sobre o novo mundo corporativoDisponibilidade infinita perde forçaOs efeitos aparecem também nos indicadores de saúde mental. Dados compilados pela Gupy — empresa de tecnologia para recursos humanos — a partir da Previdência Social apontam mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais no Brasil em 2025.Ao mesmo tempo, estudos globais da Deloitte e da Gallup mostram aumento persistente de burnout, fadiga emocional e desengajamento, especialmente entre profissionais mais jovens e mulheres.O cenário coincide com um período em que empresas passaram a operar sob modelos de hiperdisponibilidade digital: mensagens fora do expediente, reuniões sucessivas, múltiplas plataformas e pressão contínua por produtividade.Leia também:Por que salário alto já não basta para manter os melhores talentosO trabalho deixou de ocupar o centro da vidaA mudança também aparece nas prioridades das novas gerações. Pesquisa da Deloitte aponta que cerca de 90% dos profissionais das gerações millennial e Z consideram propósito, bem-estar e alinhamento cultural fatores decisivos na relação com o trabalho.Na prática, o emprego passou a dividir espaço com outras dimensões da vida: saúde, família, tempo livre, projetos pessoais, autonomia e qualidade de vida.Isso ajuda a explicar por que flexibilidade virou um dos ativos mais valorizados do mercado.Levantamento State of Data 2026, realizado em parceria com a Bain & Company, mostrou que 71,6% dos profissionais da área de dados buscariam outro emprego caso houvesse retorno obrigatório ao modelo 100% presencial.Leia também:Quais as habilidades mais exigidas no mercado de trabalho? Técnica já não basta; vejaA ascensão perdeu relevânciaNada disso significa que ambição profissional desapareceu. O que os estudos sugerem é algo mais complexo: subir na carreira deixou de ser objetivo suficiente por si só.A lógica tradicional da ascensão corporativa — baseada em jornadas extensas, disponibilidade permanente e centralidade absoluta do trabalho — começou a enfrentar resistência crescente justamente entre profissionais altamente qualificados.O trabalhador contemporâneo continua buscando crescimento.Mas cada vez menos disposto a sacrificar toda a vida para obtê-lo.Leia também:Liderar à distância: o novo desafio dos gestores na era do trabalho híbridoThe post A nova ambição do trabalhador é ter tempo — não apenas dinheiro appeared first on InfoMoney.

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